Editorial

Assunção Cristas perdeu-se entre a democracia e o autoritarismo

Passados todos estes anos, a líder do CDS parece ter esquecido um slogan feliz da Comissão Nacional de Eleições: “Não votar é votar naquilo que não quer”. Mas, o que quererá Assunção Cristas?

Se tivesse nascido brasileira, Assunção Cristas não iria votar neste fim-de-semana. Em causa está a mais dramática eleição depois da redemocratização de 1986, mas ainda assim a líder do CDS abstinha-se. No horizonte está uma clara opção entre o respeito pelas regras constitucionais e um programa de poder que contesta os elementares direitos, liberdades e garantias, mas nem por isso Assunção Cristas se sentia impelida a ir votar. Este domingo está em conflito a escolha entre o candidato mau de um partido péssimo e um candidato horrível de um partido fantoche, mas nem isso força Assunção a tomar posição. Passados todos estes anos, a líder do CDS parece ter esquecido um slogan feliz da Comissão Nacional de Eleições: “Não votar é votar naquilo que não quer”. Mas, o que quererá Assunção Cristas?

É fácil de perceber que um partido com a matriz ideológica do CDS tenha muita dificuldade em tocar, mesmo ao de leve, num partido que tem como símbolo uma estrela vermelha e foi cúmplice na terrível vaga de corrupção que assola o Brasil. Mas mesmo nas situações limite há sempre a possibilidade de escolher o menor dos males. Entre um candidato que faz a apologia da violência, da homofobia, do racismo e da ditadura e outro candidato que tem como principal pecado um programa ressabiado e a herança horrível do lulismo, há diferenças. Por muito que Assunção Cristas diabolize a esquerda e abomine a corrupção (o que lhe fica bem), na qualidade de líder de um partido democrático não pode abster-se numa eleição em que o que está em causa é precisamente a democracia.

Assunção Cristas acaba por cair no relativismo que em outros tempos deu origem às fracturas políticas que abriram portas ao autoritarismo e às ditaduras. Mais do que discutir ideias, ideologias ou projectos de poder, o que está em causa nesta eleição é o regime que garante o pluralismo para existirem e a liberdade para serem discutidas. O PT de Fernando Haddad, com todo o seu legado de misérias e as suas promessas vagamente bolivarianas não coloca esses valores em causa. Jair Bolsonaro, faz o oposto e ameaça os alicerces do regime. Entre um e outro, Assunção Cristas abstém-se. E ao fazê-lo dá razão aos que olham para a política de hoje como um banal produto de marketing.