Trump sob pressão – agora é a CIA a acusar líder saudita de mandar matar jornalista

O Presidente, defende o senador democrata Richard Blumenthal, “tem de aceitar (por uma vez) as conclusões incontestáveis dos seus serviços secretos” e não pode deixar sem consequências “este assassínio descarado”.

Um funeral simbólico realizado em Istambul
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Um funeral simbólico realizado em Istambul Reuters/HUSEYIN ALDEMIR
Oficialmente, Mohammed bin Salman é herdeiro do trono, na prática manda no reino
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Oficialmente, Mohammed bin Salman é herdeiro do trono, na prática manda no reino LUSA/BANDAR ALGALOUD / SAUDI ROYAL PALACE HANDOUT
Khashoggi estava com receio de ir ao consulado saudita
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Khashoggi estava com receio de ir ao consulado saudita Reuters/HANDOUT

Devia estar a chegar ao fim a fase “já sabíamos que sabiam que nós sabíamos” na gestão que a Casa Branca de Donald Trump tem feito do brutal assassínio de Jamal Khashoggi, o jornalista e escritor morto no consulado da Arábia Saudita em Istambul, a 2 de Outubro. “Esta é uma daquelas situações em que basicamente toda a gente sabe o que aconteceu”, resume, citado pelo Washington Post, um conselheiro da Administração. Trump preferia não saber.

Segundo o mesmo jornal, onde Khashoggi assinava uma coluna, a CIA concluiu que foi o príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, a ordenar a morte do saudita que vivia desde o ano passado na Virgínia, nos Estados Unidos. Sem conseguir evitar as perguntas sobre o tema, Donald Trump disse este sábado que ainda não analisou o relatório. “Os EUA estão determinados em responsabilizar todos os envolvidos”, afirmou o vice-presidente, Mike Pence, à margem de uma cimeira na Papuásia-Nova Guiné.

Diferentes responsáveis ouvidos pelo Post e pela Associated Press garantem confiar na avaliação da CIA: MBS (como gosta de ser tratado) ordenou e o “esquadrão da morte” de 15 agentes enviado a Istambul executou.

Entretanto, a CIA já apresentou as suas conclusões ao Congresso e ao Departamento de Estado – num sinal da ginástica retórica que deverá seguir-se, a porta-voz do Departamento disse que “as notícias a indicar que o governo tem uma conclusão final não são correctas”. Insistindo que “há inúmeras perguntas sem resposta”, Heather Nauert acrescentou que a busca pelos factos continuará “ao mesmo tempo que se manterá a relação de importância estratégica entre os EUA e a Arábia Saudita”.

É raro um comentário de Trump sobre o caso que não inclua referências aos “milhares de empregos” que os EUA devem aos contratos de armas com os sauditas ou à importância de Riad para manter o equilíbrio nos mercados petrolíferos ou fazer frente ao Irão, inimigo comum no Médio Oriente.

Já do Congresso, onde se discute uma lei para suspender a venda de armas a Riad e proibir os EUA de reabastecerem os aviões sauditas envolvidos na mortífera guerra no Iémen, chegaram palavras num tom algo diferente. “Tudo aponta para que o príncipe herdeiro, MBS, tenha ordenado a morte do jornalista do Washington Post Jamal Khashoggi. A Administração Trump deve determinar a responsabilidade de forma credível antes de MBS executar os homens que aparentemente seguiam as suas ordens”, escreveu no Twitter o republicano Bob Corker, presidente do Comité de Relações Externas do Senado.

O Presidente “tem de aceitar (por uma vez) as conclusões incontestáveis dos seus serviços secretos: o príncipe herdeiro MBS é culpado do monstruoso assassínio de Khashoggi”, afirmou o senador democrata Richard Blumenthal. “Este assassínio descarado tem de ter consequências – sanções, acusações, saída do poder de MBS e outros, o fim do encobrimento que Trump tem permitido”, acrescenta.

Trump terá agora mais dificuldades em afirmar que acredita na versão saudita (já houve várias) e na inocência do homem que controla todas as áreas importantes da política do reino – e com quem o Presidente, e principalmente o seu genro e conselheiro, Jared Kushner, desenvolveram uma relação muito próxima.

Escutas e telefonemas

A CIA chegou às suas conclusões depois de analisar diferentes fontes, incluindo as escutas que os turcos têm do interior do consulado e uma série de telefonemas interceptados – um feito pelo irmão do príncipe (e embaixador em Washington), Khalid bin Salman, a Khashoggi dizendo-lhe que não temesse ir ao consultado (o jornalista estava hesitante mas precisava de um documento para casar com a noiva turca); outro feito por um próximo do príncipe ao seu principal conselheiro, informando-o que a operação estava terminada.

Às provas circunstanciais somam-se o conhecimento da forma de exercício de poder de Mohammed bin Salman – face à sua “autoridade absoluta é impossível que uma operação desta escala, envolvendo 15 agentes que viajaram para o estrangeiro em aviões do governo, não contasse com a sua autorização”.

Para além disso, depois da fatal visita de Khashoggi ao consulado, diferentes serviços de segurança americanos encontraram nos seus arquivos indicações de que a família real estava a tentar atrair Khashoggi de regresso a Riad.

Entretanto, na capital saudita, depois de terem dito que a morte de Khashoggi resultara de “uma luta” entre o jornalista e agentes sauditas, os procuradores já acusaram onze suspeitos e pediram a pena de morte para cinco. O vice-procurador do reino, Shaalan al-Shaalan, deu conta da última versão: estes cinco homens ordenaram que Khashoggi fosse drogado e desmembrado depois “de terem falhado as conversas” dentro do consultado para o convencer a regressar ao país. E, claro, Mohammed bin Salman não está implicado.