Fraternidade, do Útero à velhice

Paulo Pimenta
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No diário, escrevia apenas números. Sequências, assim: 22. 4. 23. 2. As horas a que adormecia, depois as horas a que acordava. O diário de uma insónia. São registos de uma zona inconsciente, “entre o sonho e o acordado”, a mesma área em que se dança Fraternidade, a nova criação da companhia Útero. Miguel Moreira, o encenador e fundador da companhia, partiu do “diário real de uma pessoa idosa” para pensar a primeira parte de um díptico, que se estreia exclusivamente esta sexta-feira, 14 de Setembro, às 21h, no Teatro Aveirense (sete euros).

Mas o diário foi só um ponto de partida. Não há — “de todo” — uma narrativa. “[Com o Útero] Nunca há.” Há uma linguagem; um teatro/dança; uma obrigação artística em fazer da “arte mais do que aquilo que as regras impõem” (a peça tem duas horas, “para quê todas terem 1h30?”). Há muitas vezes a água (nesta também) a jorrar pelos artistas e pelo palco, a sexualidade, a liberdade, o frio (os baldes contêm mesmo água gelada) e corpos nus.

Depois de Aveiro, Fraternidade — “talvez o elo mais forte que liga todos os seres humanos” — parte para o Festival GUIdance, em Fevereiro de 2019, no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães. A ligação para a segunda parte da criação nasce da única mulher em palco, e personagem principal, Maria Fonseca. Somos “capazes de olharmos para um ser humano diferente de nós e aceitá-lo profundamente, sem tentar mudá-lo”? É como levar com um balde de água fria. “Espantemo-nos.” Renata Monteiro

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