Entrevista

Castro Almeida pede "tréguas" para que PSD "não caia num suicídio colectivo"

Vice-presidente do PSD lança apelo a críticos de Rui Rio e acusa António Costa de "arrogância" e "autoritarismo"

Manuel Castro Almeida, vice-presidente do PSD, reconhece que o "ruído" e o clima de "hostilidade" provocado pela guerra de poder dentro do partido está a impedir Rui Rio de fazer passar para a opinião pública as propostas de oposição ao Governo. Em entrevista ao PÚBLICO e à Renascença, que pode ouvir hoje a partir das 12h, lamenta que Santana Lopes tenha saído do PSD por meras questões de "poder".

Em Abril, depois de assinar dois acordos com o Governo, dizia-nos que a partir daí o PSD tinha de intensificar a oposição ao Governo. Foi isso que o PSD fez?
Manifestamente sim. Há um acentuar de críticas e de formulações alternativas. Basta ver o que se passou com este OE2019. O PSD apresentou mais de 100 propostas alternativas às do PSD. Apresentámos também soluções concretas sobre o problema demográfico, na área da economia e finanças. É bem certo que não há uma percepção pública das propostas do PSD. Em boa medida porque há um problema que ainda não resolvemos que é de ruído interno que dificulta que as nossas propostas passem. Quando se fala de questões internas, não se fala de oposição. 

Pois, o que se intensificou entretanto foi a polémica interna. Como é que resolverá esse ruído interno?
Vou querer contribuir para que as vozes do partido falem mais sobre o Governo e a alternativa ao Governo do que sobre as questões internas. Mas não vou fugir à questão porque ela é importante. É verdade que hoje há um clima de divisão, de confrontação, de divisão, de hostilidade no interior do partido que é excessivo, não é normal. 

Quase como se houvesse um partido na direcção e outro no Parlamento.
Há, de facto, um clima de divisão que prejudica a afirmação do partido, faz ruído e não deixa o partido afirmar as suas mensagens. Este problema tem de ser enfrentado e resolvido. Há dois lados de um conflito e isto só se resolve se os dois lados resolverem aproximar-se. Tem de haver um esforço de aproximação de ambas as partes. O primeiro responsável por garantir a unidade do partido é o presidente e a direcção. Mas também é necessário que do outro lado haja a aceitação plena dos resultados eleitorais. Ele é líder, tem legitimidade, ganhou as eleições. Quando se ganham eleições, há uma legitimidade acrescida. 

Identifica esse outro lado com o grupo parlamentar?
Não vou, de maneira nenhuma, invocar nomes de companheiros meus que na maior parte dos casos estimo.

Não está a falar de Miguel Relvas, como dizia David Justino há dias?
Não falo de nenhum nome em particular. Falo de companheiros que não se revêem na actual direcção. Têm todo o direito de não se rever, mas têm também o dever de contribuir para que o partido não caia num suicídio colectivo. Isso é dever de todos. É necessário que haja do outro lado um período de tréguas. Porque se não quem perde é o conjunto do partido. 

Mas Rui Rio parece querer afirmar-se pelo confronto e não pela aproximação.
A solução não está na confrontação, mas no diálogo, cooperação entre militantes. Não há no PSD uma fractura ideológica, divisões programáticas. Não há os socialistas e os liberais, não há aqui os inadiáveis. Há pessoas que estiveram na solução ganhadora do congresso e pessoas que não estiveram. Há lutas de poder e afirmações de diferentes estilos e diferentes métodos. Isso torna este processo mais fácil de resolver. Tem é de haver disponibilidade de ambas as partes para o compromisso evitando a confrontação de forma a colocarmos o partido no trilho que nos possa permitir afirmar as nossas propostas. 

Não diria então como o dr. Rui Rio que quem discorda, deve sair do partido?
Rui Rio não disse isso, disse que quem tem divergências estruturais deve sair do partido. Então quem tem divergências estruturais deve entrar no partido? Quem tiver diferenças estruturais deve estar fora evidentemente.

Acha que Santana Lopes teve divergências estruturais e que foi por isso que saiu?
Vejo com pena a sua saída, mas aqui não houve nenhuma diferença estrutural ou ideológica. Foi um problema de disputa de poder. Não teve o poder dentro do PSD, foi procurar uma alternativa que lhe permitisse estar no poder. Não conheço divergências ideológicas. 

Como viu o caso das faltas do deputado José Silvano? A seguir têm aparecido outros casos como as falsas presenças de Matos Rosa e Duarte Marques e agora o caso de Feliciano Barreiras Duarte. Acha possível que só os deputados do PSD tenham presenças indevidamente marcadas no Parlamento? Ou tudo isto é só luta a intriga interna social-democrata?
Não sei. Só posso dizer que não conheço os factos. Há um inquérito da PGR. Espero que o apuramento dos factos seja breve. Quanto ao princípio, é tudo muito claro: qualquer deputado que falsifique uma presença merece censura. Não há desculpa para uma coisa dessas. Se algum companheiro do meu partido praticou factos que são imputados e que aparentemente não são verdadeiros - estou, aliás, convencido de que não são verdadeiros, no caso, por exemplo, do deputado José Silvano -, era grave.

Há pouco disse que o PSD não pode entrar num caminho de suicídio colectivo. Há já quem fale em riscos de desagregação e implosão. Isso preocupa-o?
Acredito na linha ideológica do PSD. Este partido não pode nunca acabar. É o que tem melhores condições de conduzir o país a um caminho de sucesso, progresso e justiça social e de voltar a tirar Portugal da cauda da Europa. Não estou receoso da extinção do partido. Mas o país merece e precisa ter um PSD forte. Temos de nos organizar internamente. Se não fosse assim, podíamos correr o risco de deixar que o dr. António Costa tivesse uma maioria absoluta nas próximas eleições. Isso seria gravíssimo. Nestes três anos, fomos ultrapassados por três países da União Europeia: a Estónia, Lituânia e Eslováquia. E o dr. António Costa anda todo bem-disposto a achar que tem resultados fantásticos porque o PIB cresceu 2%.

O que é que o PSD acha de António Costa primeiro-ministro? Tratam-no como se fosse um primeiro-ministro razoável.
Vou tentar deixar o dr. António Costa mal-disposto sem o agredir ou insultar. Só recordo que anda a apropriar-se de méritos que não tem. Não é bonito. Faz crer que tem um crescimento económico fantástico quando afinal estamos a deixar-nos ultrapassar por outros partidos europeus. Faz crer que está a fazer um trabalho fantástico no défice quando fez um trabalho mínimo comparado com os três mil milhões por ano que Passos Coelho cortou - Costa vai cortar pouco mais de mil milhões. E apresenta-se como o campeão das contas equilibradas.

Essa é a maior crítica que faz a António Costa? Este PSD não é demasiado brando com Costa? Rui Rio, no caso da recondução da PGR, deu apoio a qualquer decisão que António Costa viesse a tomar. No caso da comissão parlamentar de inquérito a Tancos, disse que não devia ser questionado...
O dr. António Costa levanta-se todos os dias de manhã, tendo como grande preocupação continuar a ser primeiro-ministro logo à noite, ou seja, manter-se no poder. Não pensa em transformar o país, tornar o país mais rico, pôr mais dinheiro no bolso das pessoas. Os socialistas não sabem fazer isto, adoram distribuir dinheiro mas criar riqueza não é com eles. Acham que a riqueza cai do céu. Está criada uma ilusão de que as coisas estão a correr bem porque hoje há crescimento e mais emprego do que há seis, sete anos atrás. Não é sério comparar o Portugal de 2018 com o Portugal de 2010, 2011. Temos de comparar o Portugal de 2018 com o resto da Europa em 2018. Aí, todos os países da nossa dimensão cresceram mais do que nós. E se calhar vamos ficar apenas com a Roménia, a Bulgária e talvez a Grécia atrás de nós. O dr. António Costa anda com um ar sorridente e bem-disposto porque tem os portugueses iludidos. Ele contenta-se com muito poucochinho. Crescemos 2% e ele acha fantástico.

A avaliar pelas sondagens, as pessoas também se contentam porque o PS está a crescer.
O jogo de comunicação do Governo é muito mais poderoso do que o dos partidos da oposição. O PSD, por culpa nossa, não tem conseguido explicar isto às pessoas. Quando os portugueses interiorizam esta realidade, pensam duas vezes e ficam abananados. A dívida pública subiu 19 mil milhões de euros mas o dr. António Costa faz crer que baixou porque baixou na sua relação com o PIB. É uma forma habilidosa - ele, de facto, é um artista, é muito talentoso porque é um artista a iludir as pessoas.

Como se derrota um artista?
Falando verdade. Mostrar o que está mal e mostrar propostas alternativas. As coisas não estão a correr de forma fantástica mas não está nada perdido. Só depende de nós. Falta saber se temos pessoas capazes de se entender para afirmar esse caminho. Isto é a pescadinha de rabo na boca. Enquanto não houver condições, não se apresentam propostas. Enquanto não se apresentam propostas de governação do país, não há condições internas. Temos de trabalhar nos dois lados. 

Mas quando o PSD apresentou propostas para este OE também não houve pacificação mas até muitas críticas por parte do grupo parlamentar.
Tenho muito orgulho na forma como o grupo parlamentar lidou com este OE. 

Concordou com a "taxa Robles"?
Deixe-me ser franco: não a conheço suficientemente para poder pronunciar-me sobre ela.

Acha que vai de facto haver nova negociação entre Governo e os professores?
Se não houver nova negociação não estará a ser cumprido o mandato do Parlamento. Será mau e um erro do Governo. Quero apelar a que ambas as partes saiam da posição de intransigência em que estiveram. Não é caminho. Os nove anos não têm que ser uma vaca sagrada, nem o Governo deve ficar pelos dois anos. Há caminhos intermédios que passam pelo estatuto da carreira docente e pela aposentação. O Governo está com tiques de autoritarismo que se calhar o vão recusar a sentar-se à mesa com os professores. Isso é muito mau. Se ele, sem maioria absoluta, já está com esta arrogância, tem o rei na barriga, parece que sabe tudo, então o que seria António Costa com maioria absoluta?

No orçamento, que é aprovado esta quinta-feira, o PSD teve comportamentos irregulares: esteve ao lado da esquerda na questão dos professores e do BE na "taxa Robles"; juntou-se ao Governo para impedir alterações no IRS, por exemplo. Os eleitores percebem a posição do PSD?
Há uma mensagem forte que é a valorização das empresas no desenvolvimento do país.

Já foi governante, mas também já foi autarca. Como está a ver o caso de Borba? O autarca já se devia ter demitido? Está a ser poupado pelos outros partidos por ser um independente eleito por um movimento?
O fenómeno de Borba é um pequeno fenómeno com consequências dramáticas no meio de uma grande avalanche de desconsideração pelas infra-estruturas. Sou a favor primeiro do apuramento de factos. Se os factos forem o que parece que são, [o autarca] não terá nenhumas condições [para se manter no cargo].