Opinião

O irracionalismo catastrofista

A mente humana é uma grande obreira de “milagres” e ela não pára de inventar soluções. Ontem como hoje o futuro está em aberto.

A raça humana é apocalíptica. Adoramos quando nos dizem que o fim do mundo está a chegar. Foi assim ao longo da história e isso fez e faz prosperar os Nostradamus de todas as gerações. Isso explica a popularidade dos filmes e séries que anunciam grandes catástrofes e o fim do mundo. E nunca aprendemos nada. Deixamo-nos enredar pela emoção e divorciamo-nos da inteligência. Às vezes é preciso parar e não desistir de pensar. Afinal, no século XX, os totalitarismos foram derrotados e a democracia liberal venceu. Depois da II Guerra Mundial, a catástrofe nuclear anunciada, com a destruição do planeta, não aconteceu. Na transição do milénio, a disrupção, o “bug” gigantesco e o colapso anunciados, não aconteceram. Com a crise financeira de 2008, a débacle total do mundo ocidental não aconteceu. O fim do projeto europeu e do euro, tantas vezes anunciado, não aconteceu. A eclosão do terrorismo global com a Al-Qaeda e o Estado Islâmico e a anunciada derrocada da civilização ocidental não aconteceu. Significa isto que está tudo bem e que não existem perigos no horizonte? Não. Mas a melhor maneira de enfrentar os perigos e as ameaças não é a histeria coletiva aliada a visões apocalípticas mas sim a análise racional das situações e a identificação de soluções compatíveis usando todo o conhecimento científico e tecnológico disponível. Para isso importa começar por compreender porque é que hoje assistimos a uma nova erupção do irracionalismo catastrofista.

A razão talvez seja a que é apontada pelo historiador Yuval Noah Harari: “Os seres humanos pensam através de narrativas e não através de factos, números ou equações, e quanto mais simples a narrativa, melhor.” Como as grandes narrativas entraram em crise – o fascismo, o imperialismo, o comunismo, e mesmo o liberalismo, que está hoje sob ataque –, as pessoas ficam desorientadas, já nada faz sentido e assim pensam em termos apocalípticos e anunciam o fim da civilização. Vai acontecer? Claro que não. Se olharmos objetivamente para a realidade vivemos hoje uma era de crescimento económico e prosperidade global nunca antes vista na história. A capacidade de criação de riqueza do planeta está no auge e tem impacto nos cinco continentes do mundo, em especial na Ásia e na África sub-saariana, que têm crescido de forma impressionante nas últimas décadas. A luta contra a pobreza tem tido um sucesso nunca antes visto com a descida de mais de 20% nos últimos 20 anos e a saída de milhões de pessoas do limiar da privação. A luta contra as doenças e a dor tem revelado progressos científicos notáveis e isso reflete-se na maior longevidade da vida humana. As sucessivas revoluções tecnológicas, ao contrário do que é sempre anunciado pelos profetas da desgraça, melhoram o bem-estar e a qualidade de vida em todas as latitudes do planeta e hoje o telemóvel faz a diferença na vida de comunidades inteiras da África Oriental à Índia, do Paquistão à China. Toda esta evolução extraordinária começou no século XX e teve a grande aceleração a partir de 1950: o PIB mundial cresceu mais de dez vezes até ao fim do século. E porquê? Porque as grandes tecnologias que foram descobertas e ou desenvolvidas no século XX – o motor de combustão interna baseado no petróleo, o carro, o avião, a eletricidade, o computador, o telefone, o laser – todas tiveram um impacto brutal sobre a produtividade total dos factores de produção e mudaram a trajetória da nossa civilização. Tudo o que temos hoje em termos do extraordinário património adquirido pela civilização e que se reflete no nível de bem-estar e prosperidade deve-se a essas tecnologias. Convém, portanto, sermos humildes quando as demonizamos. O problema do planeta hoje não é tanto a criação de riqueza mas a sua distribuição de uma forma mais equitativa. A globalização e a Internet diminuem as diferenças entre países mas agravam o fosso entre classes dentro de cada país. E, por isso, a luta contra a desigualdade e a assumpção pelos estados de politicas públicas corajosas que reorientem a distribuição da riqueza de uma forma justa e evitem a marginalização dos setores mais desprotegidos são essenciais. Há dois tópicos, entre outros, que alimentam o irracionalismo catastrofista: a ascensão dos piores na política e a ameaça climática.

Quando olhamos em volta vemos hoje em muitos regimes políticos, incluindo a Europa e os EUA, a ascensão dos piores, o crescimento dos nacionalismos identitários, da xenofobia, da demonização e exclusão do outro, utilizando em especial os migrantes como arma politica. Em muitas destas sociedades, com a perda de rendimento dalguns setores da população, causado pelo processo da globalização, e a falta de respostas politicas na luta contra a desigualdade, cresce a desconfiança em relação às instituições, à política e aos partidos tradicionais, medra o ressentimento e a raiva, começa a faltar a lucidez. O poeta irlandês William Yeats escreveu no século passado, ao antever de forma premonitória que os nacionalismos isolacionistas conduzem à guerra: “Aos melhores falta a convicção enquanto os piores estão animados de uma intensidade apaixonada.” Quando hoje na Europa vemos Steve Bannon, o ideólogo de Trump, muito activo a tentar federar a extrema-direita europeia e a lançar um debate identitário em cada país europeu, há que responder à altura através da mobilização dos melhores. Como disse Amin Malouf, as identidades são assassinas. Como sabemos da história na Europa, os nacionalismos significam a guerra. As democracias liberais têm que se reinventar para responder aos problemas dos cidadãos, derrotar a xenofobia, o racismo e o nacionalismo identitário, melhorar o funcionamento e a qualidade das instituições, regular as redes sociais que, apesar de serem uma enorme conquista cívica, propagam muitas vezes notícias falsas e moldam o pensamento grupal e tribalista que se afasta da verdade e dos factos. É preciso revitalizar o jornalismo como mediador da informação, conter os ciberataques que interferem nas eleições e podem abrir caminho às ditaduras digitais e desmontar um a um os argumentos dos piores. O caminho está à nossa frente para reforçar as democracias liberais e o projeto europeu. Como no passado, os piores vão perder de novo.

O outro tópico que alimenta o irracionalismo catastrofista é a ameaça climática. Ela existe e é séria. A Conferência de Paris do Clima – a COP 21 – representa um grande passo em frente. A matriz energética mundial já está a mudar com mais gás e mais energias renováveis e menos carvão. Já existem soluções que, aplicadas, reduzem, fatia a fatia, o nível de emissões de CO2. Estas estagnaram em 2015 e 2016, mostrando que é possível reverter a tendência de subida. Claro que não é suficiente, é preciso fazer muito mais. Mas perante os factos é preciso evitar a histeria coletiva e aprender com a história. Nos anos 80 do século passado houve uma onda catastrofista mundial por causa do buraco de ozono, um gás composto por três átomos de oxigénio e cuja ocorrência na parte baixa da estratosfera é essencial para refletir os raios ultravioleta e assim preservar a vida na Terra. Como o buraco de ozono estava a alargar íamos morrer todos fritos na frigideira terrestre. Só que a comunidade mundial uniu-se, identificou o problema, celebrou em 1987 o Protocolo de Montreal e baniu os clorofluorcarbonetos, que eram a causa da deterioração da camada de ozono. E o que aconteceu? O problema foi revertido, nos últimos 15 anos a camada de ozono é estável, há ainda um problema na Antártida que está em vias de solução. A ameaça climática hoje é de uma escala muito maior que o ozono. Mas, sem nunca subestimarmos o papel da estupidez humana, é justo dizer que sempre que se identifica um problema grave a raça humana tem sido capaz, ao longo da história, de responder à altura. E no caso da ameaça climática, para além do que é necessário fazer ao nível da indústria pecuária, do mau uso dos terrenos, da desflorestação e das outras indústrias poluidoras, responsáveis, no seu conjunto, por 43% das emissões, é necessário actuar no domínio da energia, responsável pelo remanescente. Na energia, para além das soluções que já existem e estão a ser implementadas, há outras na calha e que podem mudar tudo para melhor: o armazenamento da eletricidade à escala da rede, que pode conduzir à eletrificação de vastos segmentos da economia; o desenvolvimento de biocombustíveis sustentáveis, baseados em algas e material celulósico, sem interferência na cadeia alimentar e que podem usar a infraestrutura de transportes existente; a revolução do hidrogénio que está a caminho e pode mudar tudo porque se trata do gás mais abundante no universo e tem aplicações múltiplas; as energias oceânicas que por si só têm um potencial para gerar quatro vezes mais eletricidade do que toda aquela que o planeta consome; a fusão nuclear, que está a ser testada num projeto no Sul de França, por um consórcio que integra muitos países do mundo, incluindo Portugal, e que pode ser outra solução do futuro baseada no poderoso mecanismo de criação de energia das estrelas. Uma coisa é certa: a mente humana é uma grande obreira de “milagres” e ela não pára de inventar soluções. Ontem como hoje o futuro está em aberto.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico