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Megafone

Achas que conheces mesmo a tua cidade?

Quando vivemos numa cidade que não a nossa, temos momentos em que navegamos por entre a nostalgia dos dias, caminhando num labirinto de memórias que encerra, nos seus cantos e recantos, pessoas, cheiros, lugares e, por fim, a comida.

Ser turista na nossa própria cidade é, provavelmente, algo que raramente nos passa pela cabeça. O ser humano tem o dom de não explorar aquilo que dá por adquirido, ou o dom de deixar de o fazer com o passar dos anos.

E isto aplica-se, naturalmente, a tudo nas nossas vidas, começando por vezes com aquele corpo que adormece todos os dias ao nosso lado e que, numa esfera temporal, mais ou menos longínqua, foi a ilha deserta que quisemos saber conhecer de olhos fechados.

Quando vivemos numa cidade que não a nossa, temos momentos em que navegamos por entre a nostalgia dos dias, caminhando num labirinto de memórias que encerra, nos seus cantos e recantos, pessoas, cheiros, lugares e, por fim, a comida.

Uma nova vida noutra cidade transporta consigo um friozinho na barriga independente de qualquer faixa etária, natural para quem não sabe onde termina a rua que atravessa, para quem não conhece as pessoas, os cheiros e os lugares e para quem vive a dicotomia do desconhecido que transpira o medo lado a lado com a curiosidade da nova descoberta.

O medo faz parte da descoberta e acredito que mesmo o mais viril dos homens sente este frio que descrevo, ainda que seja certo o quanto a experiência de vida nos molda os sentidos e nos reconfigura, acabando por aligeirar esta percepção.

Recordo-me de, há alguns anos, ter questionado a mãe da família que me fez descobrir o Canadá naquele longo Verão: como havia incorporado totalmente um novo idioma que, por sinal, ela nunca havia falado até aos 20 anos, quando emigrou? Disse-me na época que teve, pela primeira vez, um sentimento de pertença ao país (e ao idioma) onde viu nascer as duas filhas no dia em que começou a sonhar, integralmente, em língua Inglesa.

Achei isto curioso e apercebi-me de que a vida numa nova cidade começa a ganhar forma quando sou capaz de a ver de olhos fechados como vejo o meu Porto. Posso não saber o nome de todas as suas ruas, mas reconheço a pele e os caminhos como a palma da minha mão. E foi este reconhecimento que me mostrou a importância de sermos turistas na cidade em que vivemos.

A importância de sabermos reconhecer o que oferecemos para receber quem vem de fora — e também usufruir daquilo que é de todos nós. Usufruir não apenas das ruas e dos lugares que vigiam o nosso quotidiano, mas também dos céus, das calçadas, dos museus, dos mercados de rua, das lojas mais antigas do comércio local, da movida, da gastronomia típica que tende a esconder-se atrás da gastronomia dos sabores do mundo que nos invade as tradições.

Se te disser que a francesinha surgiu num restaurante portuense chamado A Regaleira — que, por sinal, encerrou este ano — e que o seu nome grava na pele o quanto eram picantes as mulheres francesas sob o olhar do emigrante que criou este prato, será que o saberias?

Será que consegues caminhar por entre as ruas e contar-me os edifícios e as lojas que desapareceram com o tempo, a história destas mesmas ruas que acompanharam o tempo da tua vida ou as histórias que os teus avós te contaram sobre esses mesmos locais? Consegues fechar os olhos e imaginar a beleza imaterial do topo superior das fachadas dos edifícios do centro histórico da tua cidade?

Nos dias de hoje utilizamos o GPS para tudo e mais alguma coisa quando, inclusivamente, crescemos a jogar a batalha naval, podendo aplicar esse conceito a qualquer mapa de papel de qualquer cidade. Esquecemos com frequência que todos nós temos um GPS mental da marca humana registada designada por "orientação". E é a pensar neste conceito de GPS humano que, sempre que me sinto perdida, quer seja numa cidade grande ou pequena, mergulho numa plataforma imaginária sobre o rio Douro, vislumbrando ao longe cada rua da minha cidade.

Este exercício mental forma na minha cabeça um puzzle que se completa a cada nova experiência na nova cidade desconhecida, recordando que um dia foi o meu Porto que compôs a sua partitura completa com os lugares da minha infância, da minha adolescência, da minha juventude e continua hoje como turista naquela que será eternamente a minha casa.