Editorial

Estas cidades não são para estudantes

Para estudantes e famílias, à luta pela média suficiente para chegar à universidade pretendida, soma-se agora o pesadelo da procura de um local para viver enquanto se estuda.

Não vai muito tempo, era presidente da autarquia Rui Rio, e o Porto queria ser “A cidade da Ciência”. No mercado do marketing territorial, era um bom slogan tendo em conta o prestígio da universidade como produtora de conhecimento e a vontade de continuar a captar estudantes para uma cidade onde abundavam as casas degradadas e o centro se esvaziava de habitantes.

Não foi há muito tempo, mas já parecem ser palavras de outra era porque, entretanto, a explosão turística mudou radicalmente a cidade e o singelo convite inserido nesse slogan só pode ser escutado hoje com alguma amarga ironia. No Porto, como em Lisboa ou em Coimbra e mesmo em Braga ou Faro.

Para estudantes e famílias, à luta pela média suficiente para chegar à universidade pretendida, soma-se agora o pesadelo da procura de um local para viver enquanto se estuda. Como mostram hoje as reportagens dos jornalistas do Público, a escassez de espaços e os elevados preços criam um entrave objectivo a que muitos possam cumprir o seu ciclo académico em condições aceitáveis. Num país que continua a precisar de elevar o nível de formação dos seus cidadãos esta é uma situação a precisar de ser debelada.

Não chega ao Governo anunciar linhas de investimento para a construção de residências universitárias quando os estudantes de hoje não têm onde dormir. Deveria haver já um reforço dos apoios a estudantes que lhes permita custear parte dos elevados preços que são pedidos. Não tem o charme de uma Web Summit mas é capaz de fazer bem mais pela modernidade do país

As universidades têm de ser mais activas na procura de investimento em residências universitárias e no estabelecimento de parcerias, nomeadamente com os municípios circundantes aos grandes centros onde ainda é possível fintar a pressão do mercado. Não podem é perder tempo com medidas efabulatórias como “recorrer ao aluguer de quartos a terceiros para disponibilizar aos estudantes”, como defendeu recentemente o reitor da Universidade do Porto.

Por fim, as cidades devem olhar para isto como um enorme desafio ao seu futuro. O turismo é uma grande oportunidade, mas é cegueira apostar todas as fichas no mesmo número e acreditar que o mercado chega para resolver tudo. As cidades fazem-se com diversidade, com multiplicidade e felizes as que podem contar entre os seus activos com um batalhão de estudantes. É imperativo regular e influenciar para que continue a ser possível viver decentemente enquanto se tira o diploma.