Crónica

Salvador foi resgatado da rua e agora quer resgatar outros

Sonha ser educador de pares. E está a cumprir esse sonho a título informal. Há nele tanta alegria com as pequenas mudanças que vai provocando em seu redor.

A voz estridente de Rui Salvador sobressaía numa reunião de um movimento formado por pessoas com experiência de rua – Uma Vida Como a Arte. Estava ali por achar “bonito” defender quem está sem abrigo através da linguagem universal da arte, mas não queria “o nome em nada”.

Rui Salvador já tinha “o nome” dele na CASO, uma associação de utilizadores e de ex-utilizadores de drogas. O holandês Gerard Theo van Dam, precursor desse tipo de organizações, estivera no Porto em 2007 e inspirara a formação de um grupo informal, que, com o apoio da Agência Piaget para o Desenvolvimento, acabara por se constituir como associação em 2010.

O movimento Uma Vida como a Arte, esse, nascera no seio da Estratégia Nacional de Integração das Pessoas em Situação de Sem Abrigo 2009-2015. Embalavam-no parceiros da plataforma As Vozes do Silêncio. Haveria de constituir-se como associação e de incorporar o debate público sobre a Estratégia 2017-2023 antes de entrar num estado quase comatoso.

Os grupos confundiam-se nos rostos que se repetiam. Um e outro tinham sido formados por pessoas vulneráveis que procuravam influenciar políticas públicas. Parecido só os 18 concelhos locais de cidadãos, um por cada distrito do continente, obra da Rede Europeia-Antipobreza, a EAPN – Portugal.

Nos últimos cinco anos, fui encontrado Rui Salvador em várias acções destinadas a dar visibilidade aos sem-abrigo e a reivindicar soluções. Nas últimas semanas, vi-o apreensivo com o destino de quem se abriga na antiga Escola Preparatória do Cerco (estão prestes a começar as obras que hão-de dar lugar ao novíssimo centro de saúde de Campanhã).

Não gosta de falar nos 15 anos em que viveu para consumir. Diz que estava “anestesiado”. Prefere falar do que aconteceu desde que, em 2007, Sílvia Azevedo, então técnica da equipa de rua da Norte Vida, o ajudou a encontrar uma alternativa à rua. “Não me apetecia viver mais”, enfatiza. Ela entrou no mundo dele. “Dizem que é muito imundo, mas foi o mundo em que vivi”, concede. E o cuidado dela impressionou-o. “Como estou hoje, qualquer uma daquelas pessoas pode estar. Só basta que haja mais ajuda.”

Fez tudo devagarinho. Esteve quatro anos na Casa da Vila Nova, o centro de acolhimento temporário da Norte Vida. E um ano e meio no Abrigo Nocturno do Porto, da AMI. Apaixonou-se por uma rapariga. Viveu cerca de um ano com ela. Desapaixonou-se. E tornou à casa materna. Quando o conheci, já morava com a mãe. Ia fazendo uns biscates para ganhar uns trocos. Tem de entregar 60 euros por mês para ajudar a pagar despesas correntes. E de ter umas moedas no bolso para um café e um sumo. E queria ajudar outras pessoas com experiências semelhantes à sua.

No início deste ano, a CASO promoveu uma formação para educadores de pares. Um pequeno grupo teve oportunidade de saber mais sobre direitos humanos, activismo, lei das drogas, educação para a saúde. E de desenvolver um projecto-piloto na sua área de residência.

Rui Salvador apostou numa casa devoluta, local de consumo, perto do Bairro do Cerco do Porto. Usando café e bolachas como isco, meteria conversa, tentando perceber se as pessoas se preocupavam com o seu estado de saúde, incentivando a abandonar comportamentos de risco, a procurar tratamento para infecto-contagiosas.

Não era terra de ninguém. Uma equipa de rua da cooperativa Arrimo pára no Cerco todos os dias a trocar seringas, a distribuir prata, a administrar metadona, a fazer a ponte com o serviço público de saúde e outros?. E uma equipa da ONG Médicos do Mundo também vai ao Cerco uma vez por semana. Só que Rui Salvador acreditava que podia criar uma proximidade diferente. Começou na casa devoluta. Avançou para a antiga escola, onde pára muito mais gente.

No princípio, ganhava 20 euros por dia, três dias por semana. Quando o financiamento terminou, continuou a ir lá quase todos os dias. Que o diga o realizador Luís Vieira Campos, que ali está a rodar um documentário.

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Rui Salvador sonha ser educador de pares. E está a cumprir esse sonho a título informal, enquanto não surge uma oportunidade de o cumprir a título formal. Há nele tanta alegria com as pequenas mudanças que vai provocando em redor. Orgulha-se de ter inspirado outros a limpar um espaço para consumir e a ter à mão um rolo de papel prata, uma série de kits com seringas para troca, um balde para recolher material usado.

Lembra-me outro fundador do movimento Uma Vida como a Arte, também ele membro da CASO, Christian Georgescu. Já foi sem-abrigo. Trabalha como vigilante na Associação de Albergues Nocturnos do Porto. E é presidente e educador de pares na associação Saber Compreender.

Voluntários da Saber Compreender revezam-se para fazer uma ronda nocturna a cada quinze dias para confortar quem está na rua e ajudar a sair dela. Não descuram, porém, a arte de quebrar ideias-feitas. Agora mesmo, estão a organizar uma biblioteca humana a que chamaram Boa História Bonfim.

Está agendado para o próximo dia 18 de Novembro, entre as 14h30 e as 19h, na Casa d’Artes do Bonfim, esse evento organizado pelo actor, aqui voluntário, Filipe Gaspar. Christian será um livro aberto para quem quiser conhecer a história de um cigano, romeno, que já foi utilizador de drogas e sem-abrigo e que hoje é um cidadão integrado. Haverá outros livros abertos com experiências duras a provar que isso não tem de ser uma condenação.

Raramente o jornalismo nos permite acompanhar o desenrolar das histórias de vida que contamos. Para mim, que há quase 20 anos escrevo sobre direitos humanos e exclusão social, histórias com evolução feliz são fôlego.