Opinião

A horrível pergunta de Vítor Gonçalves

Quem nunca teve um primo falido, “muito querido” e “muito próximo”, capaz de emprestar uma casa nova de meio milhão com vista para o mar que atire a primeira pedra.

Ainda se lembram da horrível pergunta de Vítor Gonçalves? Foi feita no final de uma entrevista a José Sócrates na RTP, em 13 de Outubro de 2017: “Hoje, como é que o senhor vive, como é que o senhor paga as suas despesas?”

José Sócrates, claro está, respondeu com a elegância habitual: “Isso é uma coisa inacreditável. Desculpe lá, mas o que é que o senhor tem a ver com isso? Isso é uma pergunta de um jornalista?” Perante a agressividade da resposta, Vítor Gonçalves engoliu em seco e por um breve momento ficou com cara de miúdo apanhado com a mão na caixa das bolachas. Não tinha razões para isso – aquela era uma pergunta lógica e fundamental, como agora se está a ver.

Na altura, Sócrates avançou com uma (não) explicação. “Eu vivo de uma única coisa. Tive já algumas ofertas, recusei tudo, porque estou nesta situação, não quero prejudicar ninguém. Vivo da minha pensão de ex-deputado. É o meu único rendimento.” Após recuperar o fôlego, Vítor Gonçalves ainda insistiu: “Não vive com empréstimos do seu amigo Carlos Santos Silva?” Sócrates respondeu: “Essa pergunta é uma afronta, essa pergunta é indigna de um jornalista, é uma pergunta típica do Correio da Manhã”. E nada mais acrescentou.

Saltemos para 30 de Novembro de 2018. O Correio da Manhã titula em manchete: “Primo compra casa para Sócrates”. Se um amigo já lhe tinha oferecido desinteressadamente uma casa em Paris, agora um primo oferece-lhe desinteressadamente uma casa na Ericeira.

A história é esta: o ex-primeiro-ministro abandonou a casa alugada do Parque das Nações para se instalar numa vivenda de luxo de 300 metros quadrados com vista para o mar, propriedade do primo José Paulo Pinto de Sousa. O mesmo que a acusação do processo Marquês considera ter sido o seu testa-de-ferro até o seu nome passar a circular na imprensa em consequência do caso Freeport. E o mesmo, já agora, que no âmbito do processo Marquês garantiu estar falido.

A equipa da SIC que foi à Ericeira ouvir as explicações de Sócrates levou com a ementa do costume: indignação de entrada; péssima explicação como prato principal; e mais indignação à sobremesa. Entrada: “Não sei onde é que o senhor jornalista vai buscar a ideia de que tem o direito de fazer perguntas e incomodar as pessoas apenas por causa de actos banais da sua vida privada. Isso diz respeito a mim e ao meu primo e não diz respeito a mais ninguém.”

Prato principal: “Esse meu primo, que é uma pessoa muito querida e muito próxima, tinha uma casa que lhe foi dada como dação em pagamento e estava fechada e eu decidi vir para aqui.” Sobremesa: “Há dias em que sentimos pelo jornalismo português uma certa repugnância, porque aquilo que estão a fazer tem apenas a ver com a devassa da vida privada, com o objectivo do espectáculo mediático.”

Curiosamente, a casa que o primo “tinha” e que “estava fechada”, foi, afinal, entregue por um milionário angolano a 16 de Outubro de 2018, poucos dias antes de Sócrates ir para lá viver. Quem nunca teve um primo falido, “muito querido” e “muito próximo”, capaz de emprestar uma casa nova de meio milhão com vista para o mar que atire a primeira pedra.

Hoje em dia, Portugal inteiro lê isto e já se ri. Mas ainda há um ano, mesmo depois de deduzida a acusação do processo Marquês, muito boa gente considerou a pergunta de Vítor Gonçalves inaceitável ou, pelo menos, de mau gosto. E, há dez anos, as explicações de Sócrates já eram tão boas quanto esta – e milhões engoliram-nas sem pestanejar.

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