Ben Goldacre sobre as terapias alternativas: “Regular o charlatanismo é ridículo”

Médico e investigador na Universidade de Oxford, Ben Goldacre é um campeão no debate público pela defesa da integridade científica. Tem-se dedicado a escrever sobre ciência da treta e a má conduta científica da indústria farmacêutica.

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Ben Goldacre Francisco Gomes

Ben Goldacre começou em 2003 a escrever, aos sábados, uma coluna no jornal britânico The Guardian sobre ciência da treta. Patetices com um ar pretensiosamente respeitável nas áreas do nutricionismo e das terapias alternativas foram alvos frequentes de Goldacre, investigador da Universidade de Oxford. No seu livro de sucesso mundial Ciência da Treta, publicado em 2008 (Bizâncio, 2009), assume: “Posso perfeitamente encarar os cosméticos caros – e outras formas de charlatanice – como um imposto especial que as pessoas que não compreendem bem a ciência cobram a si próprias”.

Dedicou-se também a um tema ainda mais avassalador: a má conduta científica da indústria farmacêutica. No seu segundo livro Farmacêuticas da Treta, publicado em 2012 (Bizâncio 2013), escreve que “a indústria farmacêutica global é um negócio de 600 mil milhões de dólares onde reina a corrupção e a ganância”. Inconformado com o facto de os resultados de muitos ensaios clínicos nunca serem divulgados, criou em 2015 a campanha All trials, que faz essa exigência. Veio na semana passada a Viseu, ao Teatro Viriato, falar sobre ciência e pseudociência, no âmbito do Mês da Educação e Ciência da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Conversámos, no final de um dia longo.

Há alguma terapia alternativa que tenha algum valor terapêutico, que valha a pena utilizar nalguma circunstância?
As terapias alternativas são, por definição, coisas que não têm provas científicas sólidas. Qualquer coisa que tenha provas científicas sólidas deixa de ser uma terapia alternativa e passa a chamar-se medicina.

Então por que é que há tantas pessoas que recorrem às terapias alternativas?
Existem muitos motivos diferentes. Mas, de acordo com os dados dos inquéritos, um dos factores mais importantes na opção pelas medicinas alternativas é ter-se tido uma má experiência com um médico convencional. Muitas vezes é por se querer colocar em oposição política à medicina convencional, que é entendida como fazendo parte de uma hierarquia convencional. Eu identifico-me com isso. Não há nenhuma razão simples. A única coisa que realmente me surpreende é que o nível de conhecimento, compreensão e formação científica tenha muito pouca correlação com a opção pelas medicinas alternativas. Isto mostra que não tem a ver com a forma como as pessoas entendem ou não as provas. É mais complicado do que isso.

Nos últimos anos foi aprovada legislação em Portugal que obriga os praticantes de terapias alternativas a terem uma cédula profissional. Isso significa que eu [sem essa cédula] não posso dizer que sou um homeopata e abrir um consultório. Isto faz sentido?
É completamente ridículo. Quando se faz isso, dá-se uma camada fina de verniz de respeitabilidade e de autoridade. Embora possa parecer, à primeira vista, que a regulamentação é um problema para as pessoas e organizações, tipicamente isso é um benefício para quem é regulado. Traz autoridade e permite-lhes escudarem-se de algumas responsabilidades. Regular o charlatanismo é ridículo. Na Grã-Bretanha os comprimidos homeopáticos, que são só comprimidos de açúcar que foram sujeitos a um ritual mágico, são aprovados pela autoridade que regula os medicamentos. Quando eu vejo uma entidade reguladora na área dos medicamentos a dobrar as regras de exigência de provas, por razões políticas, para ceder a uma população que quer comprar comprimidos de açúcar sujeitos a um ritual mágico, acho que isso é um sinal muito preocupante. Não quero saber se as pessoas compram comprimidos mágicos ou não. Quero saber se os reguladores de medicamentos do meu país distorcem as regras em função do que é politicamente desejável para eles. Isso é muito preocupante.

As cédulas profissionais para os terapeutas alternativos requerem uma licenciatura. Como resultado, várias instituições de ensino superior passaram a oferecer licenciaturas nesses temas.
Fantástico!

Por exemplo, quatro instituições em Portugal oferecem licenciaturas em acupunctura. O que acha disso?
A acupunctura é um pouco diferente, porque aqui e ali há algumas provas fracas de que tem algum benefício nalgumas situações.

Pode dar um exemplo?
Não me lembro exactamente em que tipos de dor, mas nalguns tipos de dor. Mas são essencialmente provas fracas. A questão é o que é ensinado e como. É perfeitamente possível criar um curso razoável, baseado na ciência, acerca de uma coisa que não funciona. Explica-se como é que se faz uma avaliação crítica de provas, mostram-se as provas, discutem-se as forças e as fraquezas. Não interessa se estamos a ensinar homeopatia ou medicina convencional. Se for feito dessa maneira, é óptimo. A minha preocupação, e a minha suspeita, é que, sempre que vi universidades a venderem cursos de homeopatia, o que fazem é apenas bajular um mercado que quer comprar um pedaço de papel a dizer que a homeopatia é um tratamento com uma boa base científica. E isso não está certo.

Os cientistas devem participar em debates com defensores de pseudociências?
Claro que sim! É muito divertido! Acho que não precisamos de nos preocupar com o risco de estarmos a ajudar a legitimar essas pessoas. De facto, é mais importante agora do que nunca. A forma como o conhecimento funciona na sociedade foi completamente descentralizada pela Internet. Há 15 anos poderíamos esperar ter controlo na informação a que o público tem acesso, seduzindo um pequeno número de jornalistas e editores, usando as estruturas à moda antiga de disseminação do conhecimento. Esse jogo acabou. A forma como a informação se move pela sociedade é completamente dispersa. Não importa se gostamos disso ou não. É e será assim até acontecer algum holocausto que desintegre toda a civilização ocidental. Até lá, está tudo na rua. Temos de sair, comunicar e discutir. E, francamente, estou contente com isso. Nos dias em que o conhecimento era centralizado, nos jornalistas, nos editores e nos livros, não estou certo que os jornais alguma vez tenham feito um trabalho particularmente bom. Erraram exactamente da mesma forma que os malucos da Internet.

Vê alguma semelhança entre as fake news na políticas e as alegações de há muito das terapias alternativas?
O que é interessante acerca dessa expressão de Donald Trump [fake news] é que durante muitos anos os jornais e os jornalistas enganaram o público. Agora, eles querem a sua autoridade de volta. Mas isso é difícil, porque, quando se perda a autoridade, é difícil de recuperar. É difícil voltar a pôr a pasta de dentes no tubo. Claro que quase qualquer palavra, que não seja uma preposição, que saía da boca de Donald Trump, é ofensiva, estúpida e errada. Mas ele identificou correctamente uma fraqueza na sociedade. Foi muito interessante observar, nos últimos dez anos, os jornalistas a tentarem-se definir por oposição a esse borrão amorfo da Internet. Quase qualquer comportamento que vemos nas redes sociais, foi previamente feito pelos media convencionais. E não me refiro apenas a uma fraca verificação dos factos ou a enganar activamente o público por causa de uma convicção prévia. Também coisas simples como perseguir pessoas, ser desnecessariamente provocador para obter atenção. Isso é exactamente o que muitos colunistas em jornais fizeram durante muitos anos. Estou certo de que têm o mesmo em Portugal. Em Inglaterra temos velhos gordos e chatos, que exibem as suas perspectivas supostamente controversas por dinheiro, de modo a terem atenção e vendas. Acho que os jornais não estão em posição de dar a volta e dizer que essas perseguições no Twitter são uma coisa nova.

De acordo com um relatório recente, 90% dos europeus concordam que as vacinas são importantes. Isto é suficiente? Ou devemos estar preocupados com os movimentos antivacinação?
As teorias da conspiração antivacinação estão connosco desde o alvorecer da vacinação. Nunca irão desaparecer. Mesmo que haja uma folga breve, nunca devemos ser complacentes. Sabemos que os pânicos das vacinas voltarão sempre. Acho que em parte é porque há algo de enervante num tratamento, que é dado a toda a gente, quando estamos saudáveis. Também acho que é natural que as pessoas procurem explicações quando ficam doentes, ou quando os seus filhos ficam doentes. As pessoas ficam doentes a toda a hora, por muitas razões diferentes. E, se acabaram de tomar uma vacina, percebo que as pessoas digam: “Ah, deve ter sido disto!” Embora as provas mostrem que as taxas de coisas como o autismo são iguais em pessoas que tomaram ou não a vacina VASPR [contra o sarampo, papeira e rubéola].

A medicina tem de ganhar a confiança das pessoas, em vez de exigi-la. Em vez de ridicularizar as pessoas que têm desconfiança em relação ao que fazemos. Há muitas coisas na medicina que não estão bem. Continua-se a infringir a lei no que diz respeito à divulgação de resultados de ensaios clínicos. Tem havido muitas notícias, no Reino Unido, porque a Public Health England, que é a instituição pública responsável pelo nosso plano de vacinas, não divulgou os resultados de um grande ensaio clínico de vacinas feito em crianças. Quando o público vê que tudo isto não está bem na medicina, acho que é compreensível que fiquem preocupados.

É muito fácil desvalorizar e criticar as pessoas que acreditam em teorias da conspiração antivacinas. Porque as provas para essas teorias antivacinas são muito fracas. Elas estão obviamente erradas. E é obviamente estúpido. Mas não estou certo que devemos esperar que o público em geral tenha um entendimento técnico pleno acerca de quais são coisas que a medicina está a fazer bem e quais as que está a fazer mal. Se estamos a fazer alguma coisa mal, temos de entender que nos digam: “Como é que eu confio em vocês em mais alguma coisa?” Temos a responsabilidade de acabar com o medo das vacinas, fazendo as coisas bem. E mesmo assim elas [as pessoas que acreditam em teorias da conspiração] provavelmente irão persistir. Mas temos pelo menos de tentar ganhar a confiança das pessoas.

Pode falar-nos da campanha All trials?
Quando escrevi o meu segundo livro, estudei como as empresas farmacêutica e as universidades não divulgam os resultados dos ensaios clínicos. Isto é gozar com todos os nossos esforços para praticar medicina baseada na ciência. Gastamos milhões de euros em cada ensaio. E gastamos todo esse dinheiro para evitar distorções na avaliação dos benefícios do tratamento. Depois permitimos que todo o enviesamento surja no final, divulgando os resultados de apenas metade dos ensaios clínicos.

Ao longo dos últimos dez ou 20 anos, têm sido aprovados vários regulamentos que, para alguns ensaios, obrigam a que os resultados sejam publicados no prazo de 12 meses após a sua conclusão. Estas regras têm sempre muitos buracos, que muitas vezes são difíceis de entender. No entanto, as regras existem. Mas mesmo assim são ignoradas. Isso ainda é pior, porque nos dá uma falsa segurança. Permite aos políticos, ordens profissionais, instituições académicas e empresas dizerem que o problema já não existe, pois temos estas regras.

Quando [o livro Farmacêuticas da Treta] saiu, muitas pessoas da indústria farmacêutica desvalorizaram o assunto. Ninguém nos patamares superiores da profissão médica no Reino Unido tem qualquer interesse em apoiar-me. Mas, quando viram que as grandes organizações fingiam que o problema não existia, isso foi, para meu grande alívio, quando começaram a enviar-me emails e a dizerem: “Isto não está certo. O que é que fazemos?” Escrevemos uma carta para o [jornal] Times. Esse é normalmente o ponto em que os académicos sentem que fizeram a sua parte. O problema deve ser resolvido agora, nós publicámos uma carta no Times! Toda a gente atribui a si mesma um ponto, vai para casa e continua com a sua vida. Mas pareceu-me que, se quiséssemos resolver este problema, precisaríamos de ajuda especializada. Foi assim que a campanha começou. E acho que temos tido bastante sucesso. Na primeira semana 100 mil pessoas inscreveram-se. Até agora, inscreveram-se 600 organizações, incluindo as principais associações de pacientes e ordens profissionais. Inicialmente apenas no Reino Unido, mas agora também por toda a Europa. E, mais recentemente, nos Estados Unidos. Transformámos completamente a discussão. Ninguém pode agora dizer que este problema não existe.

Bioquímico e divulgador de ciência

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