Opinião

O milagre do sensacional pão da Gleba

O pão de trigo Barbela inventado por Diogo Amorim e feito pelos padeiros da Gleba é, calmamente falando, o melhor pão do mundo de todos os que já provei. Este milagre acontece todos os dias, menos à segunda e à terça.

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Nuno Ferreira Santos

Divido a minha vida em duas partes: a parte estúpida e triste em que não conhecia o pão da Gleba e a parte esperta e feliz em que o único pão que como é o da Gleba.

O pão de trigo Barbela inventado por Diogo Amorim e feito pelos padeiros da Gleba é, calmamente falando, o melhor pão do mundo de todos os que já provei. É como comer pão pela primeira vez. Por causa da frescura da farinha, acabada de moer, e da proximidade ribatejana, alentejana ou transmontana desse trigo, o pão sabe mesmo a pão, ao contrário de todos os outros pães que sabem a velho e doce e mofo e pastelaria.

A padaria Gleba que fica em Alcântara também faz dois pães diferentes todos os dias. Podem ser de batata-doce de Aljezur ou de queijinhos de cabra. São deliciosos. No entanto, para prová-los, é preciso uma coisa impossível: prescindir de comer o pão de Barbela e outro que também fazem igualmente impossível de preterir: o pão de trigo alentejano.

Como todos os portugueses, considerava-me louco pelo pão alentejano, cada vez mais difícil de encontrar. Pois o Diogo Amorim conseguiu arranjar trigo autenticamente alentejano e com ele fez um pão de trigo que é o melhor pão alentejano que já provei.

A côdea é sensacionalmente estaladiça e o miolo é elástico, infinitamente mastigável, fazendo com que o prazer de comê-lo ganhe mais dois minutos de vagar. Por isso também se come menos pão - porque uma fatia é o suficiente para se ficar saciado, tal é a fartura que o pão oferece.

Aviso já que o dilema é ter de escolher entre o pão de trigo Barbela e o pão de trigo alentejano. É trágico não se poder comer os dois pães ao mesmo tempo, embora se consiga fazer uma tosta subversiva com uma fatia de cada pão.

Como lembrou o sempre sábio Edgardo Pacheco, este pão come-se com uma grande manteiga ou com um grande queijo - nunca com as duas coisas ao mesmo tempo. Estando eu ainda na fase do "apaixonamento", só consigo comer com manteiga. A partir do segundo dia - é um pão que dura uma semana - torro cada fatia para obter a melhor torrada imaginável.

Nesta angústia gustativa, confesso que vou sempre para o pão de Barbela, apesar do pão de trigo alentejano ser sublime. Como pessoa antiga, digo já que este pão não é um pão à antiga. É uma criação de Diogo Amorim. É graças à coragem, à erudição e à intransigência dele que temos a sorte de poder comer este pão verdadeiramente magnífico.

Vale mesmo a pena procurar as entrevistas que ele tem dado para perceber o trabalho que deu - e dá - fazer este pão. Fala-se muito na idade dele (tem 23 anos), mas até podia ter 13 ou 83 anos. É uma questão de talento, de conhecimento, de disciplina e de uma generosidade que acaba por ser bondade pura.

Na padaria os clientes são cúmplices e os empregados também. Um dos grandes triunfos de Diogo Amorim foi ter formado uma equipa de padeiros que trabalha lindamente sem a presença constante dele. Até nisto ele é clarividente, mostrando que é uma treta vaidosa o lugar-comum de "tenho sempre de lá estar, claro".

Já comi por várias vezes o pão feito quando lá está o Diogo e aquele que é feito quando ele lá não está: não há diferença. São ambos estupendos. Na padaria da Gleba não é um superstar sobredotado que faz o pão, coadjuvado por minions: são os talentosos e dedicados padeiros da Gleba. É um prazer vê-los a trabalhar, concentradíssimos, profissionalíssimos, invejavelmente confiantes no valor do trabalho deles.

Nunca mais tive vontade de comer outro pão. Para variedade basta-me ter de escolher entre o Barbela e o trigo alentejano. Já chega para efeitos de me dilacerar. Escolho quase sempre o de Barbela mas fico cheio de pena (e de raiva) por ter perdido uma oportunidade de deliciar-me com o alentejano.

É tão bom o pão da Gleba que é este o dilema que me traz entretido. Ter acontecido isto com um pão - num país com tantos pães (menos) bons - é mais do que  maravilhoso. É um milagre.