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“Nas curtas de animação há muitas mulheres e realizadoras, e isso é raro"

A 42.ª edição do festival de cinema de animação Cinanima começa esta segunda-feira em Espinho com um único programa temático: Animação no Feminino, 16 escolhas da realizadora Regina Pessoa que mostram que há um sector onde as mulheres sempre tiveram trabalho.

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Amélia & Duarte, de Alice Eça Guimarães e Mónica Santos, é um dos filmes seleccionados por Regina Pessoa dr
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28 de Outubro, de Tiago Albuquerque, um dos filmes portugueses em competição DR
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Agouro, de David Doutel e Vasco Sá, um dos filmes portugueses em competição DR
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Entre Sombras, de Mónica Santos e Alice Guimarães, um dos filmes portugueses em competição DR

“Nas curtas de animação há muitas mulheres e realizadoras e é raro ver isso noutros formatos e géneros. Essa diversidade há muito existe e este programa é uma forma de mostrar que há um género e um formato em que há muitas mulheres a ter lugar.” Regina Pessoa, realizadora multipremiada e um dos nomes mais reconhecidos da animação portuguesa, resume assim o único programa temático da 42.ª edição do festival Cinanima, que começa esta segunda-feira em Espinho: uma amostra da Animação no Feminino que comissaria. Num ano em que a situação das mulheres no trabalho esteve em análise, o festival foca-se num sector em que elas sempre estiveram ao centro.

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Regina Pessoa, fotografada em 2013 RUI FARINHA

O programa, escolhido pela autora de Kali, o Pequeno Vampiro (2012) ou História Trágica com Final Feliz (2006), consiste em 16 filmes, todos realizados por mulheres, a exibir em duas sessões nos dias 14 e 15, às 23h30 no Centro Multimeios de Espinho. Serão dois finais de noite de um festival em que se realizam as habituais estreias, competições e workshops, mas em que, a convite da organização, terão oito filmes em cada sessão para mostrar linguagens, nacionalidades, gerações e perspectivas amplas de autoras que fazem curtas-metragens de animação.

É uma divisão especial esta da grande casa da animação. Regina Pessoa, que estudou Pintura e não Animação, diz ter sido seduzida por este mundo quando viu as primeiras curtas de animação de autor, “este universo em que se faz filmes com uma riqueza plástica e narrativa muito grande”, explica ao telefone com o PÚBLICO. E nele sempre houve muitas realizadoras, argumentistas, animadoras. “Se passarmos para a indústria [como um todo], aí a mulher tem menos presença – é um facto, não se vê mulheres nas longas de animação muito populares. Mesmo na Disney, nos animadores da equipa. A indústria é maioritariamente masculina.”

Arrisca que isso talvez se deva ao facto de não haver “grande lucro em jogo, porque quando há muito dinheiro em jogo o homem domina. Faz-se por gosto, não há mercado, não há ganhos, não há lucros”, reflecte a realizadora, que este ano passou a integrar a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood e, assim, a curta lista de profissionais de cinema portugueses que podem votar para os Óscares

Agora, terá o Cinanima para evidenciar os três eixos em que pensou esse panorama da animação de autor, versão curtas, no feminino: “Os meus filmes favoritos, e muitos deles são, por coincidência, realizados por mulheres”; “um factor geracional, os filmes que já existiam quando cheguei à animação, com os quais aprendi — as minhas ‘mães’”; “e os filmes das minhas contemporâneas”.

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História Trágica com Final Feliz, de Regina Pessoa DR

O resultado é um conjunto de filmes dos quais Regina Pessoa destaca The Street (1997), de Caroline Leaf, baseado no conto homónimo do escritor Mordecai Richter e que descreve memórias de infância de uma família judaica no Canadá e os seus idosos. “É um filme icónico para o cinema de animação de autor, ela é para nós uma diva. Inventou algo na realização — as transições animadas em vez de passagens entre cenas com cortes”, exemplifica sobre o filme exibido dia 14, “uma magia visual incrível que provoca uma reacção”. Inspirou-a em parte para História Trágica com Final Feliz, que vai mostrar também em Espinho. 

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The Street, de Caroline Leaf

Regina Pessoa nomeia também, entre os filmes das suas colegas coevas — “competíamos umas com as outras”, sorri —, When the Day Breaks (1999), de Amanda Tilby e Wendy Forbis, que passa também dia 14. As realizadoras já foram nomeadas por três vezes para um Óscar e esta é uma curta vencedora da Palma de Ouro em Cannes. “Um filme lindíssimo e sensível, exemplo de histórias simples e de pessoas anónimas e vidas que se cruzam”, diz a animadora, focando uma temática que lhe agrada.

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When the day breaks, de Amanda Tilby e Wendy Forbis DR

Entre os trabalhos das realizadoras mais jovens, sublinha ainda Among the Black Waves, da russa Anna Budanova (dia 15), num programa que terá, entre outras, The Burden (dia 14), de Niki Lindorth von Bahr, vencedora do festival de Annecy em 2017; The Dress, de Jelena Girlin e Mari-Liis Bassovskaja e vencedor do prémio melhor curta de 2007 do Cinanima (dia 14); e no dia 15 Repete (1995), da checa Michaela Pavlátová, curta vencedora do Urso de Ouro de Berlim, e do Prémio do Júri de Annecy; Amélia & Duarte (2015), de Alice Eça Guimarães e Mónica Santos, ou o muito premiado Angry Man (2009), da norueguesa Anita Killi, que versa sobre a violência doméstica.

O programa inclui uma masterclass de entrada gratuita (dia 13) com a historiadora de cinema de animação Nancy Denney-Phelps, profissional belga que falará sobre as "Heroínas desconhecidas da animação" e as dificuldades de afirmação e reconhecimento no meio (que também existem) desde os primórdios da actividade até à década de 1980 — entre elas, focar-se-á em Joy Batchelor, do estúdio Halas and Batchelor, que produziu, entre outros títulos, Autobahn, o emblemático filme dos Kraftwerk de 1979.

Além do programa temático, esta edição do Cinanima, que termina dia 18, tem na competição internacional 44 curtas, entre as quais seis portuguesas — com o factor extra de que o vencedor da secção entra automaticamente na lista de candidatos a uma nomeação para o Óscar — e quatro longas-metragens. Há também vários filmes de estudantes a concurso e sete títulos seleccionados para a competição nacional (Prémio António Gaio) e dois prémios para jovens cineastas. Destaca-se uma sessão de tributo a Nicola Madjak, realizador sérvio que morreu em 2013 e que é autor dos primeiros filmes animados feitos em Belgrado (The Soloist, The Chalk Man), e vários workshops, entre os quais um com Abi Feijó (dia 14).