Torne-se perito

Fernando Fernandes: o homem que cultivou a leitura

O mais influente livreiro do Porto morreu este domingo, aos 84 anos. Republicamos uma entrevista e um perfil de Fernando Fernandes publicados na edição de 19 de Setembro de 1998, quando o responsável da livraria Leitura anunciou a intenção de se reformar.

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Fernando Fernandes, o homem que criou a livraria Leitura, no Porto, e fez dela uma referência cultural na cidade e no país, vai agora reformar-se. Na hora da despedida, atenuada pela promessa de manter alguma colaboração informal, este livreiro faz o balanço de uma carreira de quase meio século. E o PÚBLICO evoca a história que fez da Leitura — e antes dela, da Divulgação — um templo obrigatório para os amantes dos livros.

No ano em que a livraria portuense Leitura comemora 30 anos — aos quais se somam mais dez a funcionar com o nome de Divulgação —, o seu fundador e gerente decidiu que era tempo de se reformar. Vendeu a quota de 50 por cento que detinha no capital da firma ao seu sócio, Carvalho Branco, dono da editora Brasília, que entregou já a duas filhas a gestão da livraria. Fosse outra a livraria e outro o livreiro, e estaríamos perante uma vulgar transacção comercial. Mas a Leitura, além de ser um negócio, e ao que se sabe rentável, é também uma verdadeira instituição da cidade, como o Teatro S. João, a Fundação de Serralves ou a Biblioteca Municipal. E a sua antepassada, a Divulgação, não contribuiu menos para agitar a vida cultural portuense dos anos 60 do que o célebre Teatro Experimental de António Pedro ou o Cineclube do Porto.

Num tempo em que vender livros ou óleos alimentares parece começar a ser a mesma coisa, e em que a figura do livreiro, no sentido mais nobre do termo, é uma espécie em acelerada via de extinção, a Leitura soube manter-se fiel aos seus princípios de sempre: não pratica descontos, mas também não actualiza preços; aceita, e dá o devido tempo de montra, a todas as obras editadas no país, mesmo que se trate de uma edição de autor de um jovem poeta de que nunca ninguém ouviu falar; fornece gratuitamente informação bibliográfica a inúmeras instituições e particulares; importa uma quantidade imensa de livros estrangeiros destinados a todos os públicos, e não apenas “best-sellers”; faz questão de ter todas as traduções de literatura portuguesa que vão saindo lá fora; e, o que não é menos importante, tem um serviço tão eficaz quanto discreto. Na Leitura pode-se passar uma tarde a folhear livros e sair sem comprar nenhum, que ninguém aparecerá a perguntar-nos, num tom friamente cortês, se precisamos de ajuda.

Diz o ditado que ninguém é insubstituível. Mas quem frequenta habitualmente a livraria e está a par das múltiplas funções que Fernandes assume pessoalmente — e uma delas é a selecção dos livros estrangeiros —, tem boas razões para se sentir apreensivo.

Nesta entrevista ao PÚBLICO, Fernando Fernandes explica os motivos que pesaram na sua decisão, entre os quais destaca a necessidade de adaptar a livraria à era do multimédia. Um “salto” que já não se sente em condições de dar.

O que é que o levou a decidir reformar-se?
A ideia não é de agora; surgiu em Fevereiro passado, quando senti alguns problemas de saúde. Achei que tinha chegado a altura de contrariar o velho Princípio de Peter, segundo o qual quanto mais idade se tem, maiores responsabilidades se assumem. Além de a idade avançar e de as capacidades, logicamente, irem diminuindo, aumentavam os problemas, as burocracias, a papelada. O que também resultava de uma gerência bastante centralizada.

Mas não podia sair sem vender a sua quota na Leitura?
O projecto inicial era abandonar só a gerência e dar oportunidade a que alguém mais jovem viesse trazer um novo tipo de gestão. Ainda acredito no livro, mas sei que ele terá, fatalmente, de se associar aos multimédia, à internet, a toda essa panóplia de novas tecnologias. E com a minha idade e formação, não estou preparado para dar o salto. No entanto, revelou-se complicado encontrar um gerente, e acabou por concluir-se que o mais simples era eu vender a minha parte. Tinha duas empresas editoras e livreiras interessadas e estava inclinado a fechar negócio com uma delas, mas o meu sócio, Carvalho Branco, com quem fui conversando e com quem mantive sempre as melhores relações, decidiu exercer o seu direito de preferência. Ficou, portanto, com a totalidade do capital. E nomeou já duas filhas para a gerência.

E não receia que a Leitura se ressinta da sua saída?
Não, as pessoas que a vão gerir são da família do proprietário e, por isso, estão mais interessadas do que quaisquer outras em fazer isto andar para a frente. Algumas coisas até poderão melhorar, com a descentralização de serviços que está a ser pensada. Haverá, por exemplo, uma pessoa responsável só pelo sector das encomendas, que é extremamente pesado. E deixo a livraria em excelente situação financeira e comercial. É exactamente porque o barco está a andar bem, que saio sem problemas de consciência.

Já que fala nisso, quanto é que a livraria factura por ano, aproximadamente?
Sem números exactos, digamos que as vendas anuais ultrapassam largamente os 300 mil contos [1,5 milhões de euros]. O aumento das instalações, há quatro anos, resultou numa subida significativa. E permitiu-nos expor mais livros. Eu já estava a deixar de encomendar alguns livros estrangeiros por falta de espaço.

A selecção de livros estrangeiros esteve sempre a seu cargo. Quem é que vai tratar disso agora?
Comprometi-me a colaborar até Janeiro próximo, e, libertando-me doutras funções, até terei agora mais tempo para essa tarefa. É uma coisa que dá trabalho. Exige muita informação. Há que consultar os catálogos e revistas da especialidade, e ler jornais, para se saber que autores é que vão surgindo nas várias literaturas. Cada vez vai sendo mais difícil. Andar à procura de duas obras que interessam numa lista de 50 é um trabalho beneditino. Nunca se consegue estar completamente por dentro de tudo, mas não tenho razões de queixa: o livro estrangeiro representa 55 por cento das vendas globais da Leitura. E eu tenho esse gosto pela busca do livro que não está estandardizado. Como leitor, que também sou, vejo as livrarias dos centros comerciais, e outras, e verifico que há uma uniformização crescente. Têm todas os mesmos livros, porque se limitam aos títulos comercializados pelas distribuidoras.

E a edição nacional? É verdade que a Leitura aceita qualquer livro, mesmo que pareça completamente invendável?
Sim, aceitamos todos os livros, incluindo edições de autor. Achamos que não nos compete exercer qualquer tipo de censura. Não quero arriscar-me a recusar um José Régio, que também publicou o seu primeiro livro a expensas próprias. E também fazemos questão de ter todas as traduções estrangeiras de literatura portuguesa.

Excluindo as reposições, pode dar uma ideia de quantos livros recebem por mês?
Cerca de mil, contando apenas novos títulos ou reedições que não se limitem a ser reimpressões. Aparecem todos listados no nosso boletim mensal. No que vai agora sair incluí mil, mas sobraram 250 fichas que terão de passar para o do próximo mês. Um dos grandes valores da Leitura é o nosso ficheiro bibliográfico, organizado por autores e títulos. Está lá tudo o que entrou na livraria nos últimos 25 anos. Antes dos computadores, chegámos a ter uma funcionária só para bater as fichas à máquina; não fazia mais nada.

Outra mais-valia da Leitura é ter empregados de balcão que percebem de livros. A sua decisão não arrastará a saída de alguns deles
Houve sempre essa preocupação, que a nova gerência decerto manterá, de admitir pessoas culturalmente válidas. Neste momento trabalham cá 29 pessoas. A minha saída, e também a anunciada abertura de uma FNAC no Porto, vai provocar algumas alterações. Há gente que irá embora. Mas o núcleo duro mantém-se.

Como livreiro, quais são para si os mais graves problemas que o sector hoje enfrenta?
Há, neste momento, um problema gravíssimo, que é o da distribuição. As grandes editoras de Lisboa deixaram de ter depósitos no Porto, e as portuenses trabalham com distribuidoras sediadas na capital, de modo que acontece esta coisa caricata: eu peço um livro a uma editora do Porto e ele tem de vir de Lisboa. Às vezes fazemos encomendas a que nem sequer nos respondem. Para já não falar dos custos de transportes. Ora, se isto é assim numa cidade como o Porto, imagine Bragança ou a Covilhã. A situação é dramática e alguém terá de a resolver. É necessário que o livro circule em todo o país.

E o que é que pensa da nova Lei do Preço Fixo, agora em vigor?
Vou fazer 47 anos de profissão e, desde sempre, defendi uma certa ética no tratamento e comercialização do livro. Satisfaz-me poder dizer que nunca abdiquei dela. A Leitura, e já antes a Divulgação, nunca fez saldos. Apoio por princípio a Lei do Preço Fixo, mas ela admite uma margem de desconto até dez por cento, o que mantém vivo o mito do saldo. A Leitura continua a não praticar descontos e já perdeu clientes por causa disso, porque há pessoas que não se importam que o livro custe três ou cinco contos, querem é saber se tem desconto. Mas também ganhou outros, que reconhecem que tem de haver seriedade no comércio livreiro.

Não fazem descontos, mas também não actualizam os preços...
Pois não. Se um livro entra hoje a custar mil escudos [cinco euros], é o que custará daqui a três anos, mesmo que o editor nos avise, entretanto, que o livro subiu de preço. E aplicamos a mesma regra à edição estrangeira. Fazemos logo o câmbio em escudos e esse preço é inalterável.

Uma última pergunta. Vai mesmo sair, ou continuará a olhar pelas coisas, mesmo sem o estatuto formal de gerente?
Como lhe disse, o compromisso que tenho é o de ficar até Janeiro próximo. O que não implica que não possa, depois, manter algum tipo de colaboração. Mas terei outras condições, estarei mais livre para poder ter alguma vida familiar. Passava aqui os fins-de-semana, e todos os dias levava trabalho para casa. Quando ia a um concerto ou ao teatro ainda tinha, antes de me deitar, de dar saída a uma data de papéis. Não imagina a avalanche de papéis que uma livraria como esta provoca. Já nem sequer tinha tempo para ler.

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