Anterior Governo italiano foi avisado sobre a fragilidade da ponte de Génova meses antes

O executivo chefiado por Paolo Gentiloni foi informado sobre a corrosão dos pilares que sustentavam a estrutura.

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A queda da ponte provocou a morte a 43 pessoas LUSA/LUCA ZENNARO

O estado degradado da ponte Morandi, de 1182 metros de comprimento e 90 de altura — tendo a queda de um trecho a 14 de Agosto provocado a morte de 43 pessoas —, era conhecido das entidades responsáveis pela sua manutenção. De acordo com a revista italiana L’Espresso, o Ministério dos Transportes italiano e a direcção da empresa Autostrade per l’Italia, filial da Atlantia e responsável pela gestão da ponte Morandi, sabiam dos problemas de segurança da ponte.

Há seis meses, quando o executivo, que era chefiado por Paolo Gentiloni, foi informado de que a corrosão dos pilares que sustentam a estrutura diminuíra em 20% a capacidade de resistência dos cabos metálicos que asseguravam o equilíbrio da estrutura. O estudo foi apresentado pela própria direcção da empresa Autostrade per l’Italia e apontava fragilidades no pilar 9, justamente aquele que ruiu. Os documentos entregues ao Governo italiano são citados e anexados pelo L’Espresso, um suplemento semanal do jornal La Repubblica.

A reunião entre o Ministério dos Transportes e a empresa Autostrade per l’Italia data de Fevereiro deste ano. A acta da reunião é assinada por Roberto Ferraza, o mesmo arquitecto que irá dirigir as investigações ao desabamento e por Antonio Brencich, professor na Faculdade de Engenharia da Universidade de Génova, que dias depois da queda da ponte, em várias entrevistas, falou na fragilidade da estrutura. No entanto, na acta, nenhum dos dois fez qualquer recomendação para aliviar a carga e a fadiga da construção.

Apesar de o relatório tirar conclusões preocupantes, nem o ministério nem a empresa concessionária ponderaram limitar o tráfego, desviar veículos pesados, reduzir de duas para uma pista por faixa de rodagem ou diminuir a velocidade, sublinha a publicação italiana.

Sabe-se também que o arquitecto escolhido pelo ministro dos Transportes, Danilo Toninelli, para dirigir a investigação à queda da ponte é o mesmo que assina a acta da reunião entre o anterior Governo e a equipa concessionária. 

À data do acidente, Toninelli escreveu no seu Facebook que “os directores da Autostrade per l’Italia devem demitir-se antes de mais nada”.

Danilo Toninelli acusou a empresa de ter falhado no cumprimento das inspecções obrigatórias e na manutenção da ponte e que, por isso, terá de contribuir para a sua reconstrução. “Às empresas que gerem as nossas auto-estradas pagamos as portagens mais caras da Europa, enquanto elas pagam concessões a preços vergonhosos”, disse Toninelli no local do desastre.

Governo concentrado em multar Atlantia

O Governo de coligação entre a Liga e o 5 Estrelas, que tomou posse a 1 de Junho, entretanto, continua a estudar as multas que podem ser aplicadas contra o grupo italiano Atlantia, responsável pela Autostrade per L’Italia, informou o primeiro-ministro, Giuseppe Conte.

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O vice-primeiro-ministro Luigi Di Maio, o primeiro-ministro Giuseppe Conte e o ministro do Interior, Matteo Salvini, apontam culpas à concessionária FLAVIO LO SCALZO/LUSA

“Este documento (com as multas) está na minha pasta e tem viajado comigo nos últimos dias”, disse o primeiro-ministro numa entrevista ao Corriere della Sera. Para o primeiro-ministro, os 500 milhões de euros oferecidos pelo grupo italiano são uma proposta “modesta”. “Podiam quadruplicar ou quintuplicar esse valor.” O Governo diz ainda que já recebeu propostas de outras empresas para reconstruir a ponte.

Esforço financeiro põe em risco metas europeias

Na segunda-feira, um dos responsáveis do Governo recusou avançar se o défice do próximo ano vai pôr em risco as metas europeias, como consequência da queda da ponte e dos custos da sua reconstrução. Os mercados financeiros temem que o esforço do novo Governo aumente o défice.

A agência de notação financeira Moody anunciou também na segunda-feira que vai prolongar a sua avaliação até ao final de Outubro, não descartando a hipótese de baixar o rating da economia italiana, actualmente no nível Baa2 (“risco de crédito moderado”, o 9.º lugar da escala de 21). Esta agência diz que precisa de mais tempo para “compreender o caminho fiscal e a agenda do país”. Já as concorrentes Fitch e S&P Global devem manter o rating de Itália.