As abelhas “ganham o gosto” pelos insecticidas: quanto mais ingerem, mais querem

Os efeitos dos insecticidas neonicotinóides nas abelhas são semelhantes aos da nicotina nos humanos, diz um estudo.

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Depois de consumirem os insecticidas neonicotinóides, as abelhas passam a preferi-los e conseguem até detectá-los Joaquim Alves Gaspar

Depois de ingerirem pequenas concentrações de insecticidas neonicotinóides, as abelhas “ganham o gosto” por estes insecticidas, preferindo-os em detrimento de alimentos não contaminados. Esta conclusão consta de um estudo publicado esta quarta-feira na revista científica Proceedings of the Royal Society B.

Ao longo de dez dias, os investigadores da Universidade de Queen Mary e do Imperial College, em Londres, expuseram dez colónias de abelhas a sacarose simples e a sacarose com diferentes concentrações de insecticidas neonicotinóides — substâncias quimicamente semelhantes à nicotina usadas para proteger as plantas dos insectos, afectando o seu sistema nervoso central, causando-lhes paralisia ou até a morte.

Ao início, as abelhas preferiram a sacarose não alterada, mas com o tempo as abelhas passaram a preferir os alimentos com insecticidas, mesmo tendo a possibilidade de consumir alimentos não contaminados. Os insectos conseguiam até detectar a substância e mudar as suas rotinas para procurar sacarose com concentrações de neonicotinóides (no estudo foi testado o tiametoxam).

“Curiosamente, os neonicotinóides afectam terminações nervosas nos insectos que são parecidas com as terminações afectadas pela nicotina nos mamíferos”, disse um dos autores do estudo, Richard Gill, citado no comunicado do Imperial College. As conclusões mostram que este gosto adquirido é sintomático de um “comportamento de dependência”, mas é necessária mais investigação para saber o que causa este vício.

Este aumento de exposição aos neonicotinóides pode ser preocupante tendo em conta que pode “afectar de forma negativa as funções motoras, aprendizagem, orientação e navegação” das abelhas — o que, a longo prazo, afectaria também as colónias, refere o estudo. Alguns destes pesticidas podem também ter efeitos nocivos no sistema nervoso humano

Os cientistas ressalvam que os pesticidas têm um papel importante na segurança alimentar, mas podem afectar outras espécies que não as pretendidas – como as abelhas, que ajudam a polinizar colheitas e árvores de fruto. A par da perda de habitats, das pragas e das alterações climáticas, o uso de insecticidas é uma das principais ameaças que as abelhas enfrentam.

Os neonicotinóides são dos insecticidas mais usados por todo o mundo, mas têm vindo a ser proibidos nos últimos anos: em Abril deste ano, a União Europeia aprovou uma proposta que proíbe o uso ao ar de livre destes insecticidas por serem danosos para as abelhas. Já nos EUA, a Administração Trump levantou no início de Agosto a proibição destes insecticidas, uma medida que estava em vigor há quase dois anos.