Polícias organizam protesto com bilhetes comprados para entrarem na Web Summit

Em causa está o atraso na contabilização dos 12 anos em que a carreira esteve congelada. Agentes vão distribuir folhetos a estrangeiros avisando-os para problemas na segurança pública do país.

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Dirigentes do Sinapol já organizaram acções deste tipo nos aeroportos, em 2014 José Maria Ferreira

O protesto que centenas de agentes da PSP estão a preparar para Novembro, na Web Summit, arrisca-se a ficar nos anais da história do sindicalismo policial português. O Sindicato Nacional da Polícia (Sinapol) está a organizar uma acção de protesto, entre 5 e 8 de Novembro, para as portas da feira internacional, que recentemente se soube que ficará em Lisboa por mais cinco anos.

Os agentes da PSP, vestidos com coletes fluorescentes com o nome do sindicato, vão entregar folhetos aos visitantes da feira – muitos deles estrangeiros – alertando para as preocupações com a segurança pública em Portugal e para as condições remuneratórias dos polícias. Mas prometem não ficar apenas à soleira da porta. “Já comprámos bilhetes para entrar na Web Summit”, adiantou ao PÚBLICO o presidente do Sinapol, Armando Ferreira.

Porém, o dirigente não revelou se vão continuar o protesto entre as paredes da Altice Arena. Deixou apenas a sugestão. “Não vamos estar só à porta com coletes e os flyers, vamos estar lá dentro também”, insistiu, escusando-se a dar detalhes do que pretendem fazer no interior da feira internacional. Já quanto à envergadura do protesto deu detalhes. “O Sinapol vai lá estar em peso e estamos a falar de algumas centenas.”

E à porta, sim, explicou o que pretendem. “Queremos alertar as pessoas para os problemas que existem na segurança pública no nosso país." E porquê na Web Summit? “Então, o site da Web Summit diz que esperam mais de 70 mil participantes, mais de 1200 oradores, mais de 2600 jornalistas e mais de 170 países representados. A nossa mensagem vai ser notícia em todo o mundo”, justifica Armando Ferreira.

Os protestos dos polícias têm sido frequentes neste ano

Em causa, à semelhança do que acontece actualmente com os professores, está a contabilização nas remunerações dos agentes dos 12 anos em que as suas carreiras estiverem congeladas, sem qualquer progressão. “Em Janeiro de 2018, as carreiras foram descongeladas, mas até agora não se contabilizaram os anos em falta. Em média, cada agente está a perder 300 euros por mês e isso tem efeitos também nas pensões de reforma. Estão a descontar menos e terão uma reforma mais pequena. O Governo prometeu e até agora nada aconteceu.”

Pediram audiência a Marcelo

Aliás, em comunicado, o sindicato diz que “não existem sinais por parte do Governo, no sentido de tentar encontrar uma solução para os 12 anos em que [as carreiras] dos profissionais da PSP estiveram congeladas”. “É preciso ver que em 12 anos, cada agente poderia subir quatro escalões na carreira e isso não aconteceu. É necessário agora fazer essa contabilidade”, insiste o presidente do Sinapol que vai convidar os outros sindicatos afectos à PSP para este protesto.

No mesmo comunicado, o sindicato diz que “solicitou ao Presidente da República uma audiência com vista a expor o sentimento de revolta e angustia dos profissionais da PSP”. E o que esperam de Marcelo? “Esperamos que o Sr. Presidente da República exerça a sua magistratura de influência para nos ajudar a resolver este problema. Ouvimo-lo há pouco tempo, relativamente às Forças Armadas, a dizer que há organizações que são estruturantes. Ora, não há neste país organização mais estruturante para a sociedade que as Forças de Segurança, a polícia”, explica Armando Ferreira.

Os protestos dos polícias têm sido frequentes neste ano. Em Maio, por exemplo, várias associações sindicais promoveram vigílias, algumas em frente à Direcção Nacional da PSP, concentrações e distribuição de folhetos aos turistas nos aeroportos. E em Março, equacionaram mesmo distribuir folhetos à porta do Festival da Eurovisão, em Lisboa.