Entrevista

“É importante levar o descanso a sério”

Alex Soojung-Kim Pang é consultor tecnológico e defende, no seu livro Descansar, que para se ter sucesso não é preciso trabalhar horas infindáveis. Pelo contrário: trabalhar menos.

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O segredo para se ser produtivo não está em horas infindáveis de trabalho, antes em semanas mais pequenas que possibilitam aos trabalhadores serem mais felizes e criativos. No livro Descansar: a razão pela qual conseguimos fazer mais quando trabalhamos menos, editado pelo Círculo de Leitores, o norte-americano Alex Soojung-Kim Pang defende o descanso ou o repouso como a fórmula para mudar a economia global.

Nos primeiros capítulos, o autor – doutorado em História e Sociologia, que é professor convidado nas universidades de Stanford, Oxford e Berkeley, que trabalha como consultor tecnológico em Silicon Valley e que criou a empresa de consultoria The Restful Company –, lembra muitas pessoas que ficaram célebres pelos seus escritos, partituras ou descobertas, que davam grande importância ao repouso e o cumpriam, revelando serem trabalhadores de sucesso. No livro, Pang recorre a variados estudos e experiências laboratoriais para confirmar a importância do descanso para se ser criativo. Afinal, quando repousamos e deixamos a nossa mente divagar, o nosso cérebro permanece quase tão activo como quando estamos concentrados num problema, escreve. O PÚBLICO entrevistou-o por email.

O segredo para se ser mais produtivo é trabalhar menos horas e menos dias? Qual é a semana de trabalho perfeita?
Alex Soojung-Kim Pang: A semana de trabalho de quatro dias é o futuro do trabalho. Já existem empresas de software, retalhistas online, agências de publicidade e outras que mudaram para semanas de quatro dias, sem perda de produtividade. Além disso, essas empresas reportam que têm trabalhadores mais motivados e mais felizes porque conseguem um melhor equilíbrio entre as suas vidas profissionais e pessoais.

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Deus descansou ao sétimo dia, nós conquistámos o fim-de-semana e as férias para descansar, mas o número de dias varia de país para país. Devemos parar quantos dias por ano?  
O fim-de-semana foi duramente conquistado pelos sindicatos no século passado e foi valorizado por boas razões. Dar a si mesmo tempo para recuperar a energia física e mental que se gasta ao trabalhar é essencial para um bom desempenho. Quando se trata de férias, o tempo ideal é uma semana a cada três meses, mas até os psicólogos que estudam as férias acham que tirar os finais de tardes e os fins-de-semana é importante.

Concorda que quem parece trabalhar menos, mas produz, não tem o mesmo reconhecimento que aqueles que estão sempre a reclamar que trabalham muito?
Certamente existe a percepção de que pessoas que trabalham mais horas são mais dedicadas, mas isso não significa que sejam mais eficazes ou produtivas. Afinal, qualquer um pode sentar-se numa cadeira 12 horas por dia. Além disso, existe um século de pesquisas que mostram que, a longo prazo, o excesso de trabalho é contraproducente: prejudica a produtividade, aumenta a possibilidade de se errar e torna os trabalhadores mais propensos ao esgotamento.

No seu livro relaciona o descanso com a criatividade. Como podemos ser mais criativos quando descansamos?
O descanso — especialmente a actividade realizada imediatamente após um período de trabalho — proporciona tempo para que o subconsciente criativo reflicta sobre questões que escaparam ao consciente. Na verdade, essa é uma fonte tão poderosa de percepção criativa que muitos escritores, matemáticos, compositores e outros organizam os seus dias para garantir tempo para trabalho concentrado e descanso deliberado.

Como devemos introduzir o descanso numa rotina que é feita de trabalho dentro e fora de casa? Às vezes mal temos tempo para ler antes de dormir, o que significa que não é fácil descansar!
Para pessoas que não têm grande controlo sobre os seus horários diários, é importante guardarem tempo nos fins-de-semana e feriados. É igualmente importante levar o descanso a sério: muitos de nós tratamo-lo como algo que faremos quando terminarmos tudo, mas hoje em dia nunca terminamos realmente tudo. Também vale a pena ensinar às crianças o valor do descanso — ou que, pelo menos, não é o fim do mundo quando estão entediadas.

Seria aconselhável fazermos uma sesta, como os espanhóis?
Como os espanhóis, como Winston Churchill ou como os jogadores da NBA [a liga de basquetebol norte-americana]. Os jogadores de basquetebol são famosos por fazer longas sestas antes dos jogos nocturnos, até mesmo os mais populares, como Lebron James e Steph Curry, participam no “tempo da sesta da NBA”, que é assim que é chamado.

No livro escreve sobre “brincadeiras profundas”, é o mesmo que ter um hobby? Quais são os benefícios?
Os hobbies podem ser brincadeiras profundas, mas as actividades que se qualificam como brincadeiras profundas têm diversas propriedades: são mentalmente absorventes, oferecem aos intervenientes desafios para enfrentar e problemas para resolver; oferecem aos seus intervenientes um contexto em que podem usar algumas das mesmas competências que usam para trabalhar; oferecem alguma da mesma satisfação do trabalho, assim como oferecem recompensas diferentes; por fim, têm características que nos ligam ao passado. Em resumo, são tão envolventes quanto o nosso trabalho e, na verdade, oferecem algumas das mesmas recompensas psicológicas (tornando-as atraentes para os workaholics), mas oferecem-nas num contexto diferente, muitas vezes mais exigente fisicamente, e fornecem recompensas com mais rapidez e clareza. Por exemplo, os cientistas que se tornaram famosos tanto no laboratório como nos picos das montanhas praticam uma forma de brincadeira profunda. Eles falam sobre escalar como se fosse uma ciência. Isso requer pensamento claro, quebra um problema em muitas partes pequenas, etc. Mas em contraste com as experiências, é fisicamente desafiador, e há recompensas muito claras pelo seu esforço.

Vivemos numa sociedade que não pára, em que as pessoas correm como loucas, arrastando as crianças atrás de si, quais são as consequências?
Durante o último século, pensadores, empresários e líderes mais ambiciosos de cada geração têm estado propensos ao excesso de trabalho, mas recentemente isso passou de uma aflição para a elite para uma crise de saúde pública. Para as crianças, o tempo para divagar pela mente e “não fazer nada” é essencial para o seu desenvolvimento psicológico; para os adultos, é importante dar sentido às nossas vidas e recuperar a energia que gastamos a trabalhar. Portanto, não importa a idade, privar-se do descanso é uma receita para uma vida menos recompensadora.

Há outros autores que sugerem que devemos parar e respirar ou regressar ao campo para sermos felizes. Qual é o seu segredo?
Eu faço tudo o que digo no meu livro. Acordo muito cedo para escrever, o meu trabalho crítico geralmente termina antes da hora do almoço. Faço muito exercício, viver no clima ameno da Califórnia ajuda, faço uma sesta regularmente, e organizo o meu horário para permitir longos períodos de concentração intensa — o que me torna mais produtivo e me deixa com mais tempo para descansar durante o dia.