Entrevista

"O Estado russo não se está a comportar de uma forma estável e clara"

O analista Andreas Umland diz que o confronto no mar de Azov “deixa Trump numa situação mais difícil do que antes”.

Foto
Andreas Umland DR

O alemão Andreas Umland é um especialista em História russa e ucraniana que vive em Kiev, onde é professor na universidade. Diz que o reacender da tensão entre os dois países vai obrigar o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a responder de forma mais dura a Moscovo. Sobretudo depois das críticas que fez a Obama na altura da anexação da Crimeia. 

O apresamento de navios ucranianos por parte da Rússia terá algum impacto adicional nas relações entre Moscovo e o Ocidente, que já estavam mal?
Não estou certo que este incidente seja do interesse dos objectivos das relações externas da Rússia. Pode ser bom para as questões internas porque pode ser usado por Putin. É um pouco difícil de saber como irá o Ocidente reagir, porque as relações já são bastante más. Mas creio que irá tornar ainda mais negativa a percepção do Ocidente face à Rússia.

Esperava-se que na próxima reunião do G-20, na sexta-feira, Vladimir Putin e Trump se voltassem a encontrar pessoalmente. Qual será a recepção ao Presidente russo nesse encontro?
Isto deixa Trump numa situação mais difícil do que antes, porque a expectativa agora é de que haja uma reacção mais dura da sua parte. Porém, o seu comportamento até agora vai no sentido de procurar uma aproximação com Putin e este episódio complica essa estratégia. E também vai contra as críticas que Trump fez a Barack Obama por não ter sido mais resoluto em 2014, quando a Crimeia foi anexada.

Toda esta ambivalência pode ser uma explicação para o aparente comportamento inconsistente da Rússia nos últimos dois dias. Atacaram os barcos, bloquearam as rotas comerciais, depois voltaram a abri-las, também houve uma informação falsa divulgada pela agência estatal RIA Novosti de que a Ucrânia estaria a bombardear uma zona residencial de Donetsk [na zona separatista do Leste da Ucrânia] com artilharia pesada. E agora parece haver uma descida da tensão. O Estado russo não se está a comportar de uma forma estável e clara. Provavelmente deve-se às diferentes facções no Kremlin que discordam sobre a forma como conduzir este assunto.

É expectável que sejam aplicadas novas sanções contra a Rússia?
É difícil de prever. É mais complicado e lento aplicar sanções, mas antecipo que isto justifique novas sanções da parte dos EUA, ou então uma aplicação mais rigorosa das existentes. A posição americana está simplesmente escondida neste conflito entre Trump e o Congresso sobre a política para a Rússia.

O que aconteceu foi mal calculado por parte dos russos?
Algumas pessoas especulam que a subida da tensão é do interesse da Rússia, porque a popularidade de Vladimir Putin caiu para os níveis anteriores aos da anexação da Crimeia. E agora alguma escalada militar é vista com bons olhos na Rússia. Outra hipótese é de que pode haver problemas com a ponte da Crimeia [no estreito de Kersch, construída pela Rússia e inaugurada em Maio]. Pode haver alguma instabilidade nos materiais da estrutura da ponte e pode estar até a desmoronar-se, e estas operações fornecem uma narrativa para se justificar um possível encerramento da ponte.