Opinião

Queria um copo de água, depois vou fazer a barba

Não temam usar expressões como “voltar atrás”, “pelos vistos”, “fazer a barba”. Se lerem Marco Neves, perceberão porquê.

Reparem na frase: “Queria um copo de água, se faz favor.” Por brincadeira, ainda há quem responda: “Queria? Já não quer?” Mas há mesmo quem se indigne, garantindo que quem pede água, por exemplo, ao balcão de um café ou restaurante, deve dizer: “Quero um copo com água.” Sim, porque se quer, quer agora (não é “queria”!); e além do mais o copo não é de água, é de vidro, ou de alumínio, ou de plástico. O preciosismo podia agravar-se, caso o pedido fosse de um copo de leite. Porque até o “se faz favor” podia ser posto em causa, já que, sendo o copo de leite pago, o empregado não estava a fazer um favor, mas a vendê-lo.

Sim, é verdade, há muitos erros de português por aí. Mas não estes. E se é bom termos na escrita alguma exigência e apuro (como pede Manuel Monteiro no seu recente livro Por Amor à Língua, ed. Objectiva), também é importante perceber que na linguagem coloquial e nas expressões idiomáticas, populares ou não, há muitos falsos erros que os puristas se encarniçam em combater sem razão para isso. E se Manuel Monteiro, num livro anterior, Dicionário de Erros Frequentes da Língua (Sóregra Editores, 2015), apontava muitos erros verdadeiros, o que também fez Helder Guégués no seu Em Português, Se Faz Favor (Guerra & Paz, 2015), vem agora Marco Neves torcer a vara num outro sentido (só na aparência, porque o sentido é o mesmo) com um Dicionário de Erros Falsos e Mitos do Português (Guerra & Paz, 2018). O livro, lançado anteontem em Lisboa, na Bertrand de Picoas, teve apresentação de Fernando Venâncio, mas não directa, já que por motivos de saúde ele não pôde estar presente. Mas no seu texto, lido pelo editor Manuel S. Fonseca, considerou o livro uma “obra sólida e aliciante” e “um verdadeiro serviço público”. Já Marco Neves, dando vários (e divertidos) exemplos do que nele aborda, deixou claro que não defende um “vale tudo”: “Para evitar erros de português temos de ser exigentes. E esta exigência também implica que saibamos como é que as coisas funcionam na língua.”

Professores, tradutores, revisores, escritores, todos os nomes atrás citados (Monteiro, Guégés, Venâncio, Neves) têm em comum uma preocupação séria com a língua e com o seu uso, na fala ou na escrita, mesmo podendo não estar totalmente de acordo num ou noutro caso (outra coisa em comum, e de relevo: nenhum deles aplica o chamado “acordo ortográfico” de 1990). Mas é bom lê-los para entender melhor as subtilezas do português.

O caso de Marco Neves, que já antes editara outros dois livros a contrariar ideias feitas (Doze Segredos da Língua Portuguesa, 2916; e A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa, 2017, ambos pela Guerra & Paz), é particularmente interessante, porque se tem batido pela aceitação de expressões que horrorizam os puristas, mas que são de uso corrente e nalguns casos até os puristas se socorrem delas sem darem por isso. O caso do “copo de água” é transparente, como o dito. Ninguém diz “copo com água”, “barril com vinho” ou “garrafa com cerveja”. Porque “copo”, “barril” e “garrafa”, além de recipientes, são usados vulgarmente como medidas. Ao dizer “copo de vinho”, “garrafa de vinho” ou “barril de vinho”, ninguém pensa nos materiais que os compõem (vidro, madeira), mas sim na quantidade correspondente de líquido que transportam. Outro caso: “tirar a impressão digital” ou “tirar uma fotografia” nunca é entendido (e seria idiota, se o fosse) no sentido literal de subtrair.

Assim, tal como há erros e falsos erros, há veras redundâncias (como “protagonista principal”, bem assinalado por Manuel Monteiro) e falsas redundâncias, como “Português de Portugal”, agora assinalado por Marco Neves. Este escreve, no seu livro (a págs. 166): “Se quisermos impor uma lógica absoluta à língua, temos de acabar com os verbos irregulares, com expressões idiomáticas, com muitas metáforas — e temos de riscar do mapa muita poesia e muita literatura que se baseia em ambiguidades e paradoxos.” Ou seja: “Se a língua pudesse ser arrumada à força, já não seria esta língua, mas outra coisa qualquer, bem mais mecânica e muito diferente do nosso português.”

Por isso, não temam usar expressões como “voltar atrás”, “pelos vistos”, “fazer a barba” (mesmo que signifique desfazê-la, apará-la, cortá-la) ou “sorriso nos lábios”. Até porque já as usam, sem darem por isso, todos os dias. Se lerem Marco Neves, perceberão porquê.