Reportagem

“Emigrámos por pouco tempo a pensar que a crise ia passar”

Não é só da aldeia ou do interior que se emigra em Portugal. De Santa Maria da Feira, Luís Castro e Gisela foram para o Reino Unido à procura de oportunidades. Quarenta anos antes Américo Correia tinha emigrado para o Brasil e França. Quarta e última reportagem de uma série sobre emigração.

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Gisela Ribeiro, Luís Castro e a filha mais nova na loja que o casal abriu em Santa Maria da Feira Miguel Manso
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Américo Correia começou a trabalhar com 11 anos e emigrou com 18 Miguel Manso
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Emídio Sousa, presidente da câmara municipal de Santa Maria da Feira Miguel Manso

Luís Castro e Gisela Ribeiro nunca tinham saído de Portugal. Estavam casados, não tinham filhos e o trabalho, quando existia, era precário. Embarcaram num projecto: emigrar por cinco anos, a pensar que a crise ia passar. “A ideia foi sempre regressar", dizem. 

Luís vendia tintas. O seu projecto de abrir uma loja de tintas, quando o negócio do patrão fechou, também ruiu com a crise da construção civil.

O calçado, a cortiça e a construção civil são sectores tradicionais em Santa Maria da Feira. Mas deste concelho industrializado e “muito empregador” por atrair pessoas de localidades vizinhas, nas palavras do presidente da Câmara Emídio Sousa, também saiu muita gente para a emigração. “Estes anos recentes de crise levaram algumas pessoas a emigrar e outros que até tinham regressado, a emigrar de novo”, admite o autarca. 

Luís tinha 28 anos e Gisela 23 quando se lançaram à primeira oferta de uma agência que recrutava para o estrangeiro e começaram na fábrica de bolachas Walkers na Escócia, onde tiveram muitos colegas portugueses.

A crise também os apanhou depois em Shrewsbury na Inglaterra, para onde se haviam mudado pouco tempos depois. O call center no centro de reparações da empresa tecnológica Dell, onde Luís trabalhava, fechou e despediu os seus 700 trabalhadores. Gisela, que se dedicara ao trabalho num hotel, foi evoluindo: da cozinha, passou para os quartos e depois para o bar. Mas começou a ser hostilizada por outros colegas.

“Sentíamos que isso acontecia por sermos portugueses. Os imigrantes no Reino Unido não são tão bem-vindos como são no Luxemburgo ou na Suíça”, acredita Luís. Gisela decidiu trabalhar por conta própria. Criou a Sparkle & Shine, uma empresa de limpeza, à qual mais tarde se juntou o marido a tempo inteiro – antes, ajudava aos fins de tarde e fins-de-semana. Começaram por fazer limpezas domésticas, e expandiram depois para escritórios, empresas, cadeias de restaurantes, clínicas e escolas.

Tempos difíceis e necessários

Naqueles tempos, na Inglaterra e depois no País de Gales, trabalhavam sete dias por semana e o telefone estava ligado 24 horas por dia. Não desfrutavam dos tempos livres com os filhos que eram também a razão por que deram tanto. Gisela trabalhava sem pausas, e quando foi mãe, praticamente não ficou em casa.

Luís percorria diariamente muitos quilómetros entre as cidades onde tinham clientes – entre Blackpool e Coventry, passando por Manchester ou Liverpool. A empresa chegou a ter 50 funcionários, de diversas nacionalidades, entre as quais portugueses. “Conhecemos muita gente ao longo dos anos e essa troca de experiências foi uma grande formação para nós”, salienta Luís Castro.

A partir de um momento, a empresa, gerida apenas pelos dois, duplicava a facturação todos os anos. "Expandimos de tal forma que alguém nos disse que tínhamos criado um monstro”, comenta o empresário. 

Em 2014 expandiram o negócio mais um pouco e escolheram Wrexham (que tem uma comunidade portuguesa), perto de Chester, no Norte do País de Gales. “O escritório era a nossa casa.” Tudo corria bem.

A morte do pai de Luís, o cancro de um primo que acabou por falecer e a doença de uma amiga de Gisela levaram-nos a reflectir na vida de outro modo. "No fundo, a pensar que tudo isto é passageiro", realça Luís. “Foi um turbilhão de acontecimentos a que se juntou muito stress.” O passo seguinte, que tinham planeado, foi travado já à beira de ser concretizado.

Brexit como "um insulto"

“Íamos comprar uma casa. Com os papéis na mão e com tudo aprovado, decidi não comprar”, conta Luís. Também o Brexit o fez ver as coisas de outro modo. “Eu senti o Brexit como um insulto. Foi um insulto a quem trabalha e contribui naquele país, como nós, que contribuímos milhares de libras de impostos e criámos postos de trabalho. Sentimos que era um esforço que não estava a ser reconhecido.”

Foram tempos difíceis, mas necessários. “Foi uma aprendizagem. Se não tivéssemos batalhado tanto, não teríamos uma moradia e a qualidade de vida que temos para os nossos filhos”, acrescenta o empresário. Não teriam tido o dinheiro para investir com capital próprio numa empresa em Santa Maria da Feira, uma loja que compraram quando chegaram, há um ano.

Mantiveram o nome Ferromaria da engomadoria que já existia mas passaram a oferecer, além desse, serviços de lavandaria e limpezas. Em apenas um mês, reforçaram a equipa de um para quatro funcionários. “Demora tempo a construir, mas eu acredito que se usarmos a experiência destes anos, vamos conseguir criar um negócio e ter um estilo de vida razoável”, diz Luís Castro. 

Embora, quase coincidente no tempo, o regresso a Portugal não teve só a ver com o Brexit. Foi uma mistura de coisas. Foi um impulso, assumido como certo pelos dois, embora também pudessem ter ficado por lá, diz Gisela. “Se eu deixasse passar mais dois anos, já não voltaria”, diz Luís. Pelos filhos, diz, que depois crescem e seria mais difícil trazer.

Para Portugal vieram com capitais próprios, sem qualquer incentivo para o regresso de emigrantes. “Contactámos uma agência que nos disse que havia apoios para quem tivesse menos de 35 anos. Lá lutei 15 anos, a partir do zero. Aqui estou a lutar outra vez do zero.”

Hoje com 38 e 43 anos, Gisela e Luís sabem que a sua vida continua ligada ao rumo que conseguir (ou não) tomar a empresa, mas esboçam um sorriso. Portugal foi a decisão certa. “Só valoriza o nosso país quem passa algum tempo fora dele."

Antes de haver indústria

“Há pessoas que deviam emigrar pelo menos um ano para dar valor às coisas”, diz também Américo Correia. Para ele, a viagem da emigração começou com pequenas coisas a que deu valor. Quando chegou ao Brasil, onde os irmãos já estavam, Américo Correia iniciou-se no negócio da recuperação, compra e venda, de papel, vidro, garrafas e cobre.

Ao fim de uns anos, tornou-se dono de uma empresa – Castelo da Feira, Lda – que fabricava instalações comerciais (como balcões) que dava emprego a portugueses, brasileiros, espanhóis.

Apesar de Santa Maria da Feira ser um importante pólo de emigrantes, “a emigração já é menos expressiva” do que foi há 60 anos, quando a industrialização da terra dava os primeiros passos, enquadra o presidente da Câmara Emídio Sousa. “Até ao 25 de Abril, ainda havia aqui muita carência, muita agricultura de sobrevivência.” E mais emigração. 

É dessa época a decisão de Américo Martins sair de Portugal. Regressou em 1984 e reformou-se em 2000. Eram outros tempos mas, como Gisela e Luís, começou praticamente sozinho e do zero.

“Ao princípio foi duro. Fui sozinho em 1960. Foram 11 dias de barco." Tinha 18 anos, e fazia o que lhe mandavam. Trabalhava desde os 11 anos na construção civil em Portugal e desde os 16 numa barbearia quando acabava o horário das obras. 

Já no Brasil passou por dificuldades, sofreu vários assaltos, e quando veio embora, não rumou a Portugal. Começou a trabalhar no mesmo dia em que chegou a França, onde já conhecia portugueses na construção civil. Trabalhava de dia, e ia à escola para as aulas de francês à noite, ele que foi o primeiro dos irmãos a concluir o 1.º ciclo do ensino básico, antes de abandonar a escolaridade. 

Amigos como De Gaulle

“Tenho a escola da vida. Trabalhei com pessoas de diversas nacionalidades que também nos ensinam muitas coisas. Em França fiz muitas amizades”, conta, orgulhoso de ter tido um amigo, falecido aos 96 anos, que era da Resistência Francesa e amigo de Charles De Gaulle.

Depois de dois anos passados nas obras, ficou colocado em 1972 em Val d’Oise, nos arredores de Paris, num bom cargo administrativo na Central de Cooperativas de Produções Animais, que juntava engenheiros agrónomos e veterinários.

Esteve à frente da União Desportiva e Cultural de Cergy-Pontoise e foi quem iniciou um pólo do ensino do português para filhos de portugueses na sua zona. "Sempre achei que as nossas crianças deviam aprender português." Convenceu o presidente da câmara a ceder-lhes uma sala de aula e a coordenadora do ensino do português em França, o consulado e a embaixada, a procurar professores. Encontraram dois, do Algarve e o pólo cresceu. 

Regressou a Portugal em 1984, pelos filhos quando ainda eram pequenos. "Mais tarde", conclui, "seria impossível trazê-los e muito difícil deixá-los".