Quantos turistas pode Lisboa receber sem prejudicar a cidade?

PCP defende o estudo e definição da “capacidade de carga turística” da cidade e, ao mesmo tempo, um plano de ordenamento para a actividade.

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Enric Vives-Rubio

Sabe-se quantos turistas chegam a Lisboa todos os anos, os sítios onde dormem, os monumentos que visitam e até quanto dinheiro gastam por cá — mas sabe-se qual o real impacto que têm na vida da cidade? Os vereadores do PCP consideram que não e, por isso, pedem à câmara que realize um estudo aprofundado sobre o assunto que depois ajude ao “planeamento e ordenamento da actividade turística na cidade”.

Os eleitos comunistas querem que entre no léxico lisboeta a expressão “capacidade de carga turística” que, citando a Organização Mundial do Turismo, dizem ser “o número máximo de pessoas que pode visitar determinado local turístico, sem afectar o meio físico, económico ou sócio-cultural e sem reduzir de forma inaceitável a qualidade da experiência dos visitantes”. Qual será a capacidade de Lisboa? Quantos turistas pode a cidade receber sem lhe causar prejuízo?

Numa análise que fez no ano passado, o geógrafo Luís Mendes chegou à conclusão de que em Alfama há um turista por cada dois moradores. Este resultado, diz, teve em conta apenas as camas publicitadas num site de reservas, o Booking (não o Airbnb ou o HomeAway) e considerou a população que o bairro tinha nos Censos de 2011. “O valor encontra-se claramente subestimado”, alerta o investigador do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa (IGOT), que colaborou com o PCP nesta proposta. “Pensa-se que já se ultrapassou, em alguns bairros, a capacidade de carga turística”, diz.

São estas perguntas que devem ser respondidas, defendem os vereadores, que, nos considerandos da proposta que vão defender brevemente na autarquia, apontam já alguns efeitos que consideram negativos: “A expulsão de população da cidade e o aumento dos preços da habitação.”

“O que nos propomos é pensar a actividade turística à escala da cidade e começar a pensar o seu planeamento e o futuro, à semelhança do que já fizeram outras cidades, como Amesterdão ou Barcelona”, diz a vereadora Ana Jara, acrescentando que isso só é possível se se “perceber quais são as dinâmicas turísticas”. O PCP propõe “um processo de diagnóstico e de avaliação dos impactos do turismo ao nível local” e, posteriormente, a elaboração da Carta do Turismo de Lisboa, “garantindo as condições de acompanhamento e verificação da capacidade de carga turística”.

“O turismo deve desenvolver-se em equilíbrio com a comunidade de destino”, afirma Luís Mendes. “A saturação turística não só aliena a comunidade de destino, ao impor uma mudança radical no estilo de vida, como desvaloriza a própria área turística”, diz o geógrafo, para quem “é premente e pertinente” fazer-se “quase um diagnóstico anual” para se poder “informar de forma mais esclarecida a tomada de decisão da administração”.

A Câmara de Lisboa tem actualmente em curso um estudo sobre o alojamento local nos diferentes bairros e freguesias, com o objectivo de definir as zonas de contenção previstas na nova lei. Também já foi feita uma análise dos fluxos turísticos aquando da transferência para algumas juntas de verbas resultantes da taxa turística.

Mas, defendem o PCP e Luís Mendes, não chega. “Em grande medida, é ainda o mercado a determinar o desenvolvimento
turístico da cidade”, considera o vereador João Ferreira. “Esta é uma proposta inovadora e fundamental para mitigar as consequências do turismo e também para assegurar um turismo de qualidade em Lisboa”, defende. Para Luís Mendes, é necessário “pensar-se um plano de ordenamento turístico para a cidade”, defende, por sua vez,
o investigador do IGOT. “É preciso uma política. Não existe política, só a ideia de livre mercado,
com base na ideia de que ele se auto-regulará.”