Não houve “Fogo”, mas não faltou fumo

A oportunidade de defrontar um clube brasileiro em digressão pela Europa foi aproveitada por sete equipas. Mas depois descobriu-se que era um grupo de impostores, que desapareceu sem deixar rasto.

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Pauleta foi o autor de dois dos golos do Salamanca DR

Tem nome de clube célebre, está prestes a completar 87 anos de história, mas não deixa de ser um emblema modesto. O Botafogo Futebol Clube, de João Pessoa (Paraíba) – não confundir com o Botafogo de Futebol e Regatas, do Rio de Janeiro e duas vezes campeão brasileiro – conseguiu há poucos anos o principal feito do seu palmarés, ao conquistar em 2013 o título de campeão da Série D, equivalente ao quarto escalão do futebol brasileiro. Muito antes, porém, viu o seu nome envolvido numa fraude deste lado do Oceano Atlântico.

Em Agosto de 1997 estava-se em plena pré-temporada e, com um nome grande do futebol brasileiro em digressão por Espanha, foram vários os clubes que aproveitaram a ocasião para disputar encontros de preparação. Salamanca, Albacete, Realejos, Tenerife, Logroñés, Pájara-Playas de Jandía, e Lorca foram, ao que se sabe, os emblemas que enfrentaram o ilustre visitante. Só que, afinal, o Botafogo era o Botafogo de Paraíba. Pior ainda, o Botafogo de Paraíba era, afinal, um grupo de brasileiros a fazer-se passar por futebolistas, que conseguiu ludibriar pelo menos sete clubes antes de ser descoberto e desaparecer.

“Ni Bota, ni Fogo”, titulava um jornal espanhol quando foi detectada a fraude. “É inadmissível que um ‘clone’ do Botafogo de Paraíba manche a imagem do futebol brasileiro no estrangeiro”, lamentava o então presidente do clube de João Pessoa, Antônio Viana, citado pela Folha de S. Paulo, a 31 de Agosto de 1997.

A notícia do fraco desempenho do Botafogo de Paraíba durante a digressão espanhola tinha sido recebida com estupefacção em João Pessoa. Não só não havia qualquer expedição planeada, como a equipa estava empenhada no campeonato estadual, que decorria na altura. “O presidente do Botafogo de Paraíba, Antônio Viana, disse que provavelmente se trata de uma fraude de um empresário italiano que já manteve relações com o clube. No início deste ano, a direcção do clube teria sido procurada por esse italiano, que representaria uma comissão de empresários espanhóis, oferecendo ao clube uma parceria em que seriam investidos 200 mil dólares na equipa. Nenhum acordo, porém, foi assinado, e a ideia de parceria foi descartada”, escrevia a Folha.

Até a mentira ser descoberta, o tom em Espanha era de credulidade e entusiasmo. “Que grande Salamanca!”, titulava o diário desportivo Marca, na sequência da goleada aplicada aos brasileiros (6-0) pela equipa recém-promovida à Liga espanhola. O jogo serviu para o Salamanca fazer a apresentação aos sócios e adeptos, e contou com 7000 pessoas nas bancadas do Estádio El Helmántico. Com camisola patrocinada pela Expo 98 e muitos portugueses na equipa, o Salamanca contou com Tulipa, Taira e César Brito no “onze” inicial e ainda teve Rogério Brito e Pauleta a saírem do banco de suplentes. O avançado açoriano seria um dos destaques da partida, com dois golos marcados.

Não deixa de ser surpreendente a réplica dada pelos impostores ao Salamanca, uma equipa profissional. Os espanhóis inauguraram o marcador aos 12’ e só conseguiram voltar a fazer funcionar o marcador na segunda parte, aos 56’. O resultado viria a avolumar-se aos 76’, 77’, 85’ e 90’. Houve pouco “Fogo” na recta final da partida, mas já se levantava o fumo das dúvidas.

Planisférico é uma rubrica semanal sobre histórias de futebol e campeonatos periféricos