Preços na construção dispararam 50% em dois anos

Dificuldade em encontrar mão-de-obra, qualificada e não só, para dar resposta ao boom da construção está a agravar os preços finais do imobiliário. Empresários e sindicatos pedem medidas urgentes. Retrato de um sector em recuperação.

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NELSON GARRIDO

Os preços das casas têm vindo a aumentar de forma expressiva e não são apenas as sucessivas transacções entre proprietários, ou a disponibilidade dos compradores para pagarem preços mais elevados com a perspectiva de rentabilizar os preços dos imóveis com recurso ao alojamento local que justificam tamanha escalada de preços, que em cidades como Lisboa e Porto chegam a variações acima dos 23% num ano (ver segundo texto). Actualmente, confirmou o PÚBLICO junto de várias empresas de construção civil, uma das principais preocupações que enfrentam quando são chamadas a dar um preço para a construção de um prédio novo, ou a reabilitação de um antigo está na componente de mão-de-obra, em particular se lhes vai ser possível recrutar trabalhadores e a que preço.

A dificuldade em encontrar mão-de-obra disponível para executar os trabalhos está a afectar não só os preços finais, como a comprometer os prazos de entrega. Um exemplo dado ao PÚBLICO por um empresário que pediu para não ser identificado: há dois anos, e para reabilitar um imóvel numa rua de Lisboa, uma empresa de construção poderia apresentar como estimativa um custo de construção a rondar os 700 euros por metro quadrado. Dois anos depois, se calcular um preço abaixo dos 1100 euros por metro quadrado arrisca-se a ficar com problemas de tesouraria. Isto dá um agravamento de preços de quase 50% em apenas dois anos.

Se as empresas de construção têm alguma reserva em assumir estas dificuldades com os seus quadros, já as empresas de promoção imobiliária que as contratam não têm problemas em o reconhecer. Elad Dror, presidente da Fortera Properties, uma promotora de origem israelita que tem investimentos de 25 milhões de euros projectados (entre hotéis no Porto, pequenos alojamentos em Gaia e um grande empreendimento em Espinho), confirma esse agravamento de preços e diz que, em alguns casos, o preço do custo de trabalho praticamente duplicou em alguns casos.

“Hoje em dia os preços são bem mais elevados, mas percebe-se. Antes, as empresas apresentavam qualquer preço para poderem trabalhar. Agora há muitos projectos em curso e eles podem escolher para onde vão trabalhar. Quando há mais procura e a oferta não aumenta, os preços naturalmente sobem”, explica. Ainda assim, esta escalada de preços não assusta a Fortrera Properties, que se prepara para investir 200 milhões de euros nos próximos cinco anos, alargando a sua área de actuação, hoje muito concentrada na área metropolitana do Porto, para outras regiões do país. “Já começa a ser mais difícil fazer bons negócios no centro da cidade do Porto. Mas ainda há muita coisa para fazer e para reconstruir”, argumenta Elad Dror.

Estes indicadores não são imediatamente visíveis nas estatísticas oficiais que referem o custo de mão-de-obra — e que nos últimos quatro trimestres apontam para variações de apenas 2%. E também não são clarificados pelas estatísticas de emprego e desemprego no sector. Apesar de o número de novos desempregados oriundos do sector, registados pelo IEFP em Junho, ser o mais baixo desde o início da série em Janeiro de 2003 (23.130 desempregados), ou de, em termos acumulados, e desde o final de 2017, o numero de desempregados ter diminuído quase 30% (reduziu-se em 16.228 casos), a verdade é que ainda há 38.453 desempregados no sector, e as associações empresariais que representam a construção já vieram a público dizer que são necessários mais 70 mil trabalhadores para fazer face às necessidades de mercado.

Como chegámos aqui?

Elad Dror deu a resposta a partir do terreno. Manuel Reis Campos, presidente da Confederação da Construção e do Imobiliário, dá a resposta abrangente, numa análise do conjunto. “Com uma quebra de produção de 43,8%, as empresas tiveram de se ajustar ao mercado. Fecharam, emagreceram quadros. O sector perdeu 260 mil trabalhadores em poucos anos. Os concursos públicos estavam ao nível de há 30 anos, os trabalhadores tiveram de sair daqui, foram para a Europa”, começa por explicar. Seria uma situação normal, se entretanto não surgissem “alguns aspectos anómalos”. E Reis Campos refere o facto de haver muita mão-de-obra clandestina a actuar na construção em Portugal que está a contribuir “para uma absoluta desregulação do sector”. “Uma grande parte das obras não está a ser feita sequer por empresas, mas sim por um conjunto de indivíduos em prestação de serviços, indivíduos esses que, às tantas, até estão inscritos no centro de emprego”, ironiza.

Albano Ribeiro, presidente do Sindicato da Construção de Portugal, confirma que há milhares de pessoas que não trabalham para empresas, “mas sim para angariadores de mão-de-obra”. E fala de outra “triste realidade” que é saber de casos de trabalhadores que se reformaram a receber 400 euros de pensão, pelo que estão a complementar o vencimento a fazer trabalhos de reabilitação urbana, mesmo tendo mais de 70 anos. Outra situação confirmada pelo presidente do sindicato é o facto de nos últimos sete anos terem emigrado cerca de 240 mil trabalhadores e, garante, em cada dia que passa a emigração continua a aumentar — mesmo com a grande procura que existe dentro de portas. “Desde Janeiro até Outubro, já emigraram mais oito mil trabalhadores”, anuncia, explicando este êxodo com as diferenças salariais praticadas entre Portugal e outros países, sobretudo da Europa, a que há acesso fácil graças às companhias aéreas de baixo custo.

Reis Campos diz, por outro lado, que o sector já paga acima do salário mínimo nacional. Albano Ribeiro contrapõe que os 600 euros que recebe um trolha em Portugal não podem competir com os 2500 euros mensais que aufere, se fizer duas horas e meia num avião todas as semanas para ir trabalhar em França. “O grande portefólio de obras que está a ser feito em Toulouse é por trabalhadores nacionais. Enquanto aqui, e hoje mesmo, fui fazer uma acção de segurança a uma empresa, e mais de 70% dos trabalhadores não eram nacionais”, afirma o presidente do sindicato.

Para Reis Campos, os preços que os construtores davam em plena crise económica eram completamente esmagados, por uma questão de sobrevivência. Mas agora os preços passaram de um preço esmagado para um preço anormal. “E toda a situação disparatou”, resume. E exorta directamente os partidos que se têm preocupado com os preços especulativos dos centros históricos de Lisboa e Porto a perceberem que esta é uma situação que afecta todo o país. “Parem de se preocupar com o investidor estrangeiro que comprou mais um prédio para um hotel na Avenida dos Aliados. Não é para aí que as pessoas querem ir viver. Eu também gosto de ver carros clássicos, mas na garagem e para o dia-a-dia a maior parte de nós compra um utilitário. Não é assim? E esses preços também estão a subir muito”, concretiza o presidente da CPCI.

Como é que se resolve?

O presidente do Sindicato da Construção diz que Portugal tem há muitos anos dos melhores trabalhadores da construção do mundo, mas esse ranking está ameaçado, uma vez que a “escola” que antes havia em cada obra hoje já não existe. “É mais fácil encontrar uma agulha num palheiro do que um aprendiz para as várias profissões no sector. E sem formação não há construção de qualidade”, observa.

Reis Campos também defende que a formação deve ser contínua e neste momento é uma das principais preocupações do sector. Por isso é defendida a reabertura dos centros protocolares com formação profissional e a possibilidade de serem criados mecanismos de mobilidade transnacionais que permitam às empresas trazer para Portugal trabalhadores que estão em obras suas no estrangeiro, nomeadamente em Angola ou Moçambique.

E propõe também o estreitar das malhas da regulação: desde 2015 que não havia fiscalização no sector, e a revalidação oficiosa dos alvarás só agora recomeçou, com cerca de 20 mil empresas a serem chamadas a prestar contas. O presidente da CPCI sugere que as mais de 100 mil empresas que recentemente abriram a actividade da construção deveriam ser obrigadas a apresentar um alvará alguns meses depois disso. “Porque se não é para ter um alvará, para que abriram a actividade?”, questiona.