Jardim Botânico de Lisboa

Dragões e imperadores numa “enciclopédia viva”

Nascido há 140 anos no coração da capital, o Jardim Botânico de Lisboa é uma “caixa de biodiversidade” com mais de 1500 espécies diferentes vindas de sítios longínquos para contar histórias do mundo.

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Não se pode afirmar com certeza, mas as duas oliveiras que se contorcem à nossa frente, de azeitonas verdes camufladas entre as folhas, bem podem remontar ao tempo em que “tudo isto era um pomar e um olival”. A Quinta da Cotovia descia o Monte do Olivete até ao final do actual Parque Mayer. E se recuarmos a contagem até esse tempo, então “há mais de 400 anos” que este é um espaço verde na cidade, há-de contabilizar David Felismino. O historiador trabalhou durante oito anos no Jardim Botânico de Lisboa. E é ele quem nos guia esta manhã, acompanhado por Raquel Barata, bióloga e responsável pelo serviço educativo dos jardins da Universidade de Lisboa.

O passeio começa junto às oliveiras como quem abre um livro na primeira página. “Não tendo descendentes, Fernão Telles de Menezes e a esposa resolvem doar esta propriedade à Companhia de Jesus para a construção de um noviciado.” Dois séculos depois, viria a instalar-se aqui o Colégio dos Nobres. E é “muito provável” que o lago central seja vestígio desse tempo, conta David Felismino. Assim como o traçado geral da parte superior do actual jardim, a Classe, “um espaço de alinhamento das plantas de acordo com o sistema taxonómico da época”.

Fechada ao público para obras de restauro, ficamo-nos pela parte de baixo, o Arboreto, composto pela flora de grande porte. Esta área terá sido concluída em 1878, data a partir da qual se assinala o aniversário do Jardim Botânico de Lisboa. Depois de meio século a servir-se do congénere na Ajuda para os estudos práticos sobre agricultura e botânica, a Escola Politécnica, fundada em 1837, tinha finalmente a sua própria “enciclopédia viva”.

Nascia há 140 anos, no coração de Lisboa, um espaço com uma “tripla vertente”: científica, pedagógica e ambiental. Para Raquel Barata, esta mantém-se a principal função do jardim nos dias de hoje: dar a quem o visita “uma noção” da multiplicidade de plantas que existe no planeta. É uma “caixa de biodiversidade”, define, de sorriso largo. E nela podemos observar “quase 1500 espécies diferentes”, oriundas dos “quatro cantos do mundo”. Como as duas colecções que espreitamos em seguida, “raras em jardins botânicos” pela diversidade de espécies cultivadas pertencentes à mesma família: naquele canteiro, várias cicadófitas, “fósseis vivos” do “tempo dos dinossauros”; e ao longo desta alameda, “uma das maiores colecções de palmeiras ao ar livre”.

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“E já que estamos aqui”, intervém David Felismino, “uma história gira” sobre esta rua, que une os dois portões do jardim. “Este espaço sempre foi muito apetecível para a cidade, porque faz a ligação entre a parte baixa, na actual Avenida da Liberdade, e aqui a sétima colina, no Príncipe Real. E, por causa desta avenida, houve os projectos mais recambolescos”, conta o historiador, actualmente a trabalhar no Museu da Saúde. Um deles seria “construir um grande teleférico”, que “passaria por cima das nossas cabeças e iria dar ao actual Parque Mayer”, para onde se idealizava o prolongamento do jardim botânico num espaço verde aberto ao público.

Mais à frente, junto a uma ponte de madeira, Raquel e David apontam para uma árvore -do-imperador. De tronco esguio, copa lá no alto, não daríamos por ela. “Está a ser abalroada por uma figueira”, ri-se Raquel. “Julga-se que terá sido oferecida pelo Imperador do Brasil ao conde de Ficalho, o primeiro director deste jardim”, por partilharem o mesmo título. Mas não é só pela história do imperador que paramos aqui. Contava há pouco David Felismino que o interesse pelo estudo da botânica, naquela altura, era indissociável da vontade de tirar o máximo partido económico de cada planta (das medicinas aos têxteis, por exemplo). E a madeira, “extremamente dura mas leve”, da árvore-do-imperador, oriunda da Mata Atlântica Brasileira, tornou-se demasiado apetitosa para a construção naval. “Está em vias de extinção no mundo e este é um dos seis jardins botânicos que tem um exemplar vivo desta espécie”, conta Raquel Barata.

Esta é outra das principais funções de um sítio como este: não só preservar a planta viva como tentar que ela frutifique. “Se conseguirmos que isso aconteça, podemos conservar as sementes e ter a possibilidade de voltar a tentar a replantação.” De que se tenha registo, esta árvore-do-imperador só frutificou uma vez. Teve “sementes férteis”, que “foram guardadas no banco de sementes do jardim”, diz Raquel, sem esconder o orgulho.

Por estes dias, no entanto, é a bunia-bunia que está a lançar as suas pinhas ao chão, para que expludam e espalhem as sementes pelos terrenos circundantes. O chão mostra-nos que uma já cedeu à gravidade e o caminho está vedado. Raquel não quer que nos aproximemos muito: cada “bola de basebol gigante” pode chegar aos dez quilos. Mas antes de seguirmos caminho, a bióloga aponta para os ramos caídos no chão. “Quando há menos luz, esta araucária da Austrália não se esforça para produzir folhas muito grandes.” Por isso, é possível aferir as estações do ano que aquele ramo viveu pela ondulação das folhas bicudas: as maiores correspondem à Primavera e ao Verão, as outras ao período Outono-Inverno.

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Lá em baixo, já se vislumbra o lago maior, que este ano voltou a ter água, depois das obras de reabilitação que encerraram o botânico ao público durante 18 meses. A estrutura não fazia parte do desenho original – foi construída “como compensação devido às obras do túnel do Rossio”, cujas explosões danificaram substancialmente a parte de baixo do jardim, incluindo o antigo observatório astronómico, que acabou substituído pelo edifício que vemos agora. “Um jardim é uma coisa mutável e viva, não só a parte vegetal como até em termos arquitectónicos”, defende David. “Acompanha a História da cidade e da nação.”

Ao longo de 140 anos, são muitas as histórias que se cruzam com o Jardim Botânico de Lisboa. Algumas “muito pouco sabidas”, como o facto de um dos primeiros discursos que Mário Soares proferiu depois de regressar a Portugal ter sido feito aqui. Ou os buracos na estátua de Bernardino Gomes e nas palmeiras circundantes, que a lenda diz terem sido feitos por balas perdidas durante as revoltas militares de 1927. “Tudo indica que aconteceu alguma coisa, não podemos jurar o quê.” Outro mistério é a proveniência dos pedaços de “cantarias decorativas de um frontão qualquer” que surgem, inusitados, a desenhar parte das escadarias que percorrem o jardim.

Aos nossos pés, está agora o “jardim das cebolas”, um dos locais preferidos de David. Na verdade, um canteiro de monocotiledóneas, plantas que têm bolbo, tal como as cebolas. “Tem um riacho e é um espaço muito fresco e aprazível.” Também adora “o monte dos eucaliptos lá em baixo”. “Isto são nomes que nós, que vivemos aqui há muito tempo, já damos”, interrompe Raquel, em gargalhadas. “A geografia é maravilhosa. É assim um montezinho que cresce na parte de baixo do jardim, completamente ensombrado e isolado, com vista para a cidade e para o Parque Mayer. É maravilhoso para se estar a ler ou até para dormir”, argumenta David.

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Despedimo-nos junto ao dragoeiro, uma das predilectas de Raquel. A partir dele se pode falar de muita coisa importante num jardim botânico, defende. Como dar a conhecer uma planta nativa em território nacional (neste caso, da Madeira e dos Açores). Mostrar uma espécie actualmente considerada vulnerável no seu habitat natural. E dar largas à imaginação: “Segundo a lenda, no 11.º trabalho, Hércules terá lutado com um dragão de 100 cabeças. Por cada gota de sangue de dragão que caiu no solo nasceu um dragoeiro”, conta Raquel. “É por isso que tem dentro dele o pigmento vermelho que vemos na base das folhas. E temos a língua do dragão, a espada do Hércules, as garras do dragão”, aponta para diferentes partes da planta. Ri-se: “Tudo indica que possa ser verdade.”