Bruno Simoes Castanheira (colaborador)
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Bruno Simoes Castanheira (colaborador)

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O Orçamento Participativo e a anulação das touradas: 1-1=0

O Orçamento do Estado vai atribuir 200 mil euros ao projecto "Portugal sem touradas" e 50 mil euros ao projecto "Tauromaquia para todos". São 250 mil euros que se anulam, numa perspectiva teórica da questão avaliando os seus propósitos antagónicos.

Sou contra as touradas. Violam os direitos dos animais e preservam nos corações humanos um veneno que transporta agressividade, celebrando-a.

Existe uma maldade intrínseca neste ritual que, a meu ver, só piorou com este “modelo” de tourada à portuguesa na qual não se mata o animal, como na vizinha Espanha. Ao invés, tortura-se para se voltar a torturar, isto se o pobre aguentar. O conceito de diversão é claramente oposto a ver um animal em sofrimento numa arena, onde os aplausos pedem e proclamam por mais sofrimento.

As tradições das gentes não devem ser mutantes. A força dos tempos não as deve modificar; ao invés, deve preservá-las.

No entanto, século após século, a pegada do homem no mundo tem evoluído, introduzindo nas nossas vidas aquilo que são os direitos humanos e os direitos dos animais. E esta introdução, que é o maior tesouro imaterial da humanidade, justifica a eliminação de algumas destas tradições.

Da mesma forma que vimos desaparecer gladiadores preservando essa memória da Roma Antiga nas telas de cinema, o mesmo deve acontecer às touradas.

Reparem, ser contra as touradas não é uma questão de opinião, é uma questão de evolução, quer-me parecer, com uma boa dose de bom senso pelo meio.

E foi nesta caminhada de bom senso, ou de alguma falta dele, que li, com alguma admiração, que constam nos vencedores do Orçamento Participativo deste ano dois projectos absolutamente antagónicos: um contra e outro a favor da cultura tauromáquica em Portugal.

Basicamente, o Orçamento do Estado vai atribuir 200 mil euros ao projecto "Portugal sem touradas" e 50 mil euros ao projecto "Tauromaquia para todos". São 250 mil euros que se anulam, numa perspectiva teórica da questão avaliando os seus propósitos antagónicos. 

Já no Orçamento Participativo do ano anterior, outro projecto foi financiado com o objectivo comum de elevar a tauromaquia a Património Imaterial da UNESCO.

UNESCO essa que nos diz, nos artigos 10 e 11 dos direitos dos animais, que "nenhum animal deve ser explorado para entretenimento do homem; as exibições de animais e os espectáculos que se sirvam de animais são incompatíveis com a dignidade do animal; todo o acto que implique a morte de um animal sem necessidade é um biocídio, ou seja, um crime contra a vida".

Perante isto, não consigo compreender a atribuição de uma fatia do Orçamento do Estado a projectos que apresentam como objectivo e proposta de valor a introdução da tauromaquia a património imaterial da humanidade, fazendo um levantamento da cultura tauromáquica em Portugal, na sua diversidade territorial, quando a própria UNESCO, na sua declaração de valores, condena estas práticas.

Bem sei que vivemos tempos difíceis em contexto de identidade e diversão. Por um lado, as novas gerações cansam-se rapidamente das diversões que encontram semana a semana e disseminam na web, esgotando o seu divertimento num curto período de tempo. Já os mais velhos tendem a estar cada vez mais mergulhados na força do trabalho.

Ainda que todos sejamos, actualmente, a "indoor generation", acreditem, não necessitamos de nos divertir com o sofrimento alheio, seja humano ou animal, retrocedendo séculos civilizacionais.

Sai à rua e olha à tua volta. Há muito por onde nos divertirmos sem ninguém sofrer pelo meio. Afinal, não é o sofrimento contraditório ao conceito de diversão?