Opinião

Serviço Nacional de Saúde : "Números sem nomes"

O primeiro-ministro disse que “temos mais 7.900 profissionais no SNS". Sejam 7.900 ou qualquer outro número: quem são, onde estão e o que fazem?

O primeiro-ministro António Costa anunciou na Festa de Verão do PS que “temos mais 7.900 profissionais no Serviço Nacional de Saúde (SNS)”. Segundo o PÚBLICO, que consultou os dados da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), são mais 3.683 médicos e mais 3.001 enfermeiros. Sobram, assim, 1.216 para os outros grupos profissionais. Este saldo líquido positivo pressupõe que, no mesmo período, todos os profissionais de saúde que cessaram funções por quaisquer motivos tenham sido substituídos.

Certamente por defeito profissional que nos exige sempre a prova, para quem está no terreno e presencia diariamente a degradação das condições no SNS, é legítimo questionar a bondade destas contratações e interrogar-se quem são, onde estão e o que fazem? Quase todos os dias, a comunicação social noticia a falta de pessoal diferenciado, demissões de chefes de equipas, encerramento de camas, desvio de exames para o privado, aumento do envio de vales de cirurgia para fora, etc. E como 7.900 é muita gente para tanta perturbação, a ser verdade não há muitas hipóteses: ou os que já lá estavam perderam o brio profissional ou foram-se embora do SNS e não foi contabilizada a saída. E porque ninguém gosta de passar por mau profissional, na ausência de esclarecimento oficial e cabal, somos forçados a analisar os dados disponíveis na comunicação social.

Médico do SNS e cofundador do #SNSinBlack

Assim vejamos:

  • De acordo com a edição do Expresso de 03/03/2018, tinham sido contratados para o SNS, desde que o Governo tomou posse a 26/11/2015 e até Janeiro de 2018, 7.805 novos profissionais, dos quais 3.686 médicos, 3.000 enfermeiros, 287 técnicos de diagnóstico, 238 psicólogos, 80 nutricionistas e 58 dentistas. Para um total de 134.017 funcionários no SNS, um acréscimo dos referidos 7.805 face ao anterior Governo.
  • A 11/04/2018, na Comissão Parlamentar de Saúde, o Ministro das Finanças Mário Centeno referiu que “entre Março de 2015 e o mesmo período de 2018 entraram mais 8.480 trabalhadores (3.926 enfermeiros, 2.795 médicos, 460 técnicos de diagnóstico e 778 assistentes operacionais) para o SNS, mais 7,6% em relação à anterior legislatura”.

Em relação ao Expresso passou-se de 7.805 desde Novembro de 2015 para 8.480 contratações desde Março de 2015. E, se 8.480 são 7,6%, então no final da legislatura anterior o número de profissionais do SNS era 111.579. Uma diferença de 14.633 (134.017 - 7.805 = 126.212) para o artigo do Expresso! Em relação aos médicos, passou-se de 3.686 para 2.795 novas contratações, uma variação de 32% relativamente aos números apresentados por Centeno.

Numa notícia da Lusa de 16/04/2018: “Segundo António Costa, neste momento, o Governo está a "conseguir algo diferente", ou seja, reduzir o défice, mas, ao mesmo tempo, construir 113 novos centros de saúde, abrir 700 camas de cuidados continuados por ano e contratar mais 7.900 profissionais para o Serviço Nacional de Saúde.”

E em 04/07/2018, o Ministro da Saúde Adalberto Fernandes, segundo notícia do JN, anunciou que tinha contratado “outros 1.600 profissionais até Junho” já tendo em conta passagem do horário das 40 para as 35 horas semanais dos enfermeiros e assistentes operacionais. Ainda segundo o JN: “Há cerca de duas semanas, também na comissão parlamentar de Saúde, o ministro tinha adiantado que haveria uma primeira fase de contratação agora em Julho e que depois haveria outra fase em Setembro.”

Com base nestas notícias, somos forçados a concluir que as 7.900 contratações, já anunciadas a 16 de Abril pelo dr. António Costa e que se mantêm iguais a 25 de Agosto, têm necessariamente, de incluir as 1.600 novas contratações até Junho de 2018 e as iniciadas em Julho para fazer face aos novos horários...

Mas o essencial mantém-se, sejam 7.900 ou qualquer outro número: quem são, onde estão e o que fazem? E para se perceber melhor o saldo positivo, acrescente-se quantos saíram, qual a categoria e onde estavam? Um esclarecimento essencial para bem do SNS, de todos que lá trabalham e, em particular, de todos que precisam de um SNS forte e diferenciado.

Médico do SNS e cofundador do movimento #SNSinBlack