Internados em casa: “A gente deixa de ser um número numa cama de um hospital”

Vinte e cinco hospitais públicos vão ter unidades que permitirão aos doentes recuperar de uma doença aguda em casa. Estratégia foi apresentada nesta quarta-feira, em Lisboa.

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fernando veludo/nfactos

Estar internado em casa enquanto recupera de uma doença aguda, como uma pneumonia, pode parecer estranho, mas a hospitalização domiciliária, cuja estratégia foi nesta quarta-feira lançada em Lisboa, vai tornar-se uma prática cada vez mais comum em Portugal, acredita a secretária de Estado da Saúde, Rosa Valente Matos. Todos terão a ganhar porque “há mais-valias para os doentes, para as famílias e para os hospitais”, enfatiza. 

Até ao final do primeiro semestre de 2019, se tudo correr como o previsto, pelo menos 25 hospitais vão ter equipas com médicos e enfermeiros que irão prestar assistência em casa aos doentes, evitando assim internamentos desnecessários, eventuais complicações e até infecções hospitalares. Mas este modelo, que vai abranger um número restrito de pacientes, apenas será possível com a concordância dos doentes e das famílias.

Apesar de reconhecerem as vantagens desta alternativa ao internamento convencional, os bastonários das ordens dos médicos e dos enfermeiros avisaram, desde logo, que a actual falta de profissionais de saúde poderá comprometer a aplicação da nova estratégia. 

Sem novas contratações, não será possível concretizar esta ideia, antecipou a bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, enquanto o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, considerou, à Antena Um, que a experiência não terá sucesso se não houver um reforço dos recursos humanos.

Retorquindo que “desde 2015 já entraram mais de nove mil profissionais de saúde no Serviço Nacional de Saúde [não especificou quantos saíram, entretanto]”, a secretária de Estado explicou ao PÚBLICO que, com esta “deslocalização da prestação de cuidados para o domicílio”, o que se pretende é “repensar as formas tradicionais" dos cuidados de saúde. “A equipa que cuida no hospital pode cuidar em casa do doente”, disse, mas admitiu que, se forem necessários mais recursos, estes serão “reforçados”. 

24 horas por dia e todos os dias do ano

Como é que esta estratégia vai funcionar na prática? As unidades de hospitalização domiciliária funcionam 24 horas por dia e todos os dias do ano, “com apoio médico e de enfermagem em permanência” e prevenção à noite, lê-se no despacho que foi publicado esta quarta-feira. O doente hospitalizado no domicílio terá acesso aos medicamentos exactamente como se estivesse internado no hospital.

Odete, uma doente do Hospital Garcia de Orta (Almada) que esteve internada em casa em Setembro passado, recordou, na cerimónia de apresentação da nova estratégia, que teve um número de telemóvel disponível 24 horas por dia, para o caso de haver algum problema, e que o médico e o enfermeiro que a assistiram no domicílio lhe explicaram "exaustivamente" o que fazer e como fazer.

“A gente deixa de ser um número numa cama num hospital”, sintetizou Odete, que não se cansou de destacar os benefícios do internamento em casa e disse até não ter encontrado nesta solução qualquer desvantagem.

O Garcia de Orta foi o primeiro hospital a ter uma unidade de hospitalização domiciliária em Portugal mas outras unidades avançaram entretanto com experiências-piloto.

Na contratualização assinada este ano entre os hospitais e a Administração Central do Sistema de Saúde, estipulou-se que cada unidade receberia, neste âmbito, 75% do valor do índice case mix (cerca de 1700 euros por dia), em casos de patologias como a doença pulmonar obstrutiva crónica, a insuficiência cardíaca descompensada e infecções adquiridas no hospital ou na comunidade.

Pneumonias e insuficiências cardíacas

À saída da cerimónia desta quarta-feira, o ministro da Saúde deu como exemplos de patologias que podem enquadrar-se neste tipo de internamento as pneumonias ou as insuficiências cardíacas. Adalberto Campos Fernandes fez questão de frisar que, mais importante do que eventuais poupanças obtidas com este modelo, são a “segurança clínica, o conforto dos doentes, a redução de internamentos inapropriados e prolongados e a redução das infecções hospitalares”.

Os hospitais que assinaram protocolos comprometendo-se a avançar com este modelo terão de assegurar a nova forma de actividade assistencial até final de Março próximo e, até final deste ano, as administrações regionais de saúde devem apresentar um plano de alargamento de unidades de hospitalização domiciliária nos restantes hospitais, o qual deve ser executado até Junho de 2019.

A Direcção-Geral da Saúde ficou incumbida de criar entretanto uma norma de orientação clínica definindo a lista de doenças tipicamente elegíveis para a hospitalização domiciliária e os critérios de inclusão ou exclusão de doentes.

com Lusa