Do cadastro de Dilma ao homem que esfaqueou Bolsonaro: as imagens falsas que iludem os brasileiros no WhatsApp

Um estudo feito pela equipa de verificação de factos Lupa conclui que a maioria das imagens partilhadas na rede social WhatsApp durante a campanha para as presidenciais brasileiras são falsas ou são apresentadas fora do seu contexto. O PÚBLICO mostra alguns exemplos.

O Brasil está dividido a pouco mais de uma semana das presidenciais e o seu futuro decide-se também nas redes sociais. O jornal Folha de São Paulo revelou na quinta-feira que há suspeitas de que várias empresas estarão a financiar o envio no WhatsApp de centenas de milhões de mensagens com notícias falsas contra o candidato presidencial Fernando Haddad e o seu Partido dos Trabalhadores (PT), num esquema que visará beneficiar o candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro.

A pedido da Universidade de São Paulo e da Universidade Federal de Minas Gerais, a agência Lupa, uma equipa de verificação de factos, analisou o grau de veracidade das 50 imagens mais partilhadas em 347 grupos de WhatsApp entre 16 de Agosto e 7 de Outubro – e chegaram à conclusão de que só quatro das imagens eram totalmente verdadeiras. O fenómeno é transversal, e “o problema das notícias falsas no Brasil transcende as divisões políticas”, lê-se num artigo de opinião que os autores do estudo publicaram no New York Times.

Das 50 imagens analisadas (que habitualmente incluem legendas a reforçar uma determinada mensagem política), há oito que são totalmente falsas. Nove são sátiras ou estão associadas a artigos de opinião (ou seja, não reflectem factos). Noutros 16 casos, as fotografias são verdadeiras mas são associadas a teorias da conspiração ou são apresentadas fora do seu contexto. Os restantes exemplos analisados incluem afirmações exageradas ou impossíveis de serem provadas, refere a agência Lupa. O PÚBLICO reuniu alguns exemplos de imagens e notícias falsas que circularam na rede.

Dilma Rousseff com Fidel Castro

Uma das imagens que foi partilhada pelo menos 78 vezes nos grupos analisados é a de uma montagem em que a antiga Presidente do Brasil, Dilma Rousseff (PT), surge ao lado do ditador cubano Fidel Castro numa visita a Nova Iorque. A fotografia original (que pode ser vista aqui) foi tirada pelo fotógrafo John Duprey em 1959, quando Rousseff tinha apenas 11 anos — ou seja, trata-se de outra pessoa e não da antiga chefe de Estado brasileira.

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O homem que atacou Bolsonaro numa foto com Lula

Outra imagem que circulou tanto no Facebook como no WhatsApp mostra Adélio Bispo de Oliveira – o homem que esfaqueou o candidato presidencial Jair Bolsonaro no início de Setembro – num comício com Lula da Silva. Trata-se de uma montagem. Oliveira nunca esteve no comício e a imagem registada pelo fotógrafo Ricardo Struckert foi manipulada digitalmente.

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A fotografia manipulada (à esquerda) e a fotografia original (à direita)

Direitos homossexuais e pedofilia

Uma imagem partilhada pelo menos 53 vezes nos grupos analisados pela Lupa apresenta uma criança a beijar um adulto na boca durante uma marcha pelos direitos dos homossexuais. "Esse é o direito que eles querem. E se você não concordar, irão lhe chamar de homofóbico", lê-se na legenda. Outra legenda que costuma acompanhar a imagem é de que são "pessoas" que "não votam em Bolsonaro". A intenção implícita é de associar a luta pelos direitos dos homossexuais no Brasil à apologia da pedofilia, mas nem a fotografia foi tirada no Brasil (é de Nova Iorque e foi registada em Junho de 2015), nem há qualquer prova de que retrate um acto pedófilo (uma vez que beijar uma criança nos lábios é um gesto de afecto habitual em alguns países e culturas, não tendo necessariamente um cariz sexual).

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A ficha criminal de Dilma Rousseff

Outra das imagens falsas que circulou no WhatsApp (e que também já tinha circulado durante a campanha para as presidenciais de 2010) foi o suposto registo criminal de Dilma Rousseff, com uma fotografia sua, em que é referido que esteve envolvida no assassínio do norte-americano Charles Rodney Chandler e noutros actos atribuídos a grupos terroristas.

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