Opinião

As invasões australianas

Está a valer a pena ao País ter de sustentar a primeira vaga invasora? Se é para fazer face à necessidade de papel, também este se produz a partir de espécies autóctones.

Ao longo da sua História, Portugal sofreu várias invasões militares. Todas conseguimos superar. Hoje em dia, as invasões são de outra índole e provêm até de regiões remotas.

A grande maioria de nós já se cruzou com háqueas, acácias e, sobretudo, com eucaliptos. Todas elas são espécies vegetais provenientes da Austrália, trazidas no tempo por acção humana. As háqueas e as acácias proliferam no nosso território, em função do abandono. O eucalipto alastra em regime de epidemia e ocupa hoje 10% do território nacional. Com efeito, a nível mundial, Portugal dispõe da maior área relativa de plantações de eucalipto. Temos a quinta maior área absoluta, acima da registada na Austrália. Estas três espécies vegetais constituem a primeira vaga invasora australiana.

Alguns de nós, sobretudo os ligados às actividades em espaços rurais, já nos cruzámos com uma segunda vaga invasora. Esta é constituída maioritariamente por insectos, também oriundos da Austrália. Fazem parte das pragas e doenças associadas aos invasores da primeira vaga, com destaque para o eucalipto. Constam entre os seus membros as brocas do eucalipto (Phoracantha semipunctata e Phoracantha recurva), o gorgulho-do-eucalipto (Gonipterus platensis) e o precevejo-do-bronzeamento (Thaumastocoris peregrinus). O seu impacto sobre as plantações de eucalipto tem tido um efeito destrutivo exponencial, sobretudo a partir do ano 2000. Em 2017, a área ardida em plantações de eucalipto bateu o seu valor máximo nacional, acima dos 90 mil hectares. Só no último ano, estima-se que tenha ardido cerca de 10% da área sob gestão directa das empresas de celulose. Com o crescente envolvimento do eucalipto na área ardida, baixam as expectativas de rendimento associadas às suas plantações. Aumenta o abandono da sua gestão, logo o risco da proliferação das pragas e das doenças. Por sua vez, estas comprometem complementarmente o rendimento da cultura, estando instituído um ciclo de declínio. Se associadas a ciclos de seca prolongada, esta segunda vaga tende a ver garantido o seu êxito invasor no território nacional.

Agora, poucos de nós sabem que apareceu uma terceira vaga invasora, esta protagonizada pelas empresas de celulose. Com efeito, nos últimos anos, com a justificação de estarem associadas a processos de luta biológica contra os invasores da segunda vaga, têm sido disseminadas pelo território português outras espécies exóticas. Esta terceira vaga, como as anteriores, é proveniente da Austrália. Desconhecem-se os procedimentos e as benesses oficiais associadas a esta nova invasão, sob patrocínio das empresas de celulose. Entre as espécies de insectos australianos libertados em Portugal estão o Avetianella longoi, o Anaphes nitens, o Anaphes inexpectatus e o Cleruchoides noackae. Como nas anteriores, que efeitos poderá ter esta terceira vaga sobre os ecossistemas autóctones?

Ao que consta, esta terceira vaga parece não estar a produzir o sucesso esperado pela indústria de celulose. Em consequência, estão a recorrer à aplicação de compostos tóxicos para tentar, sem sinais de o conseguirem, controlar a segunda vaga invasora. Tais tóxicos, disseminados em áreas de plantações de eucalipto, surtiram já uma vaga de protestos por parte de apicultores. Com efeito, entre outras potenciais consequências, a produção de mel está a ser comprometida em algumas regiões do território nacional.

E como elas ardem, as invasoras da primeira vaga! Quer as háqueas, quer as acácias e o eucalipto, produzem danos dramáticos no território e suas populações. Sobretudo o eucalipto face à gigantesca área que ocupa no território nacional. Uma área sobretudo de epidemia, em regime de investimento de casino e sob gestão de abandono.

Está a valer a pena ao País ter de sustentar a primeira vaga invasora? Se é para fazer face à necessidade de papel, também este se produz a partir de espécies autóctones.

No sentido inverso, os exemplos de introdução de espécies exóticas na Austrália têm tido efeitos devastadores nos ecossistemas locais. No nosso caso, o “feitiço” está a virar-se contra o “feiticeiro”. A ignorância e a ganância trarão custos elevados para as futuras gerações.

Ao menos, os membros das segunda e terceira vaga ainda poderão ser convertidos em hambúrgeres de insectos, assim haja procura. Já as folhas e frutos produzidos pela primeira vaga só parecem interessar a marsupiais.