Brenda Chapman quer “tratar as personagens femininas como seres humanos”

Criou a primeira protagonista feminina da Pixar, foi a primeira mulher a ganhar o Óscar na animação mas vive hoje à margem do sistema. É uma das convidadas-estrela do festival Trojan Horse was an Unicorn, onde esta quarta-feira começam as conferências e masterclasses.

Foto
Brenda Chapman está em Tróia e em Portugal pela primeira vez Enric Vives-Rubio

Brenda Chapman criou a primeira protagonista feminina para um filme da Pixar. Chamava-se Brave - Indomável (2012)  e a sua menina ruiva, Merida, era inspirada na sua filha. O filme é simultaneamente um dos seus maiores triunfos e algo que descreve como “uma tragédia”. Estamos em Tróia, a realizadora e ilustradora prepara-se para a sua masterclass que abre o festival Trojan Horse was an Unicorn (THU) sobre contar histórias. “Contar histórias é a nossa oportunidade de mudar a percepção das pessoas, de lhes dar um outro ponto de vista. E é isso que gosto de fazer.”

Ruiva como Merida, conseguiu o seu primeiro emprego mal saiu da escola - na Disney. Estava focada em desenhar, mas encontrou um dos seus muitos mentores no California Institute of the Arts, o animador e realizador Joe Ranft (Carros), que lhe apontou o caminho do storytelling. Brenda Chapman trabalharia então na supervisão da história de referências da Disney dos anos 1990 com O Rei Leão ou A Bela e o Monstro, além de ter trabalhado em Quem Tramou Roger Rabbit?. Co-realizou O Príncipe do Egipto, tornando-se a primeira mulher a fazê-lo na DreamWorks, e mudou-se para a Pixar em 2003, que anunciou com pompa e circunstância que Chapman seria a primeira mulher a dirigir um filme do estúdio - Brave, porque diz a sabedoria literária que devemos escrever sobre o que conhecemos e Brenda decidiu contar uma história inspirada na sua relação com a filha.

Um ano antes da estreia, sem grandes explicações públicas salvo “divergências criativas”, foi afastada de Brave e, no fim do processo, acabaria por ser mais uma vez, co-realizadora, desta feita com Mark Andrews. “Uma mudança injustificável e que não devia ter acontecido”, diz ao PÚBLICO, com a qual “nunca ficarei feliz”. O filme receberia depois o Óscar.

Vem a Tróia e a Portugal pela primeira vez, acompanhada pelo marido e lusodescendente Kevin Lima (realizador de Uma História de Encantar, de 2007, ou de Tarzan, de 1999), numa posição diferente. Começa agora a sua pequena produtora com Lima - “estamos naquela altura da nossa carreira em que ainda adoramos o que fazemos, mas precisamos de o fazer de outra maneira”, diz ao PÚBLICO sobre a Chapman Lima Productions - e manter-se fora do studio system. Ser afastada do seu projecto levou-a a dar palestras, a escrever opinião para o New York Times, e a sair do sistema. “Portanto, há coisas boas que saem de uma tragédia.” O sofá de um hotel em Tróia num dia em que os jovens participantes do THU estão sobretudo nas sessões de recrutamento, é calmo. A conversa também. 

Falar do caso Brave ou da cascata de filmes de super-heróis, remakes e ressuscitares de ideias já exploradas em Hollywood, leva a entrevista aos truques para contar boas histórias, à condição das mulheres e das minorias em Hollywood. “É em parte por isso que decidi que não queria voltar ao sistema dos estúdios para fazer animação, porque é tão repetitivo. Quando comecei no sector”, diz sobre a forma como se desenvolviam projectos, era qualquer coisa como “‘esta é uma boa história, vamos fazê-lo’”, mimetiza. “E depois é que entrava [o departamento de] marketing”. Agora, lamenta, “virou. O marketing dita que filmes são feitos, o que é tão errado. Porque pensam com fórmulas. E isso abafa o que for novo, fresco...” nas histórias.

É uma das conferencistas veteranas do THU, onde Lima também vai falar. Está a trabalhar num projecto com ele, que mistura acção real e animação, prepara um filme de animação musical, com título de trabalho Truth, sobre um conto popular da dinastia Han chinesa, e tem alinhada, à espera de aprovação, a sua estreia na realização de acção real com Come Away, escrito por Marissa Kate Goodhill. “É um ‘e se Alice e Peter Pan fossem irmãos?’. Nunca estive interessada em fazer acção real, mas combinar as duas histórias, a tragédia que acontece nas suas vidas e que os leva a entrar nos seus mundos de fantasia, onde um fica e outro não... é fascinante. E dá-me a oportunidade de explorar um lado mais obscuro nas histórias. [O urso-demónio] Mor'du em Brave e a morte de Mufasa [o pai] n’O Rei Leão foi o mais negro que consegui ir na animação...”, confessa .

Chapman tornou-se numa espécie de símbolo discreto das histórias com mulheres dentro na animação americana. Ainda assim, admite, “sim, sinto-me classificada e limitada” - procuram-na para falar de mulheres e contar histórias de mulheres. “A visão mais limitada que têm de mim é a [da criadora] da princesa guerreira, porque olham erradamente para a Merida como tal, e se vissem com mais atenção ela é... uma adolescente que quer fazer o que quer”.

Depois, “houve uma moda: percebeu-se que eram precisas mais mulheres, e tudo o que saiu foram as princesas guerreiras e fortes. Mais um estereótipo. Quero filmes com personagens femininas e masculinas fortes”, explica. E aponta: “O meu foco é a personagem e o tema, o que algumas pessoas chamam a moral da história”, sorri.  “As pessoas procuram algo pouco habitual, novo em que pensar e para mim isso é tentar encontrar personagens femininas fortes que não sejam a princesa guerreira. É encontrar formas de tratar as personagens femininas como seres humanos e não como ‘personagens femininas’.”

A conversa começa a abrandar rumo ao fim. A realizadora elogia Geena Davis e o seu Institute on Gender in Media, menciona, pouco convencida, a mais recente versão de Alice pela Disney e produzida por Tim Burton, uma comandante de navios voluntariosa, e sorri com o rosto todo com a carreira da actriz Melissa McCarthy. “Não só é comediante, em papéis pouco comuns, e não é a típica actriz supermodelo, é simplesmente uma mulher, linda e arredondada e adoro-a por isso”.

O THU prolonga-se até sábado, com dezenas de conferências, sessões de trabalho ao vivo e projectos colaborativos em Tróia, num evento esgotado e que já só é acessível ao público através das transmissões online THU TV.