Há novas galerias em Lisboa, mas nem todas estão na JustLX

Novas galerias continuam a abrir em Lisboa. Depois de as vermos na ARCOlisboa, é agora vez de as encontrarmos na JustLX, a nova feira da capital, que abriu quinta-feira no Museu da Carris.

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O stand da Galeria Ibirapi, em primeiro plano, e a Galeria 111, ao fundo Rui Gaudêncio

Têm donos brasileiros ou um nome brasileiro as duas mais recentes galerias que abriram em Lisboa. A Primner e a Ibirapi, com apenas uma semana a primeira ou quatro meses a segunda, podem ser descobertas na JustLX, a feira que esta quinta-feira abre pela primeira vez em Lisboa. Confirmam a dinâmica da cidade em relação à arte contemporânea iniciada com a ARCOlisboa, a feira que na quarta-feira viu inaugurada a sua terceira edição.

Assim, as duas feiras, ambas organizadas por empresas espanholas e que trazem para Portugal modelos já testados em Madrid, juntam até domingo mais de 114 galerias, em dois eventos separados por uma centena de metros na zona de Alcântara. A primeira feira tem lugar na Cordoaria Nacional, a segunda no Museu da Carris e assume-se como uma feira-satélite da ARCOlisboa.

Empurrados pela crise do Brasil, o casal Andrea e Rodolfo, donos da Primner, chegaram a Lisboa há quatro meses, como os representantes para a Europa do legado do artista Amílcar de Castro (1920-2000), com a ideia de promover o intercâmbio artístico entre os dois países e criar diálogos com a obra deste representante do neoconcretismo. Na feira JustLX, a obra deste nome histórico brasileiro partilha o espaço da galeria com a obra da artista portuguesa Susana Anágua. Com um passado de coleccionadores, “pequenos”, sublinha Rodolfo Guerra, abriram a Primner em Alfama, por detrás da Casa dos Bicos, e já têm a trabalhar com eles, além do filho Pedro, um curador e uma coordenadora da galeria. Recém-chegados de Belo Horizonte, os novos galeristas tiveram apenas tempo para abrir a Primner a 10 de Maio e aterrar na feira JustLX, onde estavam na quinta-feira já preparados para a inauguração marcada para a tarde, nesta feira que junta 42 galerias, 15 delas portuguesas.   

Se o nome Primner vem da junção de “Primavera” e “energia”, já Ibirapi, que abriu em Fevereiro na zona entre Marvila e o Beato, inspira-se na árvore do pau-brasil e na forma como se pronuncia a planta na língua tupi. Maxime Porto, de 28 anos, francês de ascendência portuguesa, que já passou pelo Museu de Arte do Rio e pelo Museu do Louvre, diz que o nome numa língua indígena reforça “que a galeria procura linhas artísticas ligadas à natureza e às questões da ecologia”. Escolheu Lisboa, porque já conhecia a cidade, e ressalva, precisamente, o dinamismo e a energia que se vivem em termos de arte na cidade. É a primeira vez que participa numa feira, aonde chega com os artistas portugueses Inês Norton e António Faria.

Ana Matos, da Galeria Salgadeiras, que organiza o Mapa das Artes, uma plataforma que tenta manter actualizada o registo das galerias na cidade de Lisboa, liga a dinâmica sentida em Lisboa ao aparecimento da ARCOlisboa, a que se segue esta nova feira onde está agora com a sua galeria. “Lisboa está a ser entendida como uma cidade criativa, artística, que é o que realmente nós queremos.” Se há galerias que fecham, como a Barbado, especializada em fotografia, há muito mais que abrem e o saldo é positivo. Lembra as galerias Balcony e Uma Lulik, que abriram as portas há cerca de seis meses.

Ambas, Balcony e Uma Lulik, foram seleccionadas este ano para integrar a secção Opening da ARCOlisboa, exactamente dedicada às jovens galerias ou à chamada arte emergente. Mas, ao contrário do que acontece em Madrid, a JustLX não se apresenta em Lisboa apenas como uma feira focada na arte emergente, diz Semíramis González, uma das curadoras responsáveis. “Claro que há as galerias novas, como a Ibirapi, mas viemos porque as galerias portuguesas que vão à nossa feira de Madrid nos pediram para vir para Lisboa, como a Acervo e a Trema. A ARCO tem um estilo e uma selecção determinada, mas o contexto aqui é suficientemente grande para termos duas feiras.”

Com 26 anos de actividade, Pedro Loureiro, da Galeria Trema, já fez seis edições da JustMAD, a versão madrilena da JustLX. “Todos temos que ter uma oportunidade de nos mostrar. Havia um vazio que era importante preencher. A ARCOlisboa tornou-se muito selectiva. Criou um fosso entre as galerias que estão presentes e as outras.”

Há pouco mais de um ano, entre o calendário da ARCOmadrid e da ARCOlisboa, num balanço semelhante que fizemos sobre a dinâmica do mercado da arte, já registávamos a abertura de novas galerias, como a Madragoa, a Hawaii-Lisbon ou a Francisco Fino, que vão estar todas presentes na ARCOlisboa. Ao mesmo tempo, várias galerias estrangeiras abriam sucursais em Lisboa, como a Maisterravalbuena, a Monitor ou a Jeanne Bucher, sendo que as duas primeiras também estão na ARCO.

Fora do radar das feiras, também é possível registar a abertura de galerias, como a Ainori, inaugurada há um mês, na zona de Alcântara. Ainori, que quer dizer “ironia” ao contrário, é um projecto que junta cinco amigos, entre os quais Nuno Sacramento e Carlos Magalhães, responsáveis pela curadoria, para trabalhar justamente o lado mais cómico ou inusitado da realidade. “Apesar de não estarem presentes nas feiras deste ano, essa é intenção a curto prazo. O foco é trabalhar com artistas emergentes que já tenham dado provas em feiras de cariz internacional e nacional, com um currículo sólido, de forma a dar garantias a quem investe, a quem adquire.”

Já perto da Avenida da Liberdade, na Rua da Alegria, podemos encontrar a Foco, onde há um ano o arquitecto francês Benjamin Gonthie abriu um espaço com uma programação que já tem definida até Janeiro de 2019. A Foco também não estará nas feiras de Lisboa, mas Benjamin Gonthie não exclui a hipótese de isso acontecer futuramente.

Nesta sexta-feira, o artista Pedro Barateiro vai inaugurar a Spirit Shop, na Rua da Madalena, uma extensão do seu atelier onde vai programar exposições, começando com Gabriel Barbi. Este artista da Galeria Filomena Soares, uma das mais poderosas galerias portuguesas que encontramos logo à entrada da ARCOlisboa, vai abrir este espaço não comercial com um evento especial: “Vamos inaugurar o espaço com um evento, um ritual, ao queimar um monte de sálvia, de forma a limpar. Para pensar e reflectir qual é o papel da arte.” 

Texto editado por Isabel Salema