Opinião

Matem-se e esfolem-se, no final só as empresas do costume vão ganhar dinheiro no vinho

Não há santinhos na grande distribuição. Mas seria uma grande estultícia culpar as cadeias pelas dificuldades do sector. A verdade é esta: as grandes superfícies vendem vinhos demasiado baratos porque há quem aceite, por necessidade ou por mera estratégia comercial, vender-lhos demasiado baratos.

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Bruno Lisita

Não há estudo sobre a realidade do vinho português que supere uma simples visita a um qualquer hipermercado nacional. As misérias e as fanfarronices do sector estão ali expostas cruamente, em letreiros a anunciar promoções de 20, 35, 50 e 70% em inúmeros vinhos.

Dizem que foi o Continente (empresa da Sonae, dona do PÚBLICO) quem inventou a moda dos descontos de 70%. Esta semana aplicou-a a um vinho da Adega Cooperativa de Vila Real, o Cancellus, um vinho que custaria antes 9,99 euros e que agora está à venda por 2,99 euros. Uma pechincha, pensarão os mais incautos. Obviamente que o vinho nunca custou 9,99 euros. Ou melhor, pode ter tido esse preço por uns dias, mas apenas para justificar o grande desconto seguinte.

Regra essencial para entender este negócio: as grandes superfícies nunca perdem. No mínimo, devem ganhar 30 a 35% em cada garrafa. Se o vinho não roda, entra o plano B, que é todo um sortido de promoções. Se houver custos nessas promoções, a conta é enviada ao produtor. Que o digam aqueles que vendem vinho ao Pingo Doce, por exemplo, tida como a cadeia mais agressiva e implacável na hora de comprar e vender barato.

Não há santinhos na grande distribuição. Mas seria uma grande estultícia culpar cadeias como o Continente ou o Pingo Doce pelas dificuldades do sector. A verdade inelutável é esta: as grandes superfícies vendem vinhos demasiado baratos porque há quem aceite, por necessidade ou por mera estratégia comercial, vender-lhos demasiado baratos. Há algumas cooperativas que são useiras e vezeiras no negócio dos preços baixos. Uma delas é a Adega Cooperativa de Vila Real. No Douro, é tida como um bom exemplo de boa gestão e respeitada por pagar a horas aos seus associados. Lamento discordar. Ou melhor, concordo que esta cooperativa é, ainda assim, das melhores da região, uma das poucas que não tem colheitas em atraso, que garante viver com desafogo, que tem investido bastante na sua modernização e que produz alguns bons vinhos. Mas, até pela boa situação financeira que diz atravessar, podia fazer mais. Podia vender vinhos a um preço mais ajustado aos custos reais de produção no Douro, onde se pratica uma viticultura de montanha e os rendimentos por hectare são muito inferiores aos do Alentejo ou do Minho, por exemplo. O Adega de Vila Real Branco Reserva 2016 custa no Continente 2,99 euros. Não é isto um preço de saldo? E o que dizer do Terras de Alleu, da mesma cooperativa, que é vendido a 1,40 euros? Podem contestar: “Mas este é um vinho de mesa, não um DOC Douro”. Pois, e faz algum sentido uma cooperativa do Douro vender vinhos comprados fora da região, em Espanha ou na China? Então a função de uma cooperativa não deveria cingir-se à transformação e valorização das uvas dos seus membros?

Na verdade, vinhos de mesa como o Terras de Alleu e tantos outros vendidos por cooperativas e empresas do sector são verdadeiros embustes, porque o consumidor menos informado é levado a associá-los à região. Quem compra um vinho de mesa da Adega de Santa Marta de Penaguião, por exemplo, julga que está a comprar um vinho do Douro. Não imagina que esse vinho possa ter sido feito com uvas de Castilha- La Mancha, em Espanha, ou de outro lugar qualquer.

Tenho muito respeito pelo cooperativismo, quando se rege pelos princípios que justificam a sua existência e as benesses legais e fiscais que o Estado lhe atribui. Em certos lugares, mais periféricos, as cooperativas são a única alternativa para os viticultores locais. Mas, em regiões mais robustas, não seria nenhum drama se algumas delas encerrassem as portas. Quando fecha uma má cooperativa, o seu espaço é sempre ocupado por outros operadores. É assim que funciona o mercado.

Não podemos ter medo das palavras: uma boa parte das adegas cooperativas portuguesas tem um longo historial de má gestão e nepotismo. Em vez de contribuírem para o desenvolvimento das regiões onde estão implantadas, patrocinam o seu atraso. Como não têm qualquer pressão sobre o preço a pagar aos viticultores, podem vender os vinhos ao desbarato. O que se ganha com cooperativas destas? Além de condenarem muitos viticultores a uma vida de pobreza, desvirtuam a concorrência e prejudicam a imagem das boas cooperativas, as que merecem realmente o nosso apreço, pela forma profissional como são geridas. São poucas, infelizmente, mas existem algumas em Portugal.

Não se julgue, porém, que as cooperativas são as únicas com pecados na política das promoções e dos preços baixos. No mesmo dia em que estavam em promoção no Continente os vinhos da Adega de Vila Real, também se podia comprar um vinho da Quinta do Vallado, o Quadrifolia, com 50% de desconto (passou de 6,79 euros para 3,39 euros). E, fora das cooperativas, a Quinta do Vallado também está longe de ser a excepção. É assim um pouco por todo o país. A cada dia que passa, parece que aumenta o clima de terra queimada nos vinhos. Há sempre alguém disponível para vender ainda mais barato e, pior, quem se digladie para fornecer vinho com grande desconto aos seus maiores concorrentes, que são as marcas brancas das grandes superfícies. Não deve haver maior perversão do que esta. 

Matem-se e esfolem-se. No final, como sempre, vão triunfar as empresas do costume, as realmente grandes, as que não precisam de se curvar para impor os seus preços e que podem investir fortunas em promoção. São empresas do tipo Sogrape, Aveleda, Symington ou Esporão as que ganham realmente dinheiro a vender vinho. A imensa maioria vai tentando manter-se à tona, entretida em jantares vínicos, feiras e posts no Facebook a anunciar mais uma novidade ou a boa nota dos críticos, sem deixar de sonhar com o importador chinês que um dia irá levar o vinho todo. E não falta quem viva feliz assim.