Meo acabou 2017 com prejuízo de 157 milhões de euros

A factura com juros, a comissão anual da Altice e o aumento dos custos com conteúdos e com a redução de efectivos, aliados à queda das receitas, agravaram os prejuízos da empresa de telecomunicações.

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Patrick Drahi, líder do grupo Altice NFACTOS / FERNANDO VELUDO

Pelo segundo ano consecutivo (e naquele que foi o segundo exercício completo sob gestão da Altice), as contas da Meo terminaram no vermelho e com um notório agravamento dos prejuízos. De acordo com o relatório e contas da operadora de telecomunicações, o ano de 2017 saldou-se com um resultado líquido negativo de 157 milhões de euros, bastante superior ao prejuízo de 13,2 milhões de euros de 2016.

De acordo com o documento que o PÚBLICO consultou, as contas de 2017 voltaram a reflectir o peso da elevada factura com juros paga à accionista PT Portugal, que atingiu 318 milhões de juros (abaixo dos 330 milhões pagos no ano anterior).

Recorde-se que a Altice Portugal, que em 2015 comprou a PT Portugal à brasileira Oi, endividou-se em cerca de 5789 milhões para fazê-lo (junto do seu accionista único, a Altice West Europe) e transferiu as responsabilidades de grande parte deste financiamento (5593,9 milhões) para a própria PT Portugal, substituindo dívida antiga por dívida nova. É assim, sob a forma de suprimentos, que “têm vencimento em 2025 e vencem juros à taxa anual de 6,4%”, que este encargo acaba na Meo, o activo operacional da PT Portugal/Altice.

Depois de um acordo de compensação de créditos no valor de 554 milhões de euros em 2016, em 2017 a Meo efectuou um reembolso parcial de 200 milhões de euros do montante em dívida à PT Portugal, indica o documento. Por outro lado, também recebeu prestações acessórias da sua accionista no montante de 200 milhões. Este tipo de prestações – que foram “integralmente recebidas em Agosto de 2017” – destinam-se habitualmente a reforçar os capitais próprios da empresa e não pagam juros, nem têm prazo de reembolso definido. 

Segundo o relatório e contas, a 31 de Dezembro de 2017, o total de saldos credores da PT Portugal sobre a Meo atingia 4910 milhões de euros. Este montante não se resume ao empréstimo relacionado com a compra da PT Portugal à Oi. Isto porque a operadora de telecomunicações também aumentou em 125 milhões de euros o valor em dívida no âmbito do sistema de tesouraria centralizada do grupo. Estes financiamentos, “que têm maturidades de curto prazo e vencem juros cuja taxa está indexada ao custo de financiamento da PT Portugal”, somavam 258,5 milhões de euros em Dezembro.

Este tipo de carrosel financeiro é habitual na gestão complexa que a Altice desenvolve na sua actividade, tendo para isso montado um quartel-geral na Suíça com uma equipa de especialistas cuja missão é fazer uma gestão activa do elevado endividamento que tem alimentado a expansão agressiva do grupo. A dívida total da Altice atingiu os 50 mil milhões de euros no final do ano passado, tendo soado os alarmes no topo da hierarquia liderada por Patrick Drahi. E motivado um ambicioso plano de venda de activos para reduzir os encargos financeiros, que está em curso. 

Comissão Altice, fogos e conteúdos 

Os cerca de 300 milhões de euros de encargos com juros são um elemento determinante nos resultados, mas há outros factores operacionais que influenciaram as contas de 2017. A começar pelas receitas que, num mercado com “elevados níveis de penetração” e “forte pressão competitiva”, recuaram em cerca de 86 milhões de euros, para 2178 milhões. Por outro lado, os custos operacionais subiram cerca de três milhões de euros, para 1248 milhões (reflectindo a subida dos custos com os conteúdos televisivos, que anularam poupanças nos gastos com pessoal e gastos gerais e administrativos), resultando num lucro antes de impostos, juros amortizações e depreciações (EBITDA) de 930 milhões, menos 89 milhões do que em 2016.

Se as depreciações e amortizações caíram 1,3% para 618 milhões, os “outros gastos” aumentaram 22,2%, para 93 milhões. E é nesta linha que encontramos outro elemento determinante para o resultado operacional: o pagamento da comissão devida à Altice Management International “para beneficiar do seu know-how na implementação do Altice Way e serviços relacionados”. Esta comissão, calculada em função das receitas da empresa, fixou-se em 54,4 milhões de euros (56,6 milhões de 2016). O pagamento desta taxa de participação no universo Altice é comum às várias subsidiárias do grupo liderado por Patrick Drahi, espalhadas pelos Estados Unidos, França ou Israel.

Na rubrica de "outros gastos" também se incluem as perdas de 11,1 milhões de euros com activos não financeiros, cujo aumento, de 6,9 milhões, a Meo atribui aos activos de rede que foram destruídos pelos fogos. E entram também os 18 milhões de euros em gastos com redução de efectivos (mais nove milhões face a 2016), já que a empresa terminou o ano com menos 597 trabalhadores (num total de 7955 trabalhadores), e um gasto de 4,4 milhões de euros em donativos.

Contas feitas, chegamos a um resultado operacional de 218,5 milhões (menos 30,9% face a 2016), ao qual são descontados, entre outros custos financeiros, os juros suportados com os empréstimos obtidos junto da PT Portugal/Altice (318 milhões). Essa matemática empurra os resultados antes de impostos para um valor negativo de 112 milhões de euros (12,7 milhões em 2016).

Como a Meo reporta um imposto sobre o rendimento de 44 milhões de euros (que comparam com os 600 mil euros em 2016 e que a empresa explica com “o impacto do aumento da taxa de imposto utilizada na mensuração dos passivos por impostos diferidos”), o resultado líquido do exercício resulta num prejuízo de 156,5 milhões de euros.

A Meo reporta ainda um reforço de 17,8% no investimento realizado em 2017, para 452 milhões, e nota que “continua a aumentar a cobertura das suas redes de alta velocidade” para reforçar “o papel de líder de mercado para a fibra [óptica]”.

Mais serviços, menos receitas

No ano passado, período em que, segundo as estatísticas da Anacom, as receitas totais do mercado caíram cerca de 1%, as receitas operacionais da Meo atingiram 2179 milhões de euros, ficando 3,8% aquém do registado no ano anterior.

As receitas no segmento residencial recuaram 3,2% para 1228 milhões de euros, apesar de a empresa ter fechado o ano com 10,329 milhões de serviços vendidos (mais 3,1%, ou mais 315 mil novas unidades geradoras de receita), “invertendo a tendência do ano anterior”.

O aumento do volume de serviços nem sempre é sinónimo de maiores receitas, como a empresa exemplifica com o caso do segmento móvel: se por um lado as ofertas de pacotes de serviços contribuíram para o aumento da base de clientes dos serviços móveis pós-pagos, por outro, “a competitividade do mercado” e o “empacotamento” têm “exercido pressão sobre os preços dos serviços móveis”.

Por outras palavras, embora o número de clientes aumente, a receita média mensal que a empresa retira de cada um tem decrescido – em concreto, no móvel, em 2017, a queda foi de 7,9%, para 6,3 euros (6,9 euros em 2016). Nas ofertas em fibra (voz, banda larga e TV por subscrição), o cenário repete-se – a receita média mensal por cliente recuou 4,3%, de 39,9 euros, para 38,2 euros.

No segmento empresarial, o volume de serviços manteve-se estável nos 2,5 milhões (invertendo-se a queda no segmento móvel), mas as receitas recuaram 1,7%, para 612 milhões de euros.