Reportagem

Enquanto as Marias vão ao cinema, a Sé respira mais um pouco

Entre o documentário e a ficção, Marias da Sé tem uma comunidade como protagonista. No filme de Filipe Martins cabem tradições, singularidades e delicadezas da Sé que resiste. Mas se ressente. Estreia no Porto está marcada para esta quarta-feira, 17 de Outubro.

Números 47 e 49, portas acastanhadas, varandas enfeitadas. Na casa do começo da rua, mora a explicação de quase tudo. Numa, duas violas envolvidas por papel colorido, na outra uma faixa preta com o baptismo anunciado: "Varanda da Saudade". Ainda em Setembro se ouviu fado ecoar dali. Ainda em Setembro a Sé foi o que a Sé é (ou era?). Maria João Mendes e Paula Lemos atropelam-se a reviver o dia, repetido de quando em vez na Rua Escura. Não é apenas pelo fado vadio, é pela gente reunida nesses eventos. “Isto fez com que o povo que cá morou regressasse à terra”, aponta Paula Lemos. Gente há muito apartada da comunidade, empurrada para os bairros, deslocada para a periferia. Mas que mantém o coração na Sé.

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No primeiro prédio da Rua Escura, há fado fado nas varandas. Na "loja da Maria João", no R/C, pára parte da comunidade da Sé

Foi por um acaso que Filipe Martins foi parar à “loja da Maria João”, no piso raso daquele prédio, vistas para a Sé catedral. Mas não foi casual a sua permanência. Ali, o realizador encontrou a essência que buscava. “Elas são as guardiãs do espírito tradicional da Sé”, aponta. Filipe Martins tinha sido convidado pelo Balleteatro e a Porto Lazer para fazer um retrato da comunidade da Sé, geografia onde o Porto nasceu. E andava a calcorrear a zona quando lhe falaram daquele lugar.
— Entrei e estavam umas oito ou nove mulheres a jogar cartas. Conheci-as logo.
— E gostaste, diz lá! Não há mulheres como as do Norte.

Maria João espicaça o realizador. Foi já há três anos que Filipe Martins andou por ali a filmar. E depois da estreia mundial do filme, entre o documentário e a ficção, no Festival de Cinema de Avanca, chegou a vez do Porto. Esta quarta-feira, 17 de Outubro, às 21h30, as Marias da Sé enchem o grande ecrã do Passos Manuel, no terceiro dia do Family Film Project.

É um retrato desta comunidade pelas suas vozes, narrativa desenhada de forma “espontânea”, ao ritmo do quotidiano dos moradores. E com os actores João Reis, Carla Bolito e Lígia Roque a dar-lhe uns laivos de ficção. Uma “encenação do real”, nas palavras do realizador, onde se discute política e futebol, bairrismo e tradições, delicadezas e desassossegos.

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Paula Lemos e Maria João são duas das protagonistas do filme Marias da Sé

Maria João traz o cabelo preto brilhante amarrado, enormes argolas de ouro, avental com toques de renda. Ser mulher “nascida e criada” na Sé é linha primeira da sua biografia e orgulho para o qual lhe faltam palavras: “Não há explicação, é preciso ser daqui para saber.” Há uns anos, depois de o telhado da sua casa na Rua de D. Hugo fracassar, foi parar a um bairro. “Era por um ano, foram 19”, conta. Há coisa de três, com os trocos que o filho do meio foi fazendo no mundo do futebol, conseguiu comprar aquele prédio e voltar à Sé. E dali não quer sair mais. Mãe de três e avó de dois, apesar dos 45 anos, é na loja dela o epicentro de uma comunidade que se recusa a desistir.

Mesmo condenada a morar fora, Paula Lemos não desiste. Quando há uns 12 anos juntou dinheiro para investir numa casa, “ainda ninguém olhava para a Sé com olhos de olhar”. Quem estava não queria sair, quem tinha casas não queria vender. Foi parar a Oliveira do Douro, mas ali desagua sempre que pode. A filha Tatiana (também actriz no filme) pratica boxe na União Desportiva da Sé e também ela, dada ao desporto, começou a fazê-lo. “Chamam-lhe bairro da Sé, mas não é bairro. É uma comunidade. É mais chique”, sorri. “A nossa maneira de ser é diferente em tudo. Defendemos isto com unhas e dentes”, aponta Maria João.

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O mercado da Sé é um dos pontos turísticos da zona

À porta do Mercado de S. Sebastião, a poucos metros dali, Maria Carvalho espera a carrinha que a levará até São Roque. Vai encher os caixotes pretos de mercadoria para vender no mercado na manhã seguinte. Também ela é personagem no filme de Filipe Martins: “Apareço a falar mal do Pinto da Costa e elas a falar mal do Vieira”, conta. Avental com a águia sempre posto, “Maria Comunista”, como é conhecida, não deixa nada por dizer. Sempre que o Benfica joga na cidade, vai a Campanhã receber a claque e faz o caminho com ela até às Antas. “Nunca gostei daquele campo”, afirma, peremptória.

“Chama-se Dragão, não é Antas”, contesta a vizinha Conceição Baptista, moradora da Sé há mais de 50 anos. Em poucos segundos, a conversa vai da bola à política. Da política ao turismo. “É sempre a piorar. Tiraram as pessoas, mandaram-nas para os bairros. E as casas estão vazias ou com hostels”. Da Rua Escura “cheinha” de gente já nem sobram vestígios: “No meu prédio já sou só eu e a minha irmã”, conta. Albina Maia, 81 anos, ouve a queixa e faz eco. Desde que o marido morreu, há uns dois longos anos, sente-se “sozinha como um gato”.

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Maria Comunista e a vizinha Conceição Baptista queixam-se do excesso de turismo

Trocou Cabeceiras de Basto pelo Porto aos 14 anos. Foi criada de servir, com salário de 100 escudos, até se casar. Depois mulher-a-dias, vendedora de roupa com posto em frente ao mercado. “O que isto era e o que é”, deixa sair. Há dias, desmaiou em casa e não teve quem lhe valesse — e essa solidão forçada é parte do drama de quem ali vive.

Filipe Martins sublinha a “perfeita consciência” da comunidade em relação à história ali vivida: “A noção da importância cultural delas e da ameaça desta especulação imobiliária e overdose do turismo.” Paula Lemos atropela a frase mal ouve falar de turismo: “Essa overdose era boa se nos levasse a nós também”, defende. O prédio ao lado da loja da Maria João foi vendido. Será mais um hostel. Uns metros abaixo, há casas devolutas há anos prometidas para residências de estudantes. Na Rua dos Pelames, apartamentos renovados e fechados. “Isto é bonito enquanto a gente cá estiver”, reclama Paula Lemos, “quando formos todos embora vão ver o quê? Prédios?”.

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Filipe Martins, realizador de Marias da Sé, mora no Porto há 15 anos

À porta da loja, um cartaz de letras amarelas e fundo azul anuncia o filme Marias da Sé. Jogam-se cartas, fala-se da vida. Sábado será dia de comes e bebes ao almoço, a meio do mês haverá uma “excursão aos leitões, só para mulheres”, em breve regressará o fado na varanda a abalar saudades. Novamente a verdadeira Sé. Quando esta noite o filme rodar no Passos Manuel, Maria João sorrirá: “No tempo em que isto acontece, a Sé resiste mais um bocadinho”. Assim seria, garantem, com um pequeno apoio camarário que as ajudasse a protagonizar o renascimento da Sé. Mas agora fora do ecrã.