Distritais apelam à "serenidade" no PSD contra “agendas pessoais”

Lisboa não assinou comunicado conjunto que foi apresentado sem a presença de outros presidentes de distritais.

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Adriano Miranda

No dia em que o ex-ministro Martins da Cruz bateu a porta com estrondo contra a actual direcção do PSD e em que voltou a notar-se falta de sintonia entre Rui Rio e o líder da bancada, Fernando Negrão, as distritais do partido quiseram dar nesta sexta-feira um sinal de união, ainda que por escrito. Juntaram as assinaturas (com excepção de Lisboa) num comunicado em que apelam à “serenidade” e se mostram contra “agendas pessoais” de militantes que “deturpam” o que diz o líder do PSD. O documento foi tornado público numa sessão a que faltaram alguns presidentes de distritais.

O texto final, apresentado em conferência de imprensa, foi o resultado de uma negociação intensa nos últimos dias entre o promotor da iniciativa — Salvador Malheiro, vice-presidente e líder da distrital de Ovar — e os líderes das distritais. Até o próprio comunicado foi alvo desse “enviesamento”.

“Já queriam transformar um documento destes numa moção de confiança e a mensagem que queremos dizer é ‘basta’, vamos trabalhar todos para este objectivo [ganhar as legislativas]”, afirmou José Manuel Fernandes, líder da distrital de Braga, que interveio na conferência de imprensa em conjunto com o líder da distrital do Porto, Alberto Machado. A posição conjunta é justificada com a necessidade de dar um “basta” nas tentativas de “deturparem a mensagem do líder”, por parte de militantes.

Segundo o comunicado, as distritais lamentam o “ambiente de permanente instabilidade” e mostram-se contra as “agendas pessoais”. “Não podemos permitir que as agendas pessoais possam ultrapassar a vida do colectivo”, afirmou José Manuel Fernandes, lembrando que o calendário eleitoral que está aberto não é o interno. Nenhum dos dirigentes quis especificar de quem partem essas “agendas pessoais”. Mas na actual cúpula do PSD considera-se que a agitação interna parte, sobretudo, do grupo parlamentar, tendo em conta a proximidade do momento de elaborar listas de deputados. Na bancada, há receio de que Rio vá fazer uma “purga” e que deixe de fora muitos dos actuais deputados. Até porque boa parte foi apoiante de Santana Lopes nas eleições directas de Janeiro passado.
As distritais pedem que os militantes contribuam para o fortalecimento da imagem do partido, mas há líderes de estruturas locais que foram pressionados por companheiros de partido por terem assinado o documento.

Questionado sobre se não é o próprio líder do PSD a gerar polémica, ao contrariar publicamente o líder parlamentar — como aconteceu nesta sexta-feira, a propósito do mandato da procuradora-geral da República —, Alberto Machado negou que tivesse havido uma contradição: “Acho que não contrariou. É a interpretação do que se diz ou o título do jornal”.

José Manuel Fernandes, perante uma pergunta sobre a maneira “pouco habitual” de fazer política de Rui Rio, defendeu que os portugueses “apreciam um líder genuíno, que diz o que pensa”, mas cuja mensagem “por vezes é deturpada por uma cortina de fumo criada por alguns militantes”. “Para habilidoso, basta-nos o António Costa, que está a governar e é primeiro-ministro sem sequer ter ganho as eleições, que consegue disfarçar o défice, que consegue esconder os cortes através de cativações”, afirmou.

Num auditório da Casa do Brasil, em Santarém, em que estava também na mesa o líder local da distrital, João Moura, José Manuel Fernandes disse apenas que há “militantes que deturpam” a mensagem [de Rio] no terreno” e que “o objectivo do comunicado é deixarem o líder e as distritais trabalhar”.

O líder da distrital de Braga admite que “não há nenhum líder que não cometa erros”, mas afirma que há quem os aponte “de forma propositada”.

A esta posição de união faltou Pedro Pinto, líder da distrital de Lisboa, mas José Manuel Fernandes diz “não querer tirar ilações” sobre essa opção. Nas últimas semanas, a distrital de Lisboa foi visada pela direcção nacional sobre as contas de campanhas autárquicas, o que azedou as relações entre ambas as partes.

Além de Pedro Pinto, também não estavam na sala outros líderes distritais como os de Setúbal, Viseu, Beja, Faro e Lisboa Área Oeste.

No comunicado, com cinco pontos, as distritais justificam a existência do documento com “algumas notícias, atitudes e expectativas que têm vindo a público nas últimas semanas”. Mas também assumem que Rui Rio deve “continuar a pautar a sua actuação por mensagens claras e corajosas” e disponibilizam-se para construir uma “proposta de Governo (…) na construção de uma alternativa de que Portugal e os portugueses precisam”.