Opinião

28 de Outubro: Brasil ou o combate pelo Homem

Jair Bolsonaro é, no fundo, o espelho de todo o ódio social e racial que, bem ao jeito americano, grassa na sociedade brasileira.

Como afirma Riemen em O Eterno Retorno do Fascismo, e a cuja obra me referi em artigo já aqui publicado, à semelhança de um vírus, que se metamorfoseia e assume diversas estirpes, a constituição do fascismo é adaptável aos organismos em que se aloja. No caso brasileiro, mas também americano e europeu, o vírus do fascismo explica-se quer pela fraca escolarização e consciência política dos cidadãos, quer pela decepção dos povos relativamente aos casos de corrupção no meio político.

No Brasil dos últimos anos, desde o Mensalão ao caso Lava-Jato que veio a servir de destituição a Dilma Rousseff, legitimamente eleita, a Direita revanchista não olhou a meios para atingir os fins. Se é certo que o PT cometeu erros (o último deles foi insistir em Lula como candidato nestas eleições de 2018), a verdade histórica dirá que Michel Temer foi o barqueiro que fez transitar a democracia brasileira para um regime que, sem eufemismos, é fascista. Os responsáveis pela hecatombe que se desenha são, para além do corrupto Temer, os não menos corruptos Eduardo Cunha, os juristas Miguel Reale Jr., Janaíma Pascoal e Hélio Bicudo, os quais, por via legislativa, levaram a cabo um golpe parlamentar a pretexto das pedaladas fiscais da administração Dilma, cujo procedimento orçamental ao tempo de Fernando Henrique Cardoso era absolutamente normal. Tramado nos bastidores da alta finança e da alta política, Temer (do PMDB) deu sequência ao processo de impeachment contra Dilma quando esta se preparava para condenar Eduardo Cunha, contra quem havia suspeitas de corrupção. Se o PT tem votado contra o processo de destituição de Cunha, este não se teria unido a Temer contra a antiga Presidente. Mas, mesmo destituído e preso, Eduardo Cunha tinha dado início ao golpe parlamentar que levaria ao fim da administração Rousseff. Aécio-Temer e outras uniões de interesse (Geraldo Alckmin, Romero-Henrique e a dupla Meirelles-Romero, com assento na poderosa FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), a par das mineradoras e do interesse americano na Amazónia e outras áreas de riqueza incalculável, tinham aqui a oportunidade para tirar o PT e o “lulismo” do poder, terminando com políticas económicas que, desde Lula, se tinham desviado da rota dos interesses dos EUA no Brasil. Coincide com o enriquecimento do povo brasileiro a administração Obama; o degradar das instituições democráticas brasileiras coincide com a chegada ao poder de Donald Trump e do seu conselheiro, Steve Bannon, um adepto do suprematismo branco, um militante fanático da extrema-direita racista, o qual se tornou, não oficialmente, conselheiro de campanha de Bolsonaro.

Saudosos da ditadura militar, aproveitando-se da insatisfação popular e dos escândalos da classe política (que os houve também na ditadura brasileira, com os célebres Andreazza e Delfim Neto, acusados de receber 10% de receitas a troco de concessões de obras públicas), os dados estavam lançados para a ascensão do admirador de Brilhante Ustra. A lei ao serviço dos lobbys de poderosos é a única dura lex que Congresso, Suprema Corte e Judiciário reconhecem. A luta contra a corrupção visou apenas enfraquecer o PT, mesmo que o Mensalão, por exemplo, tenha começado por ver associado o nome do ex-governador mineiro, Eduardo Azeredo. Temendo mais quatro anos de Lula-Dilma, o petismo não corrigiu erros de percurso e deixou-se minar por interesses duvidosos, avolumando-se os casos da Petrobrás, até tudo se politizar com o caso Lava-Jato. Há, neste enquadramento complexo, um dado essencial: o PT, e em especial Lula, representam tudo quanto a elite branca, rica, culta, detesta. Um Presidente vindo do sertão, um ex-metalúrgico que não fala línguas estrangeiras, mas que é imensamente popular para milhões. Eis o alvo a abater, eis o Presidente que as ditas elites financeiras não podiam admitir – sendo certo que, indo a votos, Lula venceria.

Jair Bolsonaro é, no fundo, o espelho de todo o ódio social e racial que, bem ao jeito americano, grassa na sociedade brasileira. Fazendo-se passar por defensor de valores tradicionais, esse capitão, que foi expulso do Exército, não terá lido jamais Carlos Drummond de Andrade ou João Cabral de Mello Neto, não terá noção alguma da História brasileira, ainda que beneficie da arreigada estrutura escravocrata do Brasil; despreza a diversidade étnica e cultural que caracteriza o ADN do seu país e o seu programa político arrasará com as políticas de fortalecimento do Mercosul e respeito pela soberania dos índios que as administrações Lula-Dilma levaram a cabo. Deixará cair a Lei de Partilha que protege a riqueza do Pré-sal, bem como reduzirá drasticamente, via Record TV, o espaço mediático reservado ao debate político, facto que interessa aos evangelistas de Edir Macedo, dono da cadeia televisiva e cujos interesses empresariais são sobejamente conhecidos.

Mas recuemos um pouco: em 2013, Glenn Greenwald denunciou que o grande alvo das acções de espionagem dos Estados Unidos era o Brasil. Segundo o jornalista, Dilma Rousseff teria sido vítima de espionagem, assim como os seus assessores mais próximos. O objectivo da Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA, na sigla em inglês), segundo Greenwald, sempre teve como fito encontrar os eixos fundamentais por que se regia a política de Dilma. No centro do interesse dos organismos de espionagem dos EUA está o petróleo e a Petrobrás, alicerce constitucional do petróleo e do gás no Brasil.

Depois do anúncio das descobertas do Pré-sal, os EUA imediatamente anunciaram a reactivação da IV Frota da marinha, que é encarregada de vigiar o Atlântico Sul. O interesse dos EUA na maior descoberta de petróleo dos últimos 30 anos é óbvio. Todavia, para além do petróleo, os Estados Unidos não pretendem a soberania do Brasil, potência económica, e rival dos interesses estratégicos dos EUA na região. As potências emergentes ameaçam ainda os EUA na luta pela hegemonia mundial e uma possível aproximação das administrações brasileiras à China e à Rússia pode mesmo representar o fim da ingerência do poder financeiro e económico dos EUA no Brasil, tal qual vem acontecendo desde os anos sessenta.

Negociando com o governo Macri a instalação de bases militares na Argentina, uma em Ushuaia (na província da Tierra del Fuego) e a outra localizada na Tríplice Fronteira (Argentina, Brasil e Paraguai), é o Aquífero Guarani, a maior reserva subterrânea de água doce do mundo, o que os EUA de Trump querem dominar. A falta de água será o problema do futuro próximo e a maioria dos rios dos EUA e da Europa, contaminados pela produção industrial, não garantem a comercialização e a sobrevivência quer dos povos, quer das multinacionais. O Aquífero Guarani representa 47% das reservas superficiais e subterrâneas de água do mundo e Bolsonaro, ladeado pelos militares que farão o seu programa de Governo, está ao serviço dos interesses americanos no Brasil, recebendo os dividendos que resultarão da entrega do petróleo e da água às grandes empresas americanas.