Relojoaria mecânica no feminino: o tempo delas tem cada vez mais complicações

Se no passado a oferta de relojoaria para mulheres não passava de jóias com ponteiros ou versões simplificadas de relógios de homem, em quartzo, hoje há grandes marcas a acordar para um segmento de mercado pouco explorado. Afinal, as mulheres também querem complicações?

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A página inicial do site da Audemars Piguet dá as boas-vindas com o novo Royal Oak Concept. Trata-se de um relógio manual, com um turbilhão, reserva de 72 horas e uma caixa de 38,5 milímetros. É também uma peça desenhada para mulheres — a primeira desta colecção, desde o seu lançamento em 2002. Como outras marcas, a relojoeira suíça está a apostar no mercado feminino ao nível da alta relojoaria.

“Nunca vi um relógio de senhora que simultaneamente encarna e subverte tão bem a ideia de um relógio tradicionalmente feminino”, comenta Jack Forster, director da Hondikee, uma revista digital especializada em relojoaria. Por um lado, é um relógio mecânico que exibe as complicações através do mostrador e no fundo; por outro, está coberto por dezenas de diamantes.

Tradicionalmente a oferta de relógios de mulher centrava-se mais em peças com jóias e movimentos de quartzo — equiparadas ora a peças de joalharia com um ponteiro, ora a versões simplificadas dos modelos de homem. Mas a ideia de que as todas as mulheres querem relógios mais enfeitados no exterior e que não dão qualquer importância às complicações está, para alguns especialistas, ultrapassada. Há muito que as marcas reconheceram o número crescente de mulheres a comprar e a usar relógios pensados para homem. Agora, estão a dar resposta a esta procura de outra forma: com peças que exibem igualmente a beleza externa e o cérebro do relógio.

Veja-se alguns exemplos: em 2017, a Omega lançou um modelo mais pequeno, de 38 milímetros, do seu clássico Speedmaster (aquele que o astronauta Buzz Aldrin levava no pulso quando pisou a Lua, na missão Apolo 11), com um calibre igualmente sofisticado; um ano antes, a Bulgari apresentou uma nova versão do seu modelo Serpenti, com o réptil enrolado à volta do mostrador em vez do pulso e um movimento manual esculpido em ouro, visível no mostrador; e a Chanel — que tem dado os primeiros passos na alta relojoaria — levou à feira de Basileia em 2017 o seu segundo calibre de manufactura própria, cujos movimentos desenham a icónica camélia da maison francesa. O Bremont Solo-32, o Tradition Dame da Breguet e o Graff Floral são outros dos vários modelos que têm surgido nos últimos anos.

Também a Patek Phillipe recebe os visitantes na homepage com o mais recente lançamento da colecção Twenty~4, que rompe com a tradição da linha feminina criada há quase duas décadas. Em contraste com os relógios rectangulares de quartzo que a caracterizavam, os novos modelos são redondos e mecânicos, com movimentos automáticos. E em vez de terem apenas um mostrador com as horas, exibem também o dia do mês e os segundos. “Combinando o estilo descontraído com competência técnica, a colecção Twenty~4 automática para mulheres resume a elegância feminina”, descreve a marca.

A procura neste segmento feminino existe efectivamente, garante Michael Fridman, embaixador da Audemars Piguet. “Estamos a vender mais relógios de mulher, tanto com como sem pedras preciosas, e estamos a vender mais relógios que tradicionalmente eram direccionados para os homens oferecerem às mulheres — incluindo de 39mm, 41mm, 42mm e até alguns de 44mm”, afirma ao PÚBLICO, por email. “Na maior parte dos mercados, as vendas de relógios de mulher subiram de aproximadamente 10% [da facturação total], há vários anos, representando hoje 30% de todas as vendas”, acrescenta.

Segundo o CEO da Breguet, Marc A. Hayek, citado pela Haute Time, em Maio de 2017, o segmento de relógios de senhora da marca “aumentou de 20% do total das vendas para 35% nos últimos três ou quatro anos”.

Já a Piaget, uma marca bastante virada para o universo feminino, identifica uma evolução nos gostos. “Nos últimos anos, a mulher tem-se interessado cada vez mais pelo mundo da relojoaria, pelos mecanismos, materiais e sobretudo pelo design”, afirma Stephanie Aubry, directora de Piaget de Espanha e Portugal, ao Culto.

Um segmento em evolução

“Este súbito interesse [das marcas] pelo ‘que as mulheres querem’ não vem de um desejo de compensar uma falta de atenção lamentável”, comenta Christophe Roulet, director do HH Journal (publicado pela Foundation de la Haute Horlogerie). “As marcas conseguiram antes identificar nas suas clientes do sexo feminino um potencial de crescimento por explorar, numa altura em que o mercado de homem saturado está a mostrar sinais de languidez”, continua. Segundo o mesmo, a crescente oferta, por sua vez, foi também estimulando a procura.

“Os relógios de mulher evoluíram de pequenos relógios de homem com movimentos de quartzo para designs frívolos com borboletas e flores e depois para algo — finalmente — com substância”, escreve na mesma publicação Roberta Naas — que no ano passado moderou a conferência Women in Luxury, com mais de cem mulheres e homens de negócio, em Nova Iorque. De acordo com Naas, a maioria das mulheres presentes no evento afirmava que estava interessada em relógios mais complexos. Sublinhavam o impacto da “informação de qualidade e material educacional disponíveis [hoje em dia] na Internet”. Já Stephanie Aubry, da Piaget, considera que “as redes sociais e os meios de comunicação consolidaram os relógios de mulher como um must”.

“As mulheres estão mais activas do que nunca. Estão a trabalhar mais do que nunca. Querem algo prático”, observa Cara Barrett, jornalista do Hodinkee — que também esteve presente na conferência —, em entrevista ao New York Times. “Cada vez mais procuram relógios que possam usar no seu dia-a-dia: confortáveis, com estilo e que marquem a sua personalidade", comenta também Stephanie Aubry.

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Não quer dizer que as marcas não comuniquem de forma diferente, consoante o tipo de relógio. Voltemos ao caso do Audemars Piguet. Enquanto as páginas dos diferentes relógios mecânicos pensados para homem se desdobram em descrições de pormenores técnicos, a do novo Royal Oak Concept refere antes a “estética distinta que evoca o Inverno no Vallée de Joux” e o mostrador de ouro branco que brilha com diamantes. Especificidades sobre o calibre ou detalhes como resistência debaixo de água nem vê-los. Em letras garrafais é resumido o espírito do relógio: “Ousado e ao mesmo tempo intensamente feminino.” Já a Patek Phillipe apresenta os novos modelos Twenty~4 com algum nível de detalhe técnico, mencionando, por exemplo, características do calibre (visível no fundo) e o mostrador com um design “legível”. 

É aqui que Sara Orlando, publisher da Watch Time nos Estados Unidos, aponta uma questão que algumas marcas têm descurado. “De certa forma, a indústria vira-se para os homens para comprarem estes relógios para as mulheres e acho que estão a olhar da forma errada, porque muitas mulheres são bem sucedidas, recebem um salário decente e elas podem comprar os seus próprios relógios, mas têm de compreender o seu valor”, comenta. Cara Barrett vai mais longe: “Acho que a indústria suíça pensa que as mulheres são como as donas de casa dos anos 1950, que precisam de um relógio de cocktail.”

Há quem argumente ainda que as classificações de género são cada vez menos relevantes, tendo em conta que muitas mulheres compram relógios (aparentemente) feitos para homem e vice-versa — sobretudo quando o comércio online se torna cada vez mais prevalente, mesmo em categorias mais altas. Na verdade, há marcas que já não fazem esta distinção, ou pelo menos não a apresentam de forma tão evidente.

Michael Fridman, da Audemars Piguet, afirma que “as categorias tradicionais de género na relojoaria evoluíram e vão continuar a evoluir”. Refere o modelo Frosted Gold, inicialmente lançado como um relógio pensado para senhora e depois adaptado para tamanhos maiores (com o mesmo design), de forma a corresponder à procura de clientes homens. “Com certeza que existem relógios que são mais femininos em termos de códigos de design ou masculinos em termos de códigos de design, mas é o indivíduo que decide o que quer colocar no seu pulso”, conclui.