Crítica

O pauzinho na engrenagem

Depois de O Sobrevivente, Horizonte Profundo e Patriots Day, Peter Berg e Mark Wahlberg continuam um dos mais interessantes percursos do cinema mainstream americano.

Fotogaleria
Mille 22 mostram os heróis anónimos das guerras sujas do complexo militar-industrial
Mille 22 mostram os heróis anónimos das guerras sujas do complexo militar-industrial
Fotogaleria
Mille 22 mostram os heróis anónimos das guerras sujas do complexo militar-industrial
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria

Chegados à sua quarta colaboração, é de apontar a curiosa dupla em que se têm tornado Mark Wahlberg e Peter Berg: um actor e um cineasta que dão corpo a uma ideia do americano médio na linha da frente das crises, que “dá o corpo ao manifesto” todos os dias, heróis anónimos e quotidianos das guerras sujas do complexo militar-industrial. Foi assim com os Seals da Marinha no Afeganistão em O Sobrevivente (2013), com os operários petrolíferos na Luisiana de Horizonte Profundo – Desastre no Golfo (2016), com a polícia e os bombeiros de Boston em Patriots Day – Unidos por Boston (2016). Volta a sê-lo agora com Mile 22, que ao contrário dos anteriores não se baseia em factos verídicos, e que acompanha um comando secreto da espionagem americana encarregue de extrair de um país asiático ficcional um polícia procurado como traidor por um governo corrupto.

Por si só, não há nada de especialmente novo e original em Mile 22, nem sequer a lógica de traições e agentes duplos clássica no cinema de espionagem, mas isso também era verdade nos filmes anteriores. O que interessa a Berg é o desenrolar metódico da mecânica operacional e do profissionalismo abstracto, como nos filmes de Michael Mann, e o que acontece quando essa mecânica bem oleada é perturbada pelo proverbial pauzinho na engrenagem. Em Mile 22, há mais-valias a acrescentar: o terceiro acto da história desenrola-se quase em tempo real, as personagens vêem o seu quotidiano profissional afectado pela vida pessoal (Wahlberg tem uma mente hiperactiva, quase bipolar, a colega interpretada por Lauren Cohan está a atravessar um processo complicado de custódia da filha). Tudo é contado de modo nervoso, despachado, eficaz, em apenas 90 minutos de projecção, com um profissionalismo determinado, confortável, que faz pensar nas melhores colaborações dos anos 1970 entre Clint Eastwood e Don Siegel — e é curioso que Mile 22 nos tenha recordado Barreira de Fogo, uma das primeiras realizações de Eastwood, onde existia também uma missão quase impossível de proteger uma testemunha. Não se descobre nada de novo em Mile 22, mas confirma-se um dos mais curiosos percursos criativos do mainstream americano contemporâneo.