Ecstasy também torna o polvo mais sociável

Um estudo vem mostrar que há uma herança comum, entre o ser humano e o polvo, no neurotransmissor da serotonina, hormona da felicidade, apesar dos milhões de anos de evolução que os separam.

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Janayara Machado/ Unsplash

A influência do MDMA, comummente conhecido como ecstasy ou MD, produz, no ser humano, efeitos estimulantes e provoca uma sensação de empatia e bem-estar. Um estudo realizado com uma espécie muito pouco social de polvos – bimaculóides ou polvos-da-califórnia – veio mostrar que, quando exposto àquela droga, também o animal se torna mais social.

Perceber a proximidade entre o gene de transporte (neurotransmissor) de serotonina, também conhecida como “hormona da felicidade”, do ser humano e dos polvos foi o objectivo de um estudo da Universidade de Johns Hopkins. A investigação foi publicada a 20 de Setembro, na revista científica Current Biology, e dá conta de que os efeitos da substância tornaram os animais mais interessados uns nos outros e até mais predispostos para acrobacias aquáticas.

Gul Dolen é a investigadora encarregada do trabalho e assinalou, ao PÚBLICO, que a dose administrada nos animais foi similar, embora ligeiramente inferior, à dos humanos. “Não testámos quanto tempo durou o efeito, mas posso dizer que durou pelo menos uma hora após a entrega da droga.”

A neurocientista portuguesa, Susana Lima, estuda comportamentos sociais e também é familiar ao projecto. "Apesar da linhagem dos polvos e humanos se ter distanciado há mais de 500 milhões de anos, de os seus sistemas nervosos serem completamente diferentes e o comportamento social ser oposto, o mesmo gene existe no polvo e parece ter o mesmo motivo na sua estrutura à qual o MDMA se liga em humanos", apontou.

Conhecidos por serem uma espécie muito solitária, que só na altura de acasalamento se torna social, com a influência da droga, “os animais mostraram-se com uma atitude exploratória, não agressiva”, segundo o comunicado de imprensa do grupo Cell Press. A semelhança encontrada entre a espécie e o ser humano prende-se com a herança comum da proteína que transporta a serotonina nos neurónios. 

“Os antigos sistemas de neurotransmissores são compartilhados entre espécies vertebradas e invertebradas”, pode ler-se no estudo.

No total, foram testados sete animais. O primeiro teste foi feito sem a influência do MDMA e a investigadora Gul Dolen verificou que aquela espécie é, afinal, mais sociável do que se pensava. Quando exposto à droga, o polvo mostrou-se mais social e exploratório em relação aos demais. Outro efeito relacionou-se com a predisposição para a brincadeira dos animais, que se mostraram mais propensos para acrobacias aquáticas quando estão sob o efeito da droga. 

"No meu entender este estudo é importante porque ao avaliar o efeito de um composto (MDMA) no comportamento de uma espécie tão distinta da humana, como o polvo, descobriram que tanto os efeitos do tratamento, assim como o possível mecanismo de actuação, são semelhantes. Mais uma vez, remove-nos [humanos] do pedestal em que ainda nos encontramos; além disso, a descoberta que o MDMA tem o mesmo efeito comportamental nos polvos, pelos vistos por um mecanismo semelhante, dá novas pistas para percebermos a evolução do comportamento social", notou a neurocientista portuguesa. E acrescentou ainda que "este estudo é uma porta de entrada para responder a várias perguntas. Por exemplo, os autores mostram que em insectos sociais (como as abelhas ou as formigas) o mesmo gene que leva ao transporte de serotonina nos polvos e em humanos (e ao qual o MDMA se pode ligar) não existe. O que sugere que o aparecimento de comportamento social e a sua modulação possa ter evoluído de modo diferente."

O próximo passo da investigadora Gul Dolen é o de sequenciar o genoma de duas espécies irmãs de polvo, uma delas é social – grande-polvo- listado-do-pacífico – e a outra mais insociável – o polvo-chierchiea. O objectivo é perceber “quais as mudanças moleculares que possibilitam a sociabilidade do polvo”.