Entre Depardieu e Clouzot, passado, presente e futuro

Com Cyrano de Bergerac em abertura e Henri-Georges Clouzot como homenageado, a Festa do Cinema Francês propõe um olhar sobre o cinema francês para lá dos seus autores clássicos.

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Em 1990, a oitava versão cinematográfica de Cyrano de Bergerac foi adaptada, no verso alexandrino original, pelo argumentista Jean-Claude Carrière e dirigida com verve por Jean-Paul Rappeneau, mas pertence por inteiro a Depardieu, que encontrou a personagem da sua vida
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O inquietante Le Corbeau (1943), de Clouzot, radiografia do medo sob a ocupação alemã
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O Salário do Medo (1953), a insustentável viagem de um comboio de nitroglicerina obrigado a atravessar a selva amazónica

Em 1990, Gérard Depardieu, aos 42 anos de idade, saía de Cannes com o prémio de interpretação masculina e chegaria à nomeação para os Óscares pela sua encarnação de Cyrano de Bergerac, mítico poeta e fanfarrão gascão inspirado por uma personagem real do século XVII francês. A peça do escritor marselhês Edmond Rostand, escrita em 1897, tornou-se num título canónico, repetidamente levado a cena e adaptado ao cinema (a versão de 1950 com José Ferrer ficou célebre). Em 1990, a oitava versão cinematográfica de Cyrano de Bergerac foi adaptada, no verso alexandrino original, pelo lendário argumentista Jean-Claude Carrière (colaborador de Buñuel ou Forman) e dirigida com verve e elegância por Jean-Paul Rappeneau, mas pertence por inteiro a Depardieu, que parece ter encontrado a personagem da sua vida, que agarra o momento pelos cornos sofregamente e não o larga.

Cyrano de Bergerac, abertura oficial da 19.ª Festa do Cinema Francês na noite de quinta-feira 4 e de regresso às salas portuguesas a partir de sexta-feira 5, continua a ser um belo filme clássico. Mas é a prova viva de tudo o que mudou nos quase 30 anos que decorreram desde a sua estreia – de como o cinema francês parece ter perdido o prestígio com que era recebido (em Portugal e não só), identificado com o cinema de autor puro e duro ou as inofensivas comédias populares, chutado para nicho pelas enormes máquinas de marketing americanas. Em 1990 ainda foi possível tornar Cyrano de Bergerac um êxito ao mesmo nível dos blockbusters americanos; o que mudou desde então é demasiado complexo para resumir, mas os próprios responsáveis do cinema francês, entre realizadores, produtores e distribuidores, insistem na necessidade de lutar pela sobrevivência de uma produção que foi durante anos uma das principais exportações culturais do Hexágono.

É nessa lógica de divulgação que se inscreve a Festa do Cinema Francês, organização do Institut Français, que tenta fazer a ponte entre as várias vertentes da produção francesa, construindo um percurso possível de (re)descoberta. A secção principal, este ano inaugurada com Cyrano, concentra-se no “presente”, com a produção recente que em vários casos tem já estreia garantida entre nós – este ano A Aparição de Xavier Giannoli, Não Deixeis Cair em Tentação de Cédric Kahn, vencedor do prémio de Melhor Actor em Berlim 2018 para Antony Bajon, Ou Nadas ou Afundas de Gilles Lellouche ou Em Guerra de Stéphane Brizé. Abre-se a porta a títulos inéditos de autores regulares por cá (Christophe Honoré, com Plaire, aimer et courir vite ou Guillaume Nicloux, com Les Confins du monde). Mas lamenta-se a ausência de vários filmes importantes com estreia já prevista – Capharnaum de Nadine Labaki, Mektoub My Love Canto Uno de Abdellatif Kechiche, The Sisters Brothers de Jacques Audiard ou Jeannette de Bruno Dumont.

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O “futuro” mostra-se na selecção do colectivo de realizadores ACID, filmes de jovens autores escolhidos pela estrutura de difusão do cinema independente, este ano parte da festa pela terceira vez. E o “passado” está presente através do ciclo dedicado ao “padrinho” – este ano precisamente Jean-Paul Rappeneau, cineasta raro, com apenas oito longas assinadas, ponte entre o “jovem” cinema francês da geração da nouvelle vague e o “cinéma de papa” do pós-guerra contra o qual ela se insurgia; assistente de Louis Malle e argumentista com Claude Sautet ou Alain Cavalier mas também autor de filmes industriais com actores como Catherine Deneuve, Isabelle Adjani, Jean-Paul Belmondo ou Yves Montand. Para além de Cyrano, mostram-se Escândalo no Castelo, de 1965, com Deneuve e Pierre Brasseur, O Meu Irresistível Selvagem, de 1975, com Deneuve e Montand, ou Boa Viagem!, de 2003, com Depardieu e Adjani.

E há também a retrospectiva anual, no ano passado dedicada a Jean-Pierre Melville e este ano debruçada sobre Henri-Georges Clouzot (1907-1977). Cineasta perfeccionista, conhecido pela dureza das suas rodagens e pela exigência aos actores, assinou alguns dos filmes seminais do cinema francês pré-nouvelle vague: o inquietante Le Corbeau (1943), radiografia do medo sob a ocupação alemã; O Salário do Medo (1953), a insustentável viagem de um comboio de nitroglicerina obrigado a atravessar a selva amazónica; As Diabólicas (1954), o mistério de suspense sobre a mulher e a amante (Simone Signoret e Véra Clouzot, esposa do realizador) que conspiram para matar o marido que Hitchcock quis filmar (e como não pôde fez antes Vertigo). 

Ironicamente, Clouzot terá sido um dos cineastas cuja reputação crítica mais terá sofrido com a chegada da política dos autores: os seus filmes dos anos 1940 e 1950, reconhecidos como obras-primas pelos congéneres americanos, tornaram-no um cineasta desprezado pela nouvelle vague como parte do cinéma de papa contra o qual se erguiam. O reconhecimento chegaria tardiamente – Truffaut retractar-se-ia publicamente –, mas a obra nunca se recompôs, para o que contribuiu o “desastre” de L’Enfer, o filme com que queria provar estar à altura da experimentação da nouvelle vague e que Clouzot, acometido de um enfarte durante as filmagens, nunca terminou. Nada de novo para um homem que, durante a ocupação francesa, conseguiu a proeza de ser denunciado pelos alemães como subversivo e pelos franceses como colaboracionista, à conta do retrato pouco simpático que as denúncias anónimas de Le Corbeau faziam da “douce France”. A França de Clouzot, mostrada em oito filmes na Cinemateca, não tem, nunca teve, nada de “douce”.

A Festa do Cinema Francês decorre em Lisboa de 4 a 14 de Outubro antes de viajar para Almada, Coimbra, Aveiro, Porto, Viana do Castelo, Leiria, Beja, Faro, Seixal e Setúbal, onde termina a 11 de Novembro. Pormenores e programação em www.festadocinemafrances.com

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