Entre os apoiantes de Haddad espera-se que "as pessoas ganhem consciência à última hora"

A candidatura de Fernando Haddad organizou um comício de apoio em São Paulo, numa altura em que as sondagens mostram uma diminuição da distância em relação a Jair Bolsonaro.

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Reuters/NACHO DOCE

O psicólogo Cláuver, de 38 anos, já tem o diagnóstico para o Brasil em tempo de eleições: “Parece uma criança com birra. Não quer ouvir, só quer, quer, quer.” Cláuver veio ao fim do dia de quarta-feira ao Largo da Batata, em São Paulo, desafiando a ameaça de chuva, para o comício de apoio à candidatura de Fernando Haddad. O voto na candidatura do Partido dos Trabalhadores (PT) tem significados diferentes, mas é sobretudo um acto de resistência.

Ao contrário dos actos de apoio a Jair Bolsonaro, onde o azul, verde e amarelo da bandeira nacional reinam, aqui não há cores nem padrões fixos. A preferência vai para T-shirts com mensagens fortes: “Lute como uma garota”, “Casa grande surta quando a senzala aprende a ler” e, claro, “Lula livre”, são algumas das mais usadas. É difícil chegar perto do palanque onde vão discursando dirigentes do PT e de outros partidos aliados, líderes sindicais e activistas de organização como o Movimento Sem Terra.

Quem não quer estar no meio da multidão concentra-se mais atrás, em pequenos grupos em conversas animadas, entre um cigarro e uma cerveja. Os fragmentos de conversas que se ouvem são praticamente todos dominados pelas eleições de domingo e pelos seus efeitos. “Vai ser tão legal chegar em casa com uma camisola a dizer ‘Lula livre’”, diz um rapaz que passa com um grupo de amigos.

Everton, de 29 anos, está num grupo em que todos usam uma T-shirt em que se lê “Sou professor, voto em Haddad”. Mas Everton é, na verdade, porteiro de um condomínio. A escolha do tema para a sua reivindicação é simples: “Os professores têm de ter as melhores condições, as pessoas têm que ter a base da educação”, diz, acrescentando que estudou até ao segundo ano do ensino médio, equivalente ao ensino secundário português.

Everton votou “sempre no PT, porque [o partido] sempre olhou pelos mais fracos”. Diz estar confiante na vitória de Haddad no domingo e conta que até os moradores do prédio onde trabalha deixaram de apoiar Bolsonaro depois de ouvirem as declarações mais recentes, em que prometeu “varrer” os opositores políticos. “As pessoas ganham consciência na última da hora”, prevê.

Em busca da "virada"

De uma forma geral, Bolsonaro continua a recolher um maior número de intenções de voto, de acordo com as sondagens. Mas entre os apoiantes de Haddad há uma renovada esperança de que a “virada” é possível. A sondagem do Ibope publicada na terça-feira aponta para uma diminuição da distância entre os dois candidatos. Em São Paulo, por exemplo, onde Haddad foi presidente da câmara, regista-se agora um empate técnico. A mesma sondagem indica também uma descida de seis pontos da rejeição de Haddad e uma subida de cinco da rejeição de Bolsonaro.

José, um empresário de 60 anos, sente que “os eleitores estão a perceber que é importante continuar a lutar pela democracia”. “Ainda temos três dias e será possível reverter”, afirma. A geóloga Aline, de 29 anos, não está tão confiante. “Fazemos o que é possível”, diz. Como em muitos outros casos, as diferenças de opinião levaram-na a algumas “brigas” com familiares, sobretudo através do WhatsApp. Ainda tentou convencer os parentes a não votar no capitão reformado, mas desistiu quando afirmaram que “a ditadura era melhor que a democracia”.

Os casos de corrupção que envolvem vários ex-dirigentes do PT, incluindo o ex-Presidente Lula da Silva, que está a cumprir uma pena de 12 anos de prisão, não são esquecidos pelos apoiantes em tempo de campanha eleitoral. Mas persiste uma percepção de que a imprensa e a justiça se concentram em exclusivo nos casos que envolvem “petistas”. “O impeachment [de Dilma Rousseff] serviu para rotular o PT como o partido da corrupção e ficou isolado”, observa Francisco, um médico de 65 anos que veio há mais de 40 de Pernambuco para São Paulo. É “petista” há muitos anos e garante que já fez a sua autocrítica. “Quando dizem que o PT inventou a corrupção, basta olhar para o tratamento diferente dado ao PT e aos outros partidos, que também têm casos”, afirma.

Haddad tem tentado construir uma frente ampla que congregue várias forças políticas para enfrentar Bolsonaro. Porém, tem tido muita dificuldade em vencer a grande resistência que grande parte da classe política brasileira tem hoje em associar-se ao PT, manchado por uma sucessão de escândalos de corrupção. Do candidato do Partido Democrático Trabalhista, Ciro Gomes, e da candidata da Rede, Marina Silva, Haddad conseguiu apenas arrancar um “apoio crítico”, mas das principais lideranças do Partido da Social Democracia Brasileira apenas veio silêncio.