Cohen e Manafort – os homens do Presidente

Debaixo dos holofotes pelos crimes que cometeram, antigo advogado do Presidente e o seu ex-director da campanha foram peças importantes do “show Trump”, até saírem do núcleo duro pela porta pequena.

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Paul Manafort, ex-director da campanha presidencial de Trumo Reuters/Yuri Gripas
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Michael Cohen, antigo advogado de Trump EPA/JASON SZENES

Ao longo dos quase 20 meses que Donald Trump já leva como Presidente dos Estados Unidos não faltaram dias atribulados, momentos infelizes e revelações controversas, que abalaram a sua reputação. No compêndio de episódios negros que envolvem a actual Administração consta já o dia 21 de Agosto de 2018: aquele em que dois aliados muito próximos de Trump foram considerados culpados por crimes graves, cujos contornos ameaçam o chefe de Estado.

Michael Cohen e Paul Manafort foram, na terça-feira, protagonistas em todas as televisões e jornais dos EUA. O primeiro, advogado de longa data e amigo do Presidente, declarou-se culpado pelos crimes de fraude bancária, fuga aos impostos e violação das leis federais, incluindo pagamentos a duas mulheres que terão tido casos com Trump pelo seu silêncio, durante a corrida deste Casa Branca. 

O segundo, director da campanha presidencial do magnata entre Março e Agosto de 2016, foi acusado de evasão fiscal e de outros delitos de natureza bancária, e está debaixo da mira do procurador especial para o dossier russo, Robert Mueller, pelo relacionamento profissional com oligarcas e políticos ucranianos – incluindo o ex-Presidente Viktor Ianukovich – próximos de Vladimir Putin.

Dois desenlaces distintos, de dois casos judiciais distintos e que envolvem dois antigos funcionários com tarefas distintas na equipa de Trump. Este sim, o aparente único ponto de ligação entre os dois e o potencial principal afectado pelos delitos que aqueles cometeram, caso se prove que também ele, Trump, esteve envolvido ou deu consentimento a ambos os esquemas ilícitos.

Mas quem são, afinal, as duas personagens e como é que integraram o elenco do “show Trump”?

Cohen, o “pitbull

Pelo actual Presidente dos EUA, Michael Cohen disse que se poria à frente de uma bala. Já referido como o “protector”, o “saco de pancada”, o “escudo” ou o “pitbull” de Trump, o advogado de 51 anos era, até há pouco tempo, o mais alto exemplo de lealdade e fidelidade para com o magnata, e não tinha vergonha de confessar, a alto e bom som, em entrevistas ou nas redes sociais, que por ele era capaz de cruzar todas as linhas vermelhas.

Filho de um imigrante polaco que sobreviveu a um campo de concentração nazi, Cohen cresceu em Long Island (Nova Iorque) e formou-se em Direito. Leitor recorrente do best-seller The Art of the Deal, trabalhou numa sociedade de advogados e dirigiu um negócio de táxis em Manhattan antes de conhecer Trump.

Foi em 2006, por intermédio de Donald Trump Jr., e já depois de ter adquirido várias propriedades na Trump Tower, que foi apresentado ao seu ídolo de juventude. O encontro revelou-se um sucesso e um ano depois estava já a trabalhar para a Trump Organization, onde chegou a vice-presidente executivo.

Mais do que prestar aconselhamento jurídico ao magnata, Cohen foi durante anos responsável pelo “trabalho sujo” da empresa, função que executou com eficácia, através de tácticas intimidatórias, pactos de silêncio e acordos pouco claros à luz da legislação americana. 

Os pagamentos à actriz pornográfica Stormy Daniels e à modelo da Playboy Karen McDougal – com quem Trump terá tido casos amorosos –, confessados em tribunal pelo advogado são exemplos desse sentido de missão para com o Presidente, duplamente relevante quando este se meteu na política e, particularmente, se lançou na corrida à Casa Branca.

O duro divórcio entre o empregado-que-virou-amigo e o patrão deixou o primeiro ferido no orgulho e precipitou uma guerra aberta que pode abalar o segundo, tanto pelo conteúdo do acordo entre Cohen e a justiça de Nova Iorque, como pela atenção que a relação próxima com Trump está a merecer por parte do FBI e da equipa de Mueller.

Manafort, o aglutinador

Ao contrário de Cohen, Manafort construiu a sua reputação muito antes conhecer Trump. Foi, aliás, a sua própria reputação que levou o então candidato à nomeação como candidato presidencial pelo Partido Republicano a ir bater à sua porta, para garantir que os delegados do partido que lhe haviam prometido apoio iriam efectivamente depositar-lhe o seu voto.

O aconselhamento prestado a Gerard Ford (1976), Ronald Reagan (1980 e 1984) e a George Bush (1988), nas suas campanhas eleitorais, foi razão mais do que suficiente para Trump o contratar para gerir a sua, em Março de 2016, e impulsioná-la para o combate final que viria a ser travado com Hillary Clinton.

Reconhecido aglutinador de vontades dentro do GOP (o Partido Republicano), o empresário, consultor político e lobbyista aceitou o convite e dirigiu, durante cinco meses, a campanha de Trump. Foi obrigado a abandonar o barco numa altura em que se adensavam as denúncias de conluio com agentes ligados ao Kremlin e à sua volta pairavam suspeitas devido às amizades russas.

Nascido em 1949 e criado em New Britain (Connecticut), Manafort cresceu numa família com forte tradição republicana – o pai exerceu o cargo de mayor durante três mandatos – e com negócios no ramo imobiliário. Formou-se em Direito e exerceu advocacia em Washington antes de se meter nos bastidores da política.

Para além das campanhas internas, esteve envolvido em trabalhos fora de portas, onde se destacam as cooperações controversas com os ditadores Ferdinando Marcos (Filipinas) e Mobutu Sese Seko (antigo Zaire) e com o Presidente pró-Rússia da Ucrânia, Viktor Ianukovich – deposto em 2014 durante os movimentos revoltosos que deram origem à guerra civil e à anexação russa da Crimeia. Prestou ainda aconselhamento político e económico a oligarcas próximos de Putin.

Pese o seu afastamento da equipa de Trump, por enquanto ainda conta com o apoio do Presidente, que esta quarta-feira elogiou, no Twitter, a sua “recusa em ‘quebrar’” perante “histórias inventadas” e partilhou o seu “enorme respeito por tão bravo homem”.

As suas ligações à Rússia, porém, não vão deixar Mueller descansado e são neste momento um dos principais focos de interesse do procurador e da sua equipa. Juntando estas suspeitas ao que Cohen pode vir a revelar sobre o assunto, certo é que o Presidente tem nestes dois antigos devotos e conhecedores profundos da sua conduta dos últimos tempos inimigos potenciais. E sobre eles paira a ameaça de pesadíssimas penas de prisão.