Opinião

O que ainda esperar do Brasil em 2018?

Alguns artigos nos media brasileiros e pelo mundo foram publicados retratando o Brasil como “um regime completamente desmoralizado, sem parlamento, sem governo, sem política e sem autoridade”

Na noite da última sexta-feira, sucederam dois grandes factos políticos no Brasil: o debate entre os candidatos à presidência e a decisão do comité de Direitos Humanos da ONU.

Sobre o debate decidi fazer uma análise quantitativa de seu conteúdo, separando as expressões colocadas no gráfico (aqui representado) como aquelas que representam o tom do actual momento de crise política no Brasil, marcando um ponto cada vez que algum participante mencionasse alguma expressão pré-seleccionada. O gráfico foi realizado com base nas falas dos candidatos, ampliando-se algumas expressões, tais como o termo “corrupto” para ser percebido também como “corrupção” ou a expressão “ensino” também indicar que o candidato está a falar de “educação” ou “religião” estar associada a palavra “Deus”.

Gráfico

Tirando as questões metodológicas, a verdade é que este resumo de conteúdo retrata o que esperar das eleições no Brasil em 2018. Propostas estarrecedoras como a militarização de escolas públicas (Jair Bolsonaro - PSL) ou a alteração para a forma de votação electrónica para cédulas em razão da “glória do Senhor Jesus” (Cabo Daciolo - Patriota) chegaram ao pico do ridículo de, no mais franco oportunismo político, dizer que a operação Lava-Jato da Polícia Federal desencadeadora da prisão de diversas autoridades políticas no Brasil por corrupção, “tem de ser um grande cabo eleitoral” (Álvaro Dias - Podemos).

Para a parcela da população que estava à espera do surgimento de novas lideranças políticas, com discursos mais progressistas e engajados com as demandas provenientes dos quereres sociais, este debate representou efectivamente motivo de frustração. É importante notar que, de acordo com recentes pesquisas, as maiores preocupações da população brasileira são a corrupção, a segurança pública e o desemprego. No entanto, apenas o tema do emprego ficou entre os três mais tratados pelos candidatos, pois, ao contrário do esperado, sobressaíram críticas abstratas sobre o sistema político e a ideia de Deus e religião.

Outro motivo de desalento é a baixa qualidade das lideranças jovens, que estavam inseguras, reproduzindo ideias políticas e até mesmo gestos dos seus antigos mentores ou contaminadas por pensamentos extremamente conservadores e antiquados, provenientes do estreitamento religioso ou ideológico - os candidatos mais jovens eram Guilherme Boulos (36) e Cabo Daciolo (42).

Na ala dos mais velhos, nada de novo. Muita moderação e mais do mesmo. O sistema financeiro bem representado por Henrique Meirelles (MDB), os costumes e as tradições presentes no discurso temperado de Geraldo Alckmin (PSDB) e as reivindicações sobre as injustiças produzidas status quo foram provenientes do candidato Ciro Gomes (PDT).

Sendo que o ponto alto do debate foi a lição de firmeza, postura e segurança que a candidata Marina Silva (REDE) deu no seu oponente Jair Bolsonaro (PSL) ao reivindicar direitos femininos, relembrando a luta da mulher no Brasil que reiteradamente sofre injustas vulnerabilidades profissionais, preconceitos e discriminações ganhando salários expressivamente mais baixos que homens em posições equivalentes, apesar de previsões legais no sentido da igualdade de género.

O segundo facto político é grave factor que trouxe pressão exponencial a todo este quadro de incertezas sobre as lideranças: o comité de Direitos Humanos da ONU, também na última sexta-feira, decidiu que o Estado brasileiro deve assegurar todos os direitos políticos ao ex-presidente Lula - que lidera as últimas pesquisas eleitorais com 38% das intenções de voto, mesmo estando preso por crime de corrupção.

Em razão disto, alguns artigos nos media brasileiros e pelo mundo foram publicados retratando o Brasil como “um regime completamente desmoralizado, sem parlamento, sem governo, sem política e sem autoridade”, por um outro lado o ex-presidente Fernando Henrique Cardozo em recente artigo no jornal New York Times se posicionou dizendo que: “É uma grave distorção da realidade, no entanto, dizer que há uma campanha direccionada no Brasil para perseguir indivíduos específicos. O meu país merece mais respeito”.

Ao fim e ao cabo, respondendo à pergunta do título deste artigo e tirando teorias conspiratórias, próprias do século passado, e diagnósticos distópicos sobre o futuro político do país, espero o melhor do Brasil ainda em 2018, apesar de Camões já nos alertar que: com relação as coisas impossíveis, é melhor esquecê-las que desejá-la.