Uma feira de arte em Lisboa para descobrir o desenho

Com preços entre os 180 euros e os 55 mil, a feira dedicada ao desenho abre esta quinta-feira em Lisboa a pensar no coleccionismo mais jovem. Até domingo, 19 galerias mostram os limites de um meio que não pára de crescer na Sociedade Nacional de Belas-Artes.

Fotogaleria
Adriana Molder e o seu desenho feito a tinta da china sobre papel vegetal Nuno Ferreira Santos
Fotogaleria
Mónica Álvarez Careaga, a directora espanhola da Drawing Room Nuno Ferreira Santos
Fotogaleria
A Sociedade Nacional de Belas-Artes recebe a feira até domingo Nuno Ferreira Santos,Nuno Ferreira Santos
Fotogaleria
Desenho de Irene González Nuno Ferreira Santos
Fotogaleria
As newspaper paintings de João Felino Nuno Ferreira Santos
Fotogaleria
Obra de Ángeles Agrela Nuno Ferreira Santos
Fotogaleria
Desenhos de Pedro Gomes Nuno Ferreira Santos

Não há duas sem três. Com a abertura esta quinta-feira ao público da feira Drawing Room, a cidade de Lisboa passa a contar, em poucos anos, com três feiras de arte contemporânea. O que as três têm em comum é que são organizadas pelas suas congéneres espanholas, sendo uma exportação do mercado da arte espanhol, que volta a mostrar com esta feira especializada em desenho contemporâneo ter uma ambição ibérica.

Primeiro foi a ARCOLisboa, que em Maio chegou já à sua terceira edição na Cordoaria Nacional. E foi este ano que se estreou, no mesmo mês, uma das feiras satélites da ARCOMadrid, a JustLX, dedicada à arte emergente.

Se a ArcoLisboa e a JustLX, organizadas por empresas diferentes, coincidem nas datas, tal como em Madrid, já a Drawing Room, na sua versão lisboeta, escolheu a segunda metade do ano para inaugurar, desencontrando-se das outras duas feiras, ao contrário do que acontece em Espanha. 

Mas de Madrid, a Drawing Room, que já vai na sua terceira edição, trouxe a inspiração para o local onde se instala em Lisboa, a Sociedade Nacional de Belas-Artes (SNBA), uma vez que a feira na cidade espanhola tem lugar no Círculo de Belas-Artes — ambos são belos edifícios do início do século XX nos centros históricos.

“A SNBA tem fama de ser um dos espaços mais bonitos de exposição de Lisboa. É muito central e está muito bem dimensionado para o primeiro ano de uma feira”, afirma a espanhola Mónica Álvarez Careaga, directora da Drawing Room. O número de galerias também é semelhante em Madrid e Lisboa, muito menor do que as 70 da ARCOLisboa ou as 40 da JustLX, ficando-se a nova feira pelas 19 galerias, com origem em Portugal, Espanha, Grécia, França, Alemanha, Brasil e Colômbia. “Fizemos uma convocatória aberta. Rejeitámos 12 galerias. Ficámos com 19 das que pensámos que eram boas”, continua Mónica Álvarez, acrescentando que a selecção foi feita pela directora artística da feira, a portuguesa Maria do Mar Fazenda, com a participação de um comité consultivo internacional e dela própria.

Mónica Álvarez, que foi consultora de uma das feiras de arte lisboetas que entretanto desapareceram, a Arte Lisboa, e que conhece o contexto artístico nacional, diz que o coleccionismo para o desenho é o mesmo do resto da arte contemporânea. “Os artistas actualmente estão a fazer muito trabalho sobre papel, mas, como é mais barato, há muito coleccionismo jovem”, acrescentando que 24% do mercado mundial é composto por desenho.

Geralmente, os departamentos de desenhos dos museus incluem neste meio, numa abordagem mais tradicional, técnicas como a grafite, a aguarela, o guache ou a collage sobre papel. O desenho que vamos poder ver até domingo na SNBA é bastante mais abrangente na sua definição. “É um desenho expandido que se mistura com outras disciplinas.” Entre os trabalhos que já era possível ver nas paredes quando visitámos a feira esta semana, encontrámos fotografia, desenho que ganhava tridimensionalidade e tomava a forma de uma escultura e várias obras na fronteira entre o desenho e a pintura.

Tiny Domingos, artista e director da Rosalux (Berlim), é autor das raras fotografias que vemos na feira, mas essas imagens são uma declinação do seu trabalho em que descontextualiza gráficos de dados através de impressões digitais com formatos ampliados. Red Bar + Winter Landscape, defende, é uma fotografia de um artista visual conceptual.” No mesmo espaço, João Felino mostra as suas newspaper paintings, numa mistura de desenho, pintura e também imagem fotográfica, desta vez impressa em jornal.

A feira tem cinco projectos especiais, dedicados a um só artista: Jorge Martins (Galeria Arte Periférica), Paulo Lisboa (Graça Brandão), Adriana Molder (Donopoulos), Pedro Gomes (Presença) e Federico Lamas (RV). Sobre as suas obras feitas com tinta da china sobre papel vegetal, Adriana Molder situa-as “entre o desenho e a pintura”: “O desenho está ligado a todas as disciplinas artísticas, à linguagem, à escrita, ao pensamento.” A sua expectativa para a nova feira é que a sua dimensão pequena, que a faz funcionar como uma exposição, seja suficientemente "forte" para que a Drawing Room resulte sem estar ligada a uma feira maior. “Não há desculpa para as pessoas não virem, porque está no centro da cidade, ao lado da Avenida da Liberdade.”

O artista Pedro Gomes utiliza acrílico e grafite sobre papel, técnicas com que cobre folhas inteiras, para depois escavar a espessura do papel, num diálogo com as obras históricas de Vieira da Silva sobre o espaço urbano. “Sobrepus cinco imagens, cruzando o mundo natural e o mundo construído. O desenho [escavado] leva-nos a descobrir as imagens que aqui estão, mas o que sobressai tem a ver com o desejo do espectador. Há um virtuosismo, mas isso é o menos importante, porque o que me interessa é a qualidade do desenho.”

Na Módulo, Nuno Henrique apresenta as suas paisagens madeirenses dentro de caixas, construídas com papel picotado empilhado. “As peças estão entre o desenho e a escultura, mas há um grande processo envolvido na sua execução e elas são todas desenhadas antes. Estão dentro de caixas, que podem ser guardadas, porque a obra de arte não é uma coisa que tem sempre de estar exposta.”

Sobre a razão por que têm surgido nos últimos anos várias feiras dedicadas ao desenho ou secções especiais dedicadas a este meio, João Mourão, um dos directores do Kunsthalle Lissabon, um espaço independente de arte contemporânea, diz que assistimos a “um retorno ao desenho” e é nesse âmbito que podemos também ver a Drawing Room. Ele, que é co-curador da secção de desenho da feira italiana Artissima, de Turim, diz que o desenho é também um meio mais próximo das pessoas: “O mercado com a crise teve algum retrocesso e houve também uma tendência para olhar para preços mais baratos. Em muitas feiras, o desenho também é visto como uma possibilidade de angariar novos coleccionadores.”

Como curador, tem encarado o desenho como um dos meios que os artistas usam para se expressarem, explica João Mourão, que nesta quarta-feira esperava ver a Drawing Room na inauguração marcada para a tarde. “O desenho ganhou essa autonomia e não é só a preparação para qualquer coisa. Não pensamos nele só como tinta sobre papel, mas como um meio muito mais expandido. Pode ser um bordado num tecido, instruções para fazer algo, no caso dos artistas que o usam de um modo mais conceptual.”

Nesta primeira edição da feira, diz a directora espanhola, pararam antes de chegar ao desenho performativo. Talvez para o ano, promete.

Entretanto, há uma Vieira da Silva a descobrir por 55 mil euros na galeria Jeanne Bucher Jaeger, uma tempera sobre papel datada de 1972. O horário da feira, que termina domingo, é das 14h às 21h (no dom. das 12h às 18h).