Crítica

Na linha da fronteira

Um híbrido não-ficcional de animação e documentário que transpõe para o écrã o espírito de Ryszard Kapuscinski.

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Uma correnteza imparável de imagens, cores, olhares, movimentos
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Como é que se faz justiça no grande ecrã à escrita literária de um repórter como Ryszard Kapuscinski? A solução encontrada pelo espanhol Raúl de la Fuente e pelo polaco Damian Nenow é o trunfo desta adaptação do livro que Kapuscinski escreveu sobre a guerra civil em Angola em 1975. Trata-se de combinar uma narrativa contada em animação com uma vertente de documentário tradicional, intercalando pelas sequências animadas imagens de época e entrevistas contemporâneas.

Apesar das comparações que inevitavelmente têm sido feitas, Mais um Dia de Vida não é outra Valsa com Bashir. O filme de Ari Folman era uma memória das experiências do seu realizador, inteiramente feita em animação; aqui, temos literalmente outra coisa, um híbrido que assume por inteiro a sua localização nas fronteiras, nem ficção nem não-ficção, nem animação nem imagem real, mas tudo isso e em todos esses lados ao mesmo tempo. Essa diluição tem o enorme mérito de conseguir transpor para o écrã a visão de Kapuscinski, fazer-nos ver os eventos pelos olhos do repórter que, na sua busca do inevitável “furo” jornalístico, não consegue pôr de lado a sua humanidade e a sua personalidade. Ser jornalista não é apenas observar e transmitir; é também fazer as ligações, articular os pontos, perceber como tudo se inscreve na big picture, na Grande História. Na forma escolhida por De la Fuente e Nenow, a Grande História é o contexto que as cenas documentais dão, as memórias de quem esteve “nas trincheiras” com Kapuscinski e pode confirmar os pormenores, e a “pequena história” que lhe dá sentido são as vivências do repórter durante estes dias titânicos na corda bamba transformadas em animação. Que são, aliás, os momentos mais inspirados de Mais um Dia de Vida: uma correnteza imparável de imagens, cores, olhares, movimentos.

Mais um Dia de Vida não é um filme isento de defeitos. Nunca temos verdadeiramente a sensação do perigo a que Kapuscinski se expunha ao partir em busca do general Farrusco (talvez porque o próprio repórter não a tivesse). A banda-sonora de Mikel Salas é dispensável quando não redundante. O trabalho de vozes (com todas as personagens a falar um inglês macarrónico com sotaques despropositados) é um “calcanhar de aquiles” que só por milagre não dá cabo do filme. Mas o que falha nesses pormenores é mais do que compensado pela alma, pelo modo como faz valer a mensagem universalista de Kapuscinski sem precisar de cair na pedagogia política, respeitando a extraordinária complexidade da realidade. Mais um Dia de Vida prefere ser um filme vivo a ser um filme perfeito — e isso dá-lhe um outro élan.

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