Governo italiano não hesita: a culpa é da concessionária das auto-estradas

Balanço mais recente aponta para 39 mortos na queda da ponte em Génova, incluindo três crianças, e 12 feridos graves. Procuradoria lançou investigação para saber se houve homicídio por negligência.

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Ainda continuam operações em busca de corpos e eventuais sobreviventes,Ainda continuam operações em busca de corpos e eventuais sobreviventes ALESSANDRO DI MARCO/EPA,ALESSANDRO DI MARCO/EPA
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Difcilmente se poderão manter as casas debaixo da ponte LUCA ZENNARO/EPA
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Teme-se agora que o resto da ponte colapse LUCA ZENNARO/EPA
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Trabalhos no local da queda da ponte Stefano Rellandini/EPA

O feriado de 15 de Agosto, conhecido em Itália como Ferragosto, em que muitas famílias aproveitam para se reunir em grandes almoços, teve este ano um sabor amargo, depois de na véspera a queda de uma ponte rodoviária em Génova ter causado 39 mortos, de acordo com o balanço mais recente.

O Governo anunciou que vai proceder a uma inspecção de infra-estruturas rodoviárias envelhecidas em todo o país, como túneis e pontes, e prometeu fazer intervenções onde forem detectados problemas. Foi também decretado o estado de emergência para a região da Ligúria e o primeiro-ministro, Giuseppe Conte, disse que vão ser disponibilizados cinco milhões de euros de fundos da Administração Central.

Mas o dia ficou marcado pelo apontar de dedo unânime feito pelo Governo italiano –  uma coligação entre o partido anti-sistema 5 Estrelas e os eurocépticos e xenófobos da Liga – à empresa concessionária da A10, a auto-estrada onde a ponte Morandi estava incluída. “Os responsáveis têm um nome e um sobrenome: Autostrade per L’Italia”, declarou o vice-primeiro-ministro Luigi Di Maio, referindo-se à empresa que explora a auto-estrada onde se deu o colapso.

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O ministro dos Transportes, Danilo Toninelli, e o vice-primeiro-ministro, Luigi Di Maio, ao centro, no local do acidente ALESSANDRO DI MARCO/EPA

O dirigente do Movimento 5 Estrelas acusou mesmo a empresa de não ter levado a cabo a manutenção do viaduto e pediu a demissão da direcção. Di Maio disse ainda que se a negligência da Autostrade se provar, a operadora poderá ter de pagar 150 milhões de euros.

Pelo mesmo tom alinhou o ministro do Interior e líder da Liga, Matteo Salvini, que disse que a “revogação da concessão é o mínimo que se pode esperar”. Salvini disse que o Governo quer saber que parte dos lucros das concessionárias rodoviárias é reinvestida em segurança e sugeriu que há problemas semelhantes em várias partes do país. “Alertaram-me para situações de perigo até na Calabria”, afirmou, numa visita àquela região.

Em visita ao local do desastre, o ministro dos Transportes, Danilo Toninelli, acusou a empresa de ter falhado no cumprimento das inspecções obrigatórias e na manutenção da ponte e que, por isso, terá de contribuir para a sua reconstrução. "Às empresas que gerem as nossas auto-estradas pagamos as portagens mais caras da Europa, enquanto elas pagam concessões a preços vergonhosos", disse Toninelli, que também pediu a demissão da direcção da empresa.

Empresa resiste

A Autostrade per L’Italia, que integra o grupo italiano Atlantia, especializado em concessões rodoviárias em vários países, incluindo o Brasil, diz que cumpriu todas as exigências contratuais em termos de segurança. A empresa garante que as operações de inspecção foram realizadas com “empresas e instituições que são líderes mundiais em testes e inspecções” e que os resultados obtidos foram adequados. “Os diagnósticos compuseram a base para as obras de manutenção aprovadas pelo Ministério dos Transportes, de acordo com a lei e com os termos do contrato de concessão”, afirmou a empresa, num comunicado citado pela Reuters.

A Autostrade opera 2855 km de auto-estradas em Itália através de um contrato de concessão válido por mais 20 anos e que em 2017 rendeu mais de 3,6 mil milhões de euros. A empresa não comentou publicamente as exigências de demissão feitas pelo Governo, mas fontes próximas dizem que a direcção irá resistir aos pedidos.

Adivinha-se uma dura batalha nos tribunais. A procuradoria de Génova abriu uma investigação ao colapso da ponte Morandi para averiguar se terá existido crime de homicídio por negligência. Aos jornalistas, o procurador-geral da cidade, Francesco Cozzi, mostrou-se convicto de que o desastre “não foi uma fatalidade, mas sim [causado por] erro humano”.

Buscas sem esperança

Durante a noite, centenas de bombeiros tentaram procurar sobreviventes entre os escombros do viaduto de pouco mais de um quilómetro de comprimento. Porém, de manhã havia já reduzidas esperanças em encontrar alguém vivo. Na verdade, as buscas saldaram-se apenas em mais corpos, tornando o balanço ainda mais negro.

Há pelo menos 39 mortos, incluindo três crianças e dois cadáveres por identificar. Foram hospitalizadas 16 pessoas, 12 das quais em estado grave. O Governo de Paris confirmou que entre os mortos estão três cidadãos franceses – a ponte era um ponto de passagem obrigatória para os condutores que faziam a ligação entre Génova e fronteira com França.

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Pessoas obrigadas a deixar as suas casas, por segurança LUCA ZENNARO/EPA

Apesar do drama humano, houve relatos de sobreviventes que escaparam à morte quase por milagre. Um deles foi o antigo futebolista profissional Davide Capello que estava a atravessar a ponte quando a sentiu desabar sob o carro onde seguia. O veículo caiu os 50 metros de altura da ponte, e embora tenha ficado destruído, o homem de 33 anos sofreu apenas ferimentos ligeiros.

Prédios em risco

Enquanto ainda se choravam os mortos, um novo alerta tornou-se fonte de mais preocupação. As autoridades locais mostraram-se receosas de que os pilares e parte do tabuleiro da ponte que restam possam colapsar sobre os prédios. O presidente da região da Liguria, Giovanni Toti, disse, citado pelo jornal La Repubblica, que "se está a trabalhar para arranjar uma solução alternativa para as 311 famílias" que foram desalojadas por causa do risco de colapso.

Em causa está um bloco de apartamentos situado por baixo de um dos pilares. Na terça-feira, os cerca de 440 moradores foram evacuados imediatamente após a queda da ponte e pensava-se que poderiam regressar. Mas o autarca de Génova, Marco Bucci, disse ter "sérias dúvidas" que essas casas possam ser mantidas.

Outro foco de grande preocupação nos próximos tempos será o impacto que o desastre vai ter no tráfego local. A auto-estrada que incluía o viaduto construído nos anos 1960 é crucial para ligar Génova à fronteira com França e a toda a região da Riviera Italiana, utilizada tanto por turistas como por camiões de mercadorias. “A ponte era extremamente importante para o eixo Este-Oeste”, disse o autarca de Génova. Para já, a alternativa deverá passar por um reforço da oferta de transportes públicos, autocarros e comboios, que será gratuito em alguns troços, explicou Bucci.