A fixação de John Harris por mapas deu a série Borders

John Harris é o autor da Vox Borders, uma série documental que foi nomeada para os Emmys e que tem na internet toda a sua força.

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Ter visto a série documental Borders, que assina na plataforma Vox, ser nomeada para os Emmys na categoria de documentário e vídeo jornalismo poderia ser considerado um ponto já muito alto da ainda curta carreira de John Harris, um norte-americano licenciado em relações internacionais, que gosta de mapas “desde que era pequenino” e que aprendeu através dos tutoriais da internet a fazer edição de vídeos e animações gráficas. Mas quando John Harris esteve um destes dias em Matosinhos, no âmbito da segunda mostra de Cinema de Viagens e Aventuras, organizada pela Câmara Municipal e pela agência Nomad, para mostrar um documentário sobre o Mustang, deixou bem claro que não é isso que o anima. Para ele, o que é mais importante é deixar uma mensagem no Facebook ou no Instagram aos seus seguidores e ter centenas de respostas com sugestões de aspectos, características e lugares que deve documentar em determinado país.

“Sim, tem piada que pessoas que funcionam como gatekeepers se interessem pelos temas que eu mostro. Mas fico ainda mais empolgado quando vejo que as pessoas que vivem nos sítios que vou visitar quererem ajudar-me a contar a história. Isso sim é emocionante”, explica. John Harris tem contado muitas histórias. E não tenciona parar tão cedo.

Actualmente está na Colômbia a produzir uma série de cinco documentários. Quando aterrou em Bogotá (depois de uma estadia de uma semana em Portugal onde acompanhou a mulher, Isabel Harris, uma vlogger de viagens e comida a fazer uma série sobre Portugal que vai ser divulgada na plataforma Eaters do You Tube) já levava os guiões bem desenhados, após muita pesquisa.

Antes da Colômbia esteve em Hong Kong – e o resultado foram cinco vídeos, de temas tão díspares como “a forma como Feng Shui desenhou o skyline de Hong Kong”, ou “como é viver em casas do tamanho de gaiolas”. Um país ou uma cidade de cada vez. E só no fim de um ciclo de episódios é que se sabe qual é o destino da seguinte. Esta é a segunda série da Vox Borders. A primeira – e que o levou à short list dos Emmys, levou-nos às fronteiras entre o Nepal e a China, o México e a Guatemala, Espanha e Marrocos, Japão e Coreia do Norte, Haiti e República Dominicana e ainda ao Ártico, para documentar os planos dos russos para criar um novo oceano.

“O objectivo é contar as histórias humanas que estão por detrás de cada linha de fronteira”, diz John Harris, que admite ter sido abalado pela intensidade com que essa linha administrativa pode impactar milhares de pessoas na fronteira dos Estados Unidos com o México. “Vivi em Tijuana (México) durante dois anos, na altura do liceu. Foi o primeiro momento em que percebi que havia dramas verdadeiros numa fronteira, e todo o conflito e energia que pode existir ao longo de uma linha”, diz John Harris.

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A decisão foi tirar um curso de Relações Internacionais e foi com o diploma na mão e um filho recém-nascido nos braços que chegou a Washington há cinco anos. Pretendia procurar emprego na área da diplomacia, e até fez uma especialização em resolução de conflitos. Mas acabou rapidamente por perceber que podia ser mais útil na animação de grafismos, usando toda a sabedoria que bebeu da internet, numa empresa que acabava de ser fundada, a Vox. 

“Se nós levarmos às pessoas conteúdo pessoal relevante, elas não se interessam só por gatinhos”, insiste. E dá como exemplo um dos primeiros vídeos que fez para a Vox. “Era uma animação onde tentava explicar o conflito na Síria, e ajudar as pessoas a visualizar através de mapas e grafismos o que é estava em causa naquele conflito”, recorda Harris. O vídeo foi visto centenas de milhares de vezes. “As pessoas querem saber”, insiste.

Mas o sonho de Harris não era ficar atras de uma secretária a fazer animação de vídeo. Quando sugeriu aos seus editores que gostaria de ir a Cuba fazer uma série de reportagens sabia que estava a esticar a corda num teste que tinha tudo para correr mal. “O orçamento era diminuto. Era só eu, a minha câmara e o meu computador. Eu sou uma espécie de one-man-band, toco todos os instrumentos: gosto de filmar, de editar e de fazer animação”, brinca.

A experiência de Cuba correu bem. Seguiu-se o Rio de Janeiro (e empenhou-se em mostrar a pobreza que as autoridades estavam a esconder a quem a visitasse durante os Jogos Olímpicos), e depois aventurou-se em Israel. “Foi depois disso que a Vox aceitou a minha proposta de fazer a primeira série de Borders. Agora já vamos na segunda. E não sei onde é que isto vai parar”. Sabe, pelo menos, enumerar alguns países onde gostaria muito de ir: Indonésia, Índia e Chipre. John Harris diz que agora é cada vez menos centralista, porque precisa cada vez mais de uma equipa que o ajude na produção e investigação. Mas no terreno continua a estar sozinho.

Prepara-se em casa, lê muito, faz perguntas, responde a centenas de emails, e vai para o terreno, mais ao menos uma semana. “É o tempo de folga que a minha mulher me dá”, diz, meio a brincar, meio a sério. Mas a verdade é que o facto de terem dois filhos, e de um deles, o mais velho, ser autista, acaba mesmo por condicionar o trabalho que faz. “Mas condiciona pela positiva”, refere. John Harris diz que o filho lhe faz muitas perguntas, e que quer saber tudo sobre tudo. “Por exemplo, dos fios de telefone, porque estão no ar, como funcionam, e pergunta e pergunta e pergunta. E eu tenho de explicar. O meu filho ensinou-me a explicar as coisas de forma eficiente”, admite.

Mas a família também o ajudou a perceber os dramas humanos. “Vi na fronteira do Texas a forma como separaram um pai e filho, que vinham das Honduras. Como pai, aquela situação afectou-me de uma maneira nova. Não é só jornalismo, é vida real”, termina.