Crítica

Uma questão de honra

A Filha do Poceiro é um filme sobre a honra, a honra de “género” e a honra de “classe”.

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A Filha do Poceiro foi feito com a guerra como pano de fundo
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Depois de A Mulher do Padeiro, chega ao ciclo de cinema clássico francês outro filme de Marcel Pagnol, A Filha do Poceiro, realizado dois anos mais tarde, em 1940. O ano, claro, da invasão alemã de França, da rápida derrota militar francesa e subsequente Ocupação. O filme, conta a “pequena história” da sua rodagem, foi feito com a guerra como pano de fundo, havendo relatos de como vários planos tiveram que ser repetidos porque o equipamento de gravação sonora registava as explosões e os disparos de uma frente de combate que distava poucas dezenas de quilómetros do local das filmagens. Mas, mais do que apenas “pequena história”, a guerra é trazida para dentro do filme — as personagens masculinas partem para o serviço militar, e o momento da rendição francesa é assinalado pela transmissão radiofónica do discurso de armistício do Marechal Pétain (que, em remontagens posteriores a 1944 e à Libertação, Pagnol substituiu pelo discurso, de sinal contrário, proferido na mesma altura por De Gaulle, apelando, de Londres, à resistência — mas a cópia que vai ser mostrada no Nimas corresponde à versão original, é Pétain que ouvimos).

Mas discutir o lugar do filme, e a sua peculiar mistura de fatalismo e combatividade, no contexto da derrota francesa e da Ocupação, daria panos para mangas que não são para aqui. O que importa desde logo é dizer que é uma obra-prima, e que os espectadores que se deixaram cativar por Pagnol com A Mulher do Padeiro não sairão, por certo, decepcionados. Se a propósito desse filme referimos que, no seu retrato de comunidade, ele nos parecia estranhamente “fordiano”, A Filha do Poceiro desperta-nos uma comparação igualmente “exógena”: pensamos em Mizoguchi e no formalismo social japonês tal como ele o descreveu, especialmente no que toca aos estatutos de homens e mulheres e à forma como eles são interiorizados e vividos com um sentido de honorabilidade particularmente acentuado — em última análise, A Filha do Poceiro é um filme sobre a honra, a honra de “género” e a honra de “classe”.

Toda a sequência final é como uma negociação diplomática de “reparações” entre as duas famílias protagonistas, a “família do poceiro” (os pobres) e a “família do bazar” (os abastados), mas todos estes temas estão lá, desde o princípio, a enformar as motivações e as acções das personagens. Se todos vivem obcecados com a “coisa certa” a fazer, o momento crucial, a “falha” que alimenta a narrativa, é a relação sexual entre a filha do poceiro (Josette Day, que viria a ser, anos mais tarde, a “Bela” de Cocteau) e o “filho do bazar”, que dá em gravidez pré-nupcial (descrita duma maneira que é ao mesmo tempo muito explícita e muito elíptica, numa franqueza apesar de tudo surpreendente) e se torna na “mancha” que cobre todas as personagens e as duas famílias. A elipse, já agora, é a figura estilística fundamental do filme: praticamente não há “acções” para além do discurso oral (tomado como “acção” em si mesmo), e o que acontece é quase sempre dado por relato posterior (assim, o momento da “queda na tentação” entre os dois jovens, dado num magnífico grande plano de Josette Day a reflectir sobre o que acabou de acontecer entre eles, com uma graça assombrada que, diríamos, só é comparável ao que Renoir conseguiu num filme como Partie de Campagne). E a oralidade, o “teatro”, marca o ritmo, é a sua “matéria”, e tudo adquire uma espécie de musicalidade que toca toda a espécie de sentimentos: ao longo das duas horas e meia de projecção de A Filha do Poceiro o espectador ri, comove-se, revolta-se, pacifica-se, e chega ao fim quase sem perceber como se passaram 150 minutos num ápice quando praticamente tudo o que lhe passou pela frente foram personagens a falar umas com as outras. Uma maravilha de filme.