Convite a Le Pen continua a indignar: "Não se dá voz ao fascismo", diz deputado do PS

SOS Racismo e Bloco de Esquerda querem que Governo e Câmara de Lisboa tomem posição sobre convite da Web Summit a Le Pen. Socialistas também se indignam.

Web Summit realiza-se em Lisboa
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Web Summit realiza-se em Lisboa Nuno Ferreira Santos

O Bloco de Esquerda marcou uma conferência de imprensa para esta terça-feira à tarde para exigir ao Governo e à Câmara de Lisboa que tomem posição sobre o convite da Web Summit à líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen. O mesmo já tinha feito saber a associação SOS Racismo. O convite, que entretanto virou “desconvite” e de novo convite, não agradou a socialistas, que engrossaram a lista dos indignados.

"Neste momento tem de haver uma tomada de posição e tem de ficar esclarecido qual é que é a posição do Governo e da Câmara de Lisboa sobre este convite", exigiu, em declarações aos jornalistas na sede nacional do BE, em Lisboa, a deputada e dirigente bloquista Isabel Pire.

Para a bloquista, "não é aceitável que dinheiros públicos possam ser utilizados para, na verdade, ajudar Marine Le Pen a ter mais uma plataforma para passar mensagens de xenofobia e de racismo, como é a sua linha política. É um evento que tem um investimento público, há um contrato que foi feito em que estão investidos 3,9 milhões de euros durante estes três anos, divididos ao longo dos mesmos", justificou.

Algumas horas antes, a associação SOS Racismo exigiu que as entidades envolvidas na organização da Web Summit assumissem uma posição pública sobre este convite, defendendo que Marine Le Pen deve ser desconvidada.

O tema tem inundado as redes sociais desde o fim-de-semana, e foi retomado também pelo socialista Tiago Barbosa Ribeiro que defendeu, no Facebook, que “Le Pen não pode falar na Web Summit”.

“Não consigo perceber o que levou alguém a convidar Marine Le Pen para falar na Web Summit nem o que esperaria que as pessoas aprendessem a ouvir aquela espécie de fascismo 2.0 em relação ao velho extremismo do seu pai. Também ainda não percebi, depois de alguma confusão, se já foi ou não desconvidada. Sucede que se não foi, tem de ser”, escreveu o deputado do PS.

“Não podemos permitir este branqueamento do fascismo numa Europa onde ele vai ressurgindo com roupagens trendy, como seria o caso de convidar uma dirigente fascista para subir ao palco de um evento financiado com dinheiros públicos portugueses (…). Ao fascismo não se dá voz: proíbe-se, como na Constituição da República Portuguesa. Mata-se o mal pela raiz, bem cerce, evitando a contaminação da democracia e as tragédias do século XX europeu”, acrescentou.

O comentário de Barbosa Ribeiro vem na linha de outros já noticiados pelo PÚBLICO, como o de João Galamba (“Não se juntam, não [Marine e o pai na Web Summit], que a gente não aceita. Normalização de fascistas já ultrapassa em muito o aceitável”), o de Rui Tavares (“Hoje a cidade [de Lisboa] não pode ficar quieta perante a tentativa de lá dar palco a uma das maiores representantes da xenofobia e do fechamento”) ou o de José Manuel Pureza (“Tenho cá um palpite de que António Costa vai pregar de forma violenta uma moralzinha sobre a presença da Le Pen no Web Summit. Depois irá à sessão de abertura do dito. Pecadilhos.”).

Mas também há – entre os próximos do PS - quem defenda que a decisão sobre quem convidar para a Web Summit cabe exclusivamente aos organizadores. "Se Le Pen será ou não oradora na Web Summit é uma decisão 100% da organização desse evento privado. Ter apoios públicos, atribuídos pelo seu impacto económico e social, não faz deste evento menos privado", defendeu o ex-secretário de Estado João Vasconcelos.

Vasconcelos, que foi um dos membros do Governo responsáveis por trazer a Web Summit para Portugal, também escreveu nas redes sociais que não é seguidor das teorias de Le Pen, mas não lhe “desagrada que ela venha a um evento” em que ele próprio participa.

“De outra maneira não seria possível para mim ouvi-la, tentar entendê-la e assim conseguir combater de maneira mais eficaz as suas ideias (…). Assistir a uma intervenção desta senhora num dos eventos mais tolerantes, sofisticados e cosmopolitas que conheço será um momento único e mais uma vez demonstrador de que a Web Summit já não se trata só de tecnologia e startups mas sim de futuro e de debater que sociedade queremos”, defendeu o ex-governante que não é militante do PS.

Entretanto, o presidente da concelhia do PSD/Lisboa, Paulo Ribeiro, afirmou ao jornal Observador que o partido não se pronuncia sobre a presença da líder da Frente Nacional, Marine Le Pen, na Web Summit, uma vez que o encontro é um “evento privado, com organização privada” e, por isso, “é a organização que decide quem convida ou deixa de convidar”.

Paulo Ribeiro acrescentou, porém, que “se a esquerda, o PS e o Bloco de Esquerda, que têm maioria na câmara, estão incomodados com a presença de Le Pen só têm uma opção: ou patrocinam a vinda e assumem isso ou retiram o patrocínio ao evento“.

Com Lusa