Entrevista

“Os grupos antivacinas são muito bem financiados e agressivos, são bullies

O que o movimento antivacinas está a fazer por todo o mundo, convencendo alguns pais a deixar de vacinar os filhos, é assustador. “Alguém tem de dizer ‘basta!’”, alerta Peter Hotez, investigador norte-americano e reitor da Faculdade Nacional de Medicina Tropical, em Houston, no Texas.

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O cientista, pai, pediatra e defensor nas áreas da saúde global, da vacinação e do controlo de doenças tropicais negligenciadas, não só diz "basta" ao movimento antivacinas como também o escreve, num livro que vai lançar agora nos EUA com o título As Vacinas Não Causaram o Autismo de Rachel, sobre ciência e a sua filha. Numa conversa com o PÚBLICO nos bastidores da Conferência Curious2018, organizada em Darmstadt, na Alemanha, pela empresa farmacêutica Merck, Peter Hotez denuncia que está a ser perseguido pelos movimentos antivacinas que o atacam com todo o tipo de acusações, desde estar a explorar a própria filha até ter sido comprado por empresas farmacêuticas. Apesar do silêncio das autoridades e dos seus colegas que temem também tornar-se o alvo destes "agressivos bullies", o cientista (ainda) não parece disposto a desistir. Nem desta nem de outras causas pelas quais luta corajosamente. Desde o temível regresso dos surtos do sarampo na Europa e nos EUA a um futuro de sonho com vacinas para doenças que desfiguram crianças na Síria ou no Iraque, Peter Hotez vai dizendo que compete à ciência ajudar a reparar o mundo e acabar o trabalho de Deus que descansou ao sétimo dia.

Já o ouvi dizer que o termo “doenças tropicais negligenciadas” pode não ser o mais adequado. Que deveria ser algo como “doenças infecciosas negligenciadas”…
Na verdade não estou muito preocupado com o nome. As pessoas já conhecem estas doenças como NTD (neglected tropical diseases) e muitas nem sabem o que é que a sigla significa. Mas, de uma forma geral e em várias partes do mundo, o grande factor determinante para estas doenças, que de facto não são exclusivas dos países tropicais, é a pobreza. Portanto, é um determinante social. No meu último livro Blue Marble Health digo que onde quer que exista uma pobreza extrema, não interessa se é na África subsariana ou nos EUA, vão existir NTD. Estão disseminadas entre os mais pobres. Se procurarmos a pobreza encontramos NTD. 

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Vacinação contra Ébola no Congo Olivia Acland/Reuters

E estamos a conseguir atacá-las?
As mais comuns, em África, são mais fáceis de lidar porque podem ser atacadas com o que chamamos “pacote de impacto rápido” sobre o qual escrevemos em 2005 e que pode chegar até estes países por 40 cêntimos por pessoa. É muito barato porque as grandes empresas farmacêuticas doam os fármacos. Mas isso não acontece para todas as NTD. Por exemplo, nos EUA, muitas não podem ser atacadas facilmente com um pacote de fármacos. É mais complicado. Nestes cenários temos de fazer uma vigilância activa para procurar estas doenças, até porque algumas delas não são clinicamente óbvias.

Por exemplo?
A doença de Chagas, por exemplo, causa problemas cardíacos mas, a não ser que se conheça esta doença, não se pensa nessa hipótese e é pouco provável chegar a esse diagnóstico. Muitas destas doenças acabam por passar despercebidas e não são detectadas e tratadas.

E estão por todo o mundo e não apenas em África?
Exacto. Uma coisa que fiz no livro foi apresentar um mapa da pobreza dos países do G20 [grupo formado por ministros de finanças e chefes dos bancos centrais das 19 maiores economias do mundo mais a União Europeia]. E ali estão os focos de NTD relacionadas com a pobreza e que estão espalhados por todo o lado. A nossa estimativa é que a maioria das NTD relacionadas com a pobreza está precisamente nestes países do G20, juntamente com a Nigéria que não faz parte do grupo mas tem uma economia mais próspera do que os últimos três ou quatro países do G20. São portanto os mais pobres dos mais ricos que neste momento sofrem com a maior parte das NTD.

Sei que está actualmente a trabalhar em vacinas para algumas destas doenças, como a doença de Chagas. Em que ponto está este trabalho?
Temos um portefólio de meia dúzia de NTD relacionadas com a pobreza. Resumindo, o trabalho para as vacinas para a infecção por parasitas nos intestinos (do grupo da lombriga) e da esquistossomose [doença parasitária causada por vermes sanguíneos] estão em ensaio clínico a acabar a fase I, temos também uma nova vacina para a doença de Chagas que esperamos que chegue em breve à prática clínica, uma vacina para a leishmaniose, mas estão todas em diferentes fases.

São vacinas terapêuticas?
No caso da esquistossomose, infecção por parasitas e leishmaniose são vacinas preventivas, mas para a doença de Chagas, por exemplo, é uma vacina terapêutica.

O último livro era sobre NTD. Mas o que vai lançar agora é sobre um tema muito diferente. Quer-me falar sobre As Vacinas não Causaram o Autismo de Rachel?
O novo livro abarca uma nova dimensão. Sou um cientista do campo das vacinas mas sou também um pai. Tenho quatro filhos e a minha filha mais nova, Rachel, tem um autismo severo e outras incapacidades mentais e intelectuais. Esta situação colocou-me no meio de um interessante diálogo e discussão, porque quer nos EUA quer na Europa existe actualmente um movimento antivacinas muito bem organizado que alega que as vacinas causam autismo e o que este meu livro faz é desmontar isso. Fornece as provas que demonstram que não há nenhuma ligação entre o autismo e as vacinas nem nenhuma plausibilidade nisso.

Como desmontou isso?
Sabemos que as mudanças nos cérebros das crianças com autismo acontecem ainda durante a gravidez, muito antes de a criança nascer e de qualquer vacina. Isto é uma via do neurodesenvolvimento que começa no primeiro ou segundo trimestre da gravidez.

Como assim?
É uma longa explicação, mas vou tentar resumir. De acordo com os CDC [Centros para o Controlo e Prevenção Doenças norte-americanos], a maioria dos casos de autismo é diagnosticada entre os 28 e 24 meses. A Rachel foi diagnosticada pelo pediatra que percebeu que alguma coisa não estava bem aos 19 meses. Há um trabalho fantástico que está a ser feito pela Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill que mostra que a expressão clínica que acontece entre os 18 e os 24 meses coincide com uma expansão significativa do volume do cérebro que se consegue ver através de ressonância magnética. O que alguns pais se vão lembrar é que por volta dos 15 ou 18 meses o filho recebeu uma vacina. E vão querer ligar estas duas coisas.

Mas o grupo de investigação da Carolina do Norte está a conseguir ir até aos seis meses de vida e, com uma ressonância magnética, alega que com 90% de precisão pode predizer se a criança se vai desenvolver no espectro do autismo. E agora um outro grupo da Universidade de Califórnia San Diego está a recuar ainda mais e está a demonstrar que as mudanças nos cérebros associadas ao autismo começam por volta do início do segundo trimestre de gravidez. O importante é que há 65 genes que já foram identificados e ligados ao espectro do autismo, incluindo um novo que julgo que identificámos com a Rachel. O financiamento e a energia têm de estar na investigação médica. E essa é uma das coisas que me incomoda tanto no movimento antivacinas. Eles estão a sugar toda a energia da sala, todo o oxigénio, com estes argumentos falsos de antivacinas quando os recursos deviam estar na identificação de todos os genes nos miúdos no espectro do autismo. Devíamos estar a fazer sequenciação completa do genoma de todas as crianças que estão nesse espectro. Podíamos trabalhar todas as vias genéticas, de desenvolvimento, etc. E em alguns casos pensar em revertê-las. Talvez através da CRISPR Cas9 [técnica de edição genética].

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Adolescente a ser vacina no País de Gales Rebecca Naden/Reuters

Acredita na edição genética?
Não é uma questão de acreditar. Não é uma religião. Estamos a começar a explorar e a perceber se isto pode ter aplicações na genética humana mas há já muita coisa que podemos fazer agora. E não estamos a fazer nada.

Mas quando fala em reverter algumas vias, como ficamos na questão da neurodiversidade?
Pois. Essa questão está muito presente. É uma das coisas que podem ser criticadas. Há algumas pessoas que defendem que não há nada disfuncional no autismo e é só neurodiversidade. Uma das coisas que sublinho no livro é que não é só o autismo por si só que está a atrasar a Rachel. É que, além do autismo, ela tem um quociente de inteligência (QI) pouco funcional.

Mas alguns não têm.
Certo. Portanto, não é só o autismo que é o problema nisto tudo. São todas as associações e genes que a Rachel tenha e que estão a causar não só o autismo, mas também uma baixa função intelectual. As coisas estão a mudar. Uma das tendências que estamos a ver agora sobre o desenvolvimento cerebral é uma mudança nestas questões. Em vez de usarmos estas gavetas com categorias que temos, para o autismo, esquizofrenia, epilepsia… falamos em algo como disfunção do desenvolvimento cerebral. Isso por si só é um espectro. Há alguns cientistas que defendem que se olharmos para as disfunções do desenvolvimento cerebral podemos chegar a uma família e encontrar o mesmo defeito genético em vários membros da família, e alguns estarão no espectro do autismo e outros terão esquizofrenia. Mas, em resumo, a questão da reversão de algumas coisas através da genética coloca-se quando sabemos que há algumas deleções ou mutações que estão a impedir algumas pessoas de viver a sua vida de uma forma plena e significativa.

O novo livro não é só sobre ciência. Há um lado pessoal…
No livro alterno entre um capítulo de ciência e os desafios de ser um pai de uma criança autista que agora já é uma adulta com necessidades especiais. Ou seja, também é uma reflexão muito pessoal ao mesmo tempo e a minha esperança quando o escrevi era ajudar a parar este movimento antivacinação muito bem organizado que, para já, conseguiu resultar em 20 mil casos de sarampo no ano passado na Europa. E agora já começamos a ver também surtos de sarampo nos EUA. Sabemos que é uma doença que pode matar. Depois de a varíola ter sido erradicada nos anos 1970, o sarampo foi a principal causa de morte de crianças no mundo. Reduzimos este problema a menos de 70 mil casos com uma série de acções importantes como a Aliança GAVI [organização internacional apoiada numa parceria do sector público e privado criada em 2000 para garantir o acesso das crianças a vacinas nos países pobres]. E agora está a voltar. Está a voltar na Europa, na Venezuela, Colômbia, Brasil e também nos EUA. Excepto no caso da Venezuela [onde o fenómeno estará associado a um colapso dos serviços de saúde], este regresso está relacionado com o movimento antivacinas.

Que tipo de danos é que imagina que isto pode causar?
Os danos estão já à vista. Tivemos já 17 mortes por causa do sarampo nos últimos 12 meses na Europa. E este número vai continuar. Nos EUA tivemos um terrível surto de sarampo em 2017 no Minesota com mais de 20 crianças hospitalizadas. Isto é perigoso. E é uma ferida auto-infligida. Podia ser totalmente prevenida se tivéssemos um apoio estruturado para fazer com que os pais percebam que as vacinas são seguras e não causam autismo. Ou outras coisas que o movimento antivacinas alega como, por exemplo, que causa doenças auto-imunes, alergias…, é tudo treta.

Antes de começarmos esta conversa, falou-me de um livro…
Sim! Foi publicado um livro antivacinação para crianças que se chama, vejam só, Melanies Marvelous Measles (O Maravilhoso Sarampo de Melanie)… É inacreditável.

Mas por que é que decidiu publicar o seu livro agora? A sua filha Rachel já é adulta, tem 25 anos, e o artigo fraudulento que associava as vacinas ao autismo já foi publicado há vários anos…
Por várias razões. Mas o que me fez escrever o livro agora foi este regresso fatal do sarampo. Há vários anos que escrevo artigos que demonstram que não existe ligação entre autismo e as vacinas. É uma mensagem que tento por cá fora há já algum tempo. O estímulo que me fez sentir que era urgente escrever este livro foi o regresso do sarampo. O facto de o movimento antivacinas ter conseguido, com o argumento do autismo e outros, convencer muitos pais a deixar de vacinar os seus filhos é algo muito assustador para mim. É terrível. E alguém tem de dizer “basta!”. Temos de fazer alguma coisa.

Mas além do sarampo há outras doenças que podem voltar…
O sarampo é normalmente a primeira que vemos porque é altamente transmissível, um indivíduo com sarampo consegue contagiar 12 a 18 pessoas. E normalmente contagia crianças com menos de 12 meses, ou seja, que ainda nem sequer têm idade para receber uma vacina contra o sarampo. Assim, quando assistimos a um declínio na cobertura vacinal, a primeira coisa que aparece é sarampo. É o biomarcador para o movimento antivacinas.

Como é que se pode travar isto?
Já conseguimos perceber que são curiosamente sobretudo as pessoas mais instruídas e com mais posses que não estão a vacinar os filhos. São aquelas que fazem uma busca no Google e não sabem o que estão a pesquisar porque há tantos artigos e sites antivacinas fraudulentos por aí. Então, o que precisamos fazer é ter múltiplas abordagens, não apenas uma. Julgo que nos EUA temos de fechar aquele vazio que permite que os pais não vacinem os filhos. Temos de trabalhar na legislação para acabar com as isenções que permitem isto tal como fizemos na Califórnia na altura do surto de sarampo. Agora na Califórnia é obrigatório vacinar uma criança que vá para uma escola pública.

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A vacina para o sarampo, papeira e rubéola Brian Snyder/Reuters

O Presidente Donald Trump não parece estar muito disposto a contribuir para essa luta…
Eu dou ao Presidente Trump uma espécie de desconto neste assunto. Porque, embora seja verdade que ele fez declarações antivacinas, durante os debates do GOP [sigla em inglês para Grand Old Party, que se refere ao Partido Republicano nos EUA e aos seus debates presidenciais] e no Twitter, desde que é Presidente ainda não disse nada. Ou seja, não é pior ou melhor do que os presidentes Obama ou Bush, na verdade. Esta é uma das coisas que não podemos culpá-lo totalmente. A nível estatal, temos de parar com as isenções que não são por motivos médicos, a nível federal nos EUA, os nossos CDC e outras autoridades de saúde têm de falar mais e mais alto sobre a importância de vacinar os filhos e, na Europa, a responsabilidade de falar mais e mais alto sobre os perigos de não vacinar as crianças cai nos líderes eleitos. Precisamos de políticas na União Europeia…

Espere. Então na Europa têm de ser os líderes eleitos mas não nos EUA?
Sim, também precisamos de uma apoio público da Casa Branca mas julgo que é decisivo que esse apoio venha dos CDC e do gabinete do Cirurgião-Geral [entidade que será o correspondente em Portugal à Direcção-Geral da Saúde]. Também temos de dar aos pediatras melhores ferramentas para usarem quando são confrontados com pais hesitantes nesta matéria.

Tais como?
Uma das coisas que faço no último capítulo do meu livro que será agora lançado é dar uma lista de argumentos para usar perante os motivos mais comuns que são apresentados por esses pais que não querem vacinar os seus filhos. São motivos que variam. Os pais estão confusos e têm preocupações diferentes. Um dos problemas do movimento antivacinas é que vão mudando os alvos… primeiro disseram que era a vacina contra o sarampo, papeira e rubéola, depois disseram que era o timerosal [composto usado em algumas vacinas], depois era o alumínio, depois era que as vacinas eram dadas muito próximo umas das outras e alguns grupos já nem sequer estão a ir por alegações de ligações ao autismo mas preferem falar em doenças auto-imunes ou alergias. É, repito, tudo treta e inventado. Tudo.

Podemos garantir que as vacinas são inteiramente seguras?
Sim. Tão seguras quanto possível. Uma das coisas que faço no livro é dar números sobre isso. E, basicamente, resume-se a isto: as probabilidades de ter uma reacção adversa severa a uma vacina são as mesmas de ser atingido por um relâmpago. E por oposição às imensas vidas que estamos a salvar.

Percebi que culpa os cientistas por toda esta confusão sobre as vacinas. É verdade?
Julgo que parte deste problema é culpa nossa. Como cientistas não estamos a conseguir envolver as pessoas. Sondagens recentes mostraram que 81% dos americanos não conseguem nomear um cientista vivo. Ou seja, a maioria dos americanos não faz qualquer ideia do que andamos a fazer. E julgo que os números serão os mesmos na Europa ou ainda piores, tanto quanto sei. Ninguém sabe o que um cientista faz, os artigos que escreve, o trabalho que faz no laboratório, não há conhecimento… e isso alimenta o medo e a paranóia. Os cientistas precisam de comunicar melhor o que fazemos todos os dias. E reconhecer os cientistas pelo que são, são heróis. Certo? Estão a tentar fazer novas descobertas para melhorar o mundo. E essa imagem do cientista desapareceu. Por isso é tão importante cativar os jornalistas de ciência, são os melhores amigos que podemos ter porque nos ajudam a comunicar.

Tem conseguido juntar apoios de outros cientistas nesta batalha contra a antivacinação?
Uma das frustrações que tenho é que, apesar dos apoios, eles comunicam comigo em privado apenas. Não assumem uma declaração pública de apoio.

Porquê?
Posso explicar muito facilmente porquê até porque estou a passar por isso. Os grupos antivacinas são muito bem financiados, muito agressivos, são bullies.

Financiados por quem?
Isso é um mistério. Isso é o seu trabalho como jornalista de ciência, descobrir isso. De onde vem o dinheiro? Porque há muito dinheiro a entrar. Não sei. Mas uma das coisas que fazem é um agressivo cyberbullying e que é feito colocando o meu nome e nome da minha família em websites com acusações que são inventadas. Perseguem-me nas minhas palestras e publicam nos blogues coisas que eu disse ou que nunca disse. E é claro para mim por que é que a comunidade científica, os CDC ou o gabinete do Cirurgião-Geral não vêm a público falar sobre estas coisas, eles não querem ser assediados como eu estou a ser.

Parece-me bastante perturbado com a situação. Este assédio pode fazer com que desista?
Isso ainda não aconteceu até agora.

O seu livro sobre Rachel, as vacinas e o autismo ainda nem sequer foi publicado. O assédio pode piorar…
Um tipo na Internet alega que fez uma crítica do livro quando ainda nem sequer o leu. Diz que é cruel e pouco ético e nem sequer o leu. É com isto que tenho de lidar.

Tem travado algumas batalhas. Primeiro com a NTD, agora com as vacinas. Qual o próximo desafio?
É comunicar melhor os objectivos humanitários da ciência. Tenho um conceito sobre o qual escrevi de forma breve num artigo intitulado Science Tikkun: Reparing the World trough the Science of Neglected Diseases, Science Diplomacy, and Public Engagement. “Tikkun” é uma antiga palavra grega.

Que significa?...
Reparar o mundo. A ideia, basicamente, é que Deus não acabou o seu trabalho. Ele trabalhou seis dias e no último descansou. Compete-nos a nós acabar o trabalho e reparar o mundo.

Com a ciência?
Com a ciência. É a ciência que vai ajudar a reparar o mundo. Quero tentar, pelo menos, comunicar melhor os objectivos humanitários da ciência. Ainda é um conceito difícil de descrever e ainda não sei se será o tema para um livro mas é um objectivo que tenho: transmitir a minha visão da ciência que é feita com objectivos humanitários, uma ciência que fornece estes lotes de fármacos para mais de mil milhões de pessoas, que faz as vacinas que mais ninguém faz. Acredito que este destino humanitário é partilhado por muitos cientistas, mas eles não o conseguem enunciar.

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Criança nos EUA a ser vacinada Jerry Lampen/Reuters

Nesta conferência, a empresa farmacêutica Merck apresentou um novo prémio anual de um milhão de euros para o que chamaram “produtos de sonho”. O que seria o seu produto de sonho?
Os produtos de sonhos são aqueles que estamos a desenvolver e que demonstrámos que funcionam e que estamos, de facto, a usar agora. Uma vacina para a esquistossomose seria um produto de sonho. Uma vacina para a infecção por parasitas nos intestinos, uma vacina para a doença de Chagas, uma vacina para a leishmaniose. Imagine ser capaz de ir para a Síria ou Iraque e conseguir vacinar as crianças contra a leishmaniose [entre outros sintomas esta doença causa visíveis feridas na pele] e evitar que ficassem permanentemente desfiguradas.

Mas ainda há um longo caminho a percorrer até aí…
Sim, estamos a trabalhar nisso. Mas são várias fases que é preciso ultrapassar. O problema é que à medida que terminamos uma das fases já estamos tão exaustos e apercebemo-nos de que ainda só conseguimos a parte mais fácil. Já estou nisto há bastante tempo. Fiz o meu doutoramento há 30 anos e era sobre a infecção por parasitas nos intestinos. Portanto, estou a trabalhar nisto há 40 anos e ainda não consegui licenciar o produto. Esse é o meu sonho.

O que acha de todas as promessas da edição genética, a biologia sintética, a inteligência artificial que têm sido discutidas?
Estamos a tentar incorporar todas essas tecnologias nas nossas vacinas. Tudo junto. De qualquer nova tecnologia que apareça tentamos tirar o máximo proveito dela. A ideia não é apenas fazer um produto mas também fazer boa ciência.

Mas o que realmente podemos fazer? Como é que isso se aplica nas nossas vidas?
Mas já está a ser aplicado. Ouvimos falar sobre cancro, diabetes, doenças cardiovasculares, NTD... Estas novas tecnologias estão a ser incorporadas muito rapidamente. Vejo isso com as nossas doenças infecciosas. Lembra-se do problema com síndrome aguda respiratória grave [conhecida pela sigla em inglês SARS] em 2002? Fiquei espantado porque em apenas um ano identificámos o vírus e já havia algumas tentativas para fazer o protótipo de uma vacina. Veja o que se passou com o Ébola em 2014. Em apenas algumas semanas tivemos o vírus e em 2015 já havia uma vacina que estava em ensaio clínico. Foi incrível. Veja o que aconteceu com o vírus Zika. Apercebemo-nos de deformações nos recém-nascidos e no período de algumas semanas já tínhamos percebido que era um novo arbovírus. É um paradigma totalmente novo.

Mas o processo ainda é muito lento. Os ensaios clínicos costumam levar cerca de dez anos…
Sim. Mas já há algumas tentativas para encurtar esse prazo. Mas, tem razão, ainda é muito lento. No final de contas, ainda temos de fazer as fases I, II, III. E depois, regressando ao tema das vacinas, também temos de lutar contra este movimento antivacinas. Veja o que aconteceu com a vacina para evitar o cancro do colo do útero. É uma vacina espantosa. Pode impedir que uma geração de mulheres tenha cancro. E no Texas a cobertura é de 39%. Estamos desnecessariamente a permitir que uma geração inteira de mulheres pode ter cancro do colo do útero. Porquê? Por causa deste miserável movimento antivacinas. 

Temos exemplos de boas respostas a problemas como o Ébola, mas será que estamos preparados para uma nova pandemia?
Ainda podemos ser apanhados desprevenidos. Pode aparecer um novo agente, ou uma ameaça de bioterrorismo, mas acho que aprendemos muitas lições, a comunicação entre a OMS e os vários países está melhor do que nunca.

Finalmente, o que diria a um pai ou mãe com o filho nos braços que está a hesitar vacinar o seu filho?
Diria que temos vacinas que previnem doenças, que vimos agora o sarampo reemergir, a papeira também, que estas podem ser fatais e que é um direito fundamental do seu filho estar protegido destas doenças. É um direito humano. Tal como é um direito do seu filho ser colocado numa cadeirinha de segurança num carro. Não há qualquer diferença. Não neguem o direito fundamental do vosso filho se proteger de doenças infecciosas. Para um pai, e perante estes falsos conceitos sobre a liberdade médica ou sobre a escolha, o fundamental direito do filho estar protegido das doenças deve vir em primeiro lugar. Em segundo lugar, estas vacinas são seguras e já deram provas disso. Repito: as probabilidades de a sua criança ter algum efeito adverso severo por causa de uma vacina são as mesmas do que ser atingido por um relâmpago.

O PÚBLICO viajou a convite da Merck